Marli Silveira é escritora e poeta de larga formação acadêmica nas áreas de história e filosofia. Tem vários livros de poesia que são vistos pelo crítico Eduardo Jablonski como filosóficos: “No caso da autora, que oferece ideias para que o leitor reflita sobre a convivência diária, o poema vislumbra um caminho filosófico de pensamento (Jablonski, p. 30, 2024). Estudiosa e pesquisadora dedica-se a um trabalho árduo, que é o de proporcionar voz aos que não têm o direito de expressar-se. Fundamentada em bases teóricas sólidas, a autora tem publicado livros na área testemunhal, principalmente sobre as camadas populacionais encarceradas.
No livro “Corpos ardidos” (2025) a autora debruça-se sobre uma parcela da coletividade que está excluída, porém, pertencente a um mundo próprio: “Pessoas, comunidades e grupos humanos posicionados dentro de um “fora”. p. 14. Como habitar este mundo ao mesmo tempo “fora” do nosso, e pertencente a um dentro próprio, mas incompreendido? Seres privados de liberdade necessitam de testemunho. A literatura permite um espaço de manifestação e recuperação da voz perdida.
A autora coloca-se ao lado das mulheres encarceradas, não só por empatia ou amor desinteressado ao outro –, mas por uma vontade proativa de intervir no processo de desumanização a que são submetidas essas pessoas. Mais do que a reintegração à sociedade, necessária, busca-se aqui o direito à identidade. O fato de acompanhar a voz destas mulheres desprovidas de aparentes conteúdos, faz com que exista uma manifesta necessidade de reinterpretá-las de dentro, do que são e sentem a partir do existir e ser dentro de uma cela.
“Corpos Ardidos” porque a dor queima nelas sem que os de “fora” sintam a dor que delas emana. Vistas de “fora” essas pessoas privadas de liberdade parecem viver num não tempo, num não espaço, desumanizadas reiteradamente: “O corpo da pessoa privada de liberdade é um corpo marcado pelas regras, pela impossibilidade do ir e vir, pela clausura e pela violência física. Mas é também marcado pela violência moral e pelas práticas que pautam discursos que orientam modos de percebê-los, enquadrá-los e culpabilizá-los.” (p. 19)
A questão da criminalidade que leva a cada vez maior exclusão, está afeta às parcelas empobrecidas e alijadas dos centros de poder da sociedade “(...) é sobre as populações mais empobrecidas e grupos precarizados que recai a pena de privação de liberdade, como um dispositivo que marca e demarca os corpos passíveis de prisão e sujeitos aos mecanismos de aprisionamentos dos vulneráveis sociais.” (p. 21).
HUMANIDADE
Na contramão do sentimento público da falta de segurança, que exige cada vez mais criminalização e punição de camadas maiores de deserdados, a autora assume uma posição antagônica e difícil, a de proporcionar humanidade a esses excluídos e punidos: “Reconhecer na pessoa privada de liberdade a mesma dignidade das outras pessoas (...).” Uma posição reflexiva que permite a autora enfrentar, desassombradamente e com distanciamento crítico, as visões de mundo parciais e regressivas.
Entra aí a questão do testemunho que é muito maior do que o simplesmente extravasar um sentimento ou uma ideia para outro. É onde o testemunho se coloca como uma categoria histórica onde o que foi testemunhado é levado adiante como um dever solidário. O conteúdo do que foi ouvido de alguma fonte primária – no caso vozes precarizadas e excluídas –, é levado para o futuro para que as condições de precariedade e violência não se repitam.
Para entendermos a importância do testemunho é necessário que nos coloquemos, de certa maneira, contrários ao movimento tido como normal na manifestação e difusão das matérias culturais: “Por isso, é preciso ver a história a partir de outra ótica, a contrapelo, permitindo que os grupos e as pessoas empurradas para o esquecimento possam contar as suas histórias (...). (p. 43)
Sobre os testemunhos das presidiárias são textos muito expressivos e reflexivos. Uma frase da detenta que se assina Querubim explica muito da perspectiva de quem foi levado a uma cela, no sentido de uma aprendizagem, que pode ser cultural e espiritualmente para sair do malfeito, ou observar para melhorar a eficácia do método do erro cometido: “Tenho, no meu pensamento desde que entrei aqui, que são duas as escolhas: aprender com os meus erros ou aperfeiçoá-los.” (p. 69). Não há manipulação ou tentativa de vitimização. Chega a doer de tão sincero.
Não cabe analisar todas as cartas e histórias contadas por essas pessoas encarceradas, mas o que fica da leitura dos textos testemunhais é que a literatura e a filosofia podem, sim, trabalhar dentro dos indivíduos até levá-los à compreensão de si mesmos e de seus atos. Podem proporcionar uma visão de mundo além do limite estreito de suas celas. Daí a importância da solidariedade e empatia de pessoas como a professora Marli Silveira que têm a iniciativa e o poder de resgatá-las.
REFERÊNCIAS
JABLONSKI, Eduardo. “Marli Silveira um ser humano para o outro”: Porto Alegre, Editora Bestiário, 2024.
SILVEIRA, Marli. “Corpos Ardidos”: Porto Alegre, Editora Bestiário, 2025.
SERVIÇO
- O QUÊ: Lançamento do livro “Corpos Ardidos”, de Marli Silveira
- QUANDO: Sábado, 12 de abril, às 16h
- ONDE: Casa das Artes Regina Simonis, em Santa Cruz do Sul
- COMO: Papo da autora com artistas e coordenadores da mostra “Ímpares”. Mediação: Juliana Mai