Caderno de Sábado

Sobre uma obra magistral

Detalhe do Monumento a Júlio de Castilhos, de 1913, localizado na Praça da Matriz
Detalhe do Monumento a Júlio de Castilhos, de 1913, localizado na Praça da Matriz Foto : Gilberto Perin / Divulgação / CP

Certos livros por seu valor literário ou por sua relevância na investigação de alguma área do conhecimento humano já nascem clássicos. Este é destino inexorável de “A Escultura Pública de Porto Alegre”, do historiador da arte e professor do Atelier Livre, José Francisco Alves, que vem à luz neste sábado com a ambiciosa intenção de se tornar a referência definitiva sobre a vasta, importante e nem sempre conhecida rede de monumentos que adorna ruas, praças, parques, cemitérios e fachadas da capital gaúcha. 

Com a paciência de um monge copista, o autor dedicou anos de sua vida a pesquisar, fotografar, catalogar e explicar uma estatuária de variados estilos e concepções, sem qualquer visão apriorística, buscando situar as obras em seu contexto específico, inserindo-as na moldura de sucessivas formulações estéticas e ideológicas, e assim compreendendo tanto os procedimentos técnicos quanto as motivações históricas que as justificam. 

A soma de informações é esmagadora. José Francisco Alves viu tudo, sabe tudo: em seu esforço de abrangência alcança registrar e descrever toda a multiplicidade de obras existentes no espaço público porto-alegrense. Ali estão estátuas, bustos, cabeças, medalhões, obeliscos, marcos comemorativos, elementos escultóricos nas fachadas, arte cemiterial, chafarizes. Não satisfeito, o autor apresenta as ideias que nortearam a implementação dos mesmos, além de resgatar dados de sua execução e os problemas que sofreram no transcurso do tempo. Enumera, inclusive, aqueles projetos que, por um ou outro motivo, acabaram não sendo realizados e foram sepultados pelas avassaladoras mudanças vividas pela urbes moderna. A par disso, no final de seu livro, acrescenta resumos biográficos dos principais escultores e um glossário para iniciantes.

O levantamento se torna mais extraordinário pelas observações formais e interpretações culturais a que esse material é submetido. Há no livro reflexões sobre o significado de certos monumentos na perspectiva dos habitantes da cidade. Caso da estátua do Laçador, que se alçou por sobre o convencionalismo artístico e temático de sua execução e converteu-se – por votação aberta e visível anuência coletiva – no símbolo de Porto Alegre, comprovando que, no imaginário popular (e na esfera da criação artística), o mito frequentemente se sobrepõe ao realismo e às regras do politicamente correto. 

O pesquisador mostra também que nem sempre posturas conservadoras impõem-se ao gosto de parcelas importantes dos cidadãos, evocando a história de um vereador que tentou mobilizar a comunidade para retirar o belo trabalho de Saint-Clair Cemin, (“Supercuia”), acusando-o de ser um “monte de tetas”. Não houve qualquer apoio expressivo à proposta do edil de extirpar as “tetas” e a escultura é hoje uma das referências culturais e turísticas da capital. 

A soma de histórias narradas em torno das escolhas das figuras humanas e mitológicas e dos fatos mais ou menos candentes que foram homenageados em agradecimento ou como exemplo (político, militar, científico, etc.) constitui outro aspecto de fascínio da obra de José Francisco Alves. Por isso, podemos lê-la como uma espécie de romance da cidade. Ou como um breviário do gosto e da visão de mundo de elites, que procuram não apenas eternizar em bronze, granito, ou em outro material imperecível, os seus heróis e seus seres impolutos, mas também transformá-los (no caso da estatuária) em representações admiráveis de beleza artística. Na prosa persuasiva do escritor, cada página, cada verbete, cada informação contém uma dimensão iluminadora sobre o nosso passado e o nosso presente.

UM TEXTO DEFINITIVO

Por ser uma cidade que durante parte considerável do século XX foi a mais ilustrada do país, com taxas de alfabetização superiores à media nacional; pela presença de uma autocracia esclarecida, sob a égide do positivismo, capaz de entender a função exemplar da escultura pública como representação simbólica ou imediata do poder; pela presença de uma memória de guerras e revoluções, com seus múltiplos “heróis” a serem cultivados e relembrados; pela imitação da arte escultórica europeia; pela soma desses e de outros fatores, Porto Alegre converteu-se na capital brasileira com o maior número proporcional de monumentos em espaços abertos. 

Contudo, a emergência de uma sociedade de massas, o crescimento desorganizado das metrópoles e da população, as lacunas educacionais e a enorme dívida social trouxeram como resultado a erupção de um vandalismo irracional que atinge os equipamentos urbanos e as obras de arte no espaço público. Diante de quadro tão deprimente, o primeiro passo que nós, cidadãos, precisamos dar para a defesa do valioso conjunto escultórico da cidade é conhecê-lo e compreendê-lo em sua pluralidade temática e formal. 

Este é o presente que José Francisco Alves – com patrocínio da Unimed e apoio da SIDI – oferece à Porto Alegre, pela comemoração de seus 250 anos. Um livro de arte, muito bem editado, com centenas de preciosas fotografias e textos carregados de paixão e sabedoria. Um livro esplendoroso.

* Professor de Literatura da Ufrgs. Ex-secretário municipal de Cultura. Coordenador de Literatura e Humanidades da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre.