A sala é ampla com pé direito elevado e porte de pavilhão industrial. Observada desde a porta de entrada, a disposição dos trabalhos nos convida a deter o passo e a observar o arranjo por um momento.
Duas paredes, de um lado e de outro da sala, se apresentam tomadas por desenhos negros que avançam para o fundo onde um painel frontal fecha o horizonte com obras trabalhadas em cor.
No percurso inicial entre os quadrados negros de papel disposto frente à frente, uma quebra sutil da austeridade se produz, aqui e ali, por diferenças no alinhamento das molduras, variações nas dimensões e no espaçamento entre os desenhos.
Avançamos em compasso com a sobriedade assentada por essa primeira sequência de obras.
Para o olhar que se distancia das paredes, prevalece a geometria austera, mas entre as bordas do papel, outro mundo nos convoca: diante de um e de outro trabalho, somos capturados pelo torvelinho de luz riscado à caneta, veloz e branca, sobre a escuridão.
O gesto gráfico de Teresa, amadurecido ao longo de sua trajetória como desenhista, pintora e, mais recentemente, gravadora, transborda para o espaço do pavilhão com uma energia que parece não ter fim. Em um instante, somos tragados para dentro do turbilhão de linhas e, num volteio, lançados para o próximo enovelado de ramos se consumindo em fios e manchas, à mercê de uma ventania de folhas.
Um tanto do sentimento que nos toma é de assombro diante da profusão de gestos que encobrem folhas de papel pareadas com a amplitude de nossos braços abertos. Outro tanto, é o efeito produzido pela ausência de conflito entre a geometria estabilizada do quadrado que contém a composição e a vida frenética das linhas que o aceitam sem perder a energia de sua combustão. Cada elemento existe sendo o que é.
Uma pausa ao final do corredor.
Silêncio, música e farfalhar de folhas.
Detemo-nos diante de uma série de gravuras em pequena escala. Reencontramos, nelas, o formato do papel quadrado com o interior emaranhado em luz, agora, grafada sob a forma de linhas impressas. A sobreposição do grafismo sulcado na matriz e transposto ao papel como linhas de relevo quase imperceptível nos convida a acercar o passo e o rosto para uma aproximação física da matéria.
Nesse intimismo, nos aquietamos para ouvir o diálogo entre os prelúdios compostos pelo músico Vagner Cunha. Deixamos que as formas, as cores e o preto, que fazem cada uma das cinco gravuras, dialoguem com as manchas, pontos e linhas sonoras.
Demoramo-nos nesse gabinete de papeis guardados em vitrine. Vemos e ouvimos os casulos de linhas que parecem prestes a romper o vidro ao encontro das notas. Encontramo-nos em um bom momento para um último intervalo.
Com um passo atrás, olhamos ao redor, recompomos a visão do todo, reencontrando a instalação que é mãe e filha de cada obra grafada em “A natureza do gesto”.
Superfícies emaranhadas, vívidas ou sombrias, geradas pelo movimento do punho que passou por toda a parte, integram um ecossistema gráfico, onde cada peça, visual e musical, tem o seu lugar e interexiste.
Assim como ocorre quando estamos diante de uma floresta e é possível discernir a mata das árvores que a compõem, cada desenho, gravura e som que integram a instalação de Teresa também lateja a força que irrompe a terra para afirmar-se ao sol.
Nos últimos anos, Teresa vem apresentando exposições que não são passíveis de serem expografadas ou curadas por outra pessoa. Como ela diz: “não são exposições para mostrar trabalhos individuais, montados isoladamente sobre a parede. São instalações”.
Instalações convocam nosso corpo. À medida que interagimos com “A natureza do gesto”, o espaço arquitetônico se transforma: o pavilhão industrial cede à mata grande e aos micro embaralhamentos das gravuras, (que concentram intimismo), e dos desenhos, (que explodem em escala).
Se o corredor de entrada - com seus desenhos negros atravessados por linhas de luz - sugere que a escuridão predomina na instalação, a parede final nos devolve o branco do papel recortado por gestos vegetais que espalham matizes vivos de vermelho, azul, rosa, amarelo e verde. Diante dela, vêm à lembrança os jardins do ateliê de Pissarro, em Éragny-sur-Epte, na França, onde Teresa alterna morada com sua casa no Brasil. Por causa da cor de Pissarro (e como ela nos chega pelo tributo que a artista presta ao mestre), nos inclinamos a associar a paisagem de Éragny à impressão vívida do sol sobre o frescor dos jardins.
Mas existirão dias sem noite?
“Na escuridão estrelada, a vida também pulsa!” - parecem nos dizer os riscos brancos sobre fundo negro.
Deixamos a sala tomados dessa última comoção.
O trabalho de Teresa acaba de nos devolver dias conciliados com a noite - e no giro da luz mordiscando folhas, a ferocidade alegre de estarmos vivos.
* Maria Helena Bernardes é artista visual, escritora e professora de história da arte.
SERVIÇO:
O Quê: “A natureza do gesto” - exposição de Teresa Poester
Onde: Ocre Galeria (av. Polônia, 495), bairro São Geraldo, Porto Alegre.
Quando: Abertura neste sábado, das 11h às 14h.
Visitação de 18 de maio a 20 de junho de 2026, de segunda a sexta-feira, das 10h às 18h. Sábados, das 10h às 13h30min.
Entrada franca.