Sócrates, um dos mais influentes filósofos da Grécia Antiga, viveu em Atenas entre 470 a.C. e 399 a.C. Considerado um dos fundadores da filosofia ocidental, tornou-se uma figura ao mesmo tempo central e enigmática do pensamento humano.
Curiosamente, não deixou obras escritas: seu legado chegou até os dias atuais principalmente por meio dos relatos de seus discípulos, sobretudo Platão e Xenofonte.
Segundo registros históricos, iniciou sua formação cultural como seguidor de Anaxágoras. Há indícios de que tenha colaborado com o dramaturgo Eurípides na elaboração de peças teatrais e, em sua juventude, trabalhou como artesão em obras de pedra.
Reconhecido por sua extraordinária oratória, Sócrates destacava-se pela firmeza de caráter, independência intelectual e profunda dignidade pessoal. Esses traços tornaram-se ainda mais evidentes quando, condenado à morte, recusou-se a fugir da prisão, mesmo tendo essa possibilidade. Ao contrário, censurou os amigos que lamentavam seu destino, sustentando que não se devia temer a morte, mas a injustiça.
Sócrates foi também um dos primeiros a ensinar retórica de modo sistemático. Era capaz de fazer os piores argumentos parecerem os melhores — acusação de seus inimigos que revela, paradoxalmente, a força de suas palavras.
Foi pioneiro ao trazer a reflexão filosófica para o cotidiano, discutindo questões morais nas oficinas, na ágora e nas falas informais. Eu não posso ensinar nada a ninguém, eu só posso fazê-lo pensar – dizia modestamente.
Conversava com qualquer pessoa disposta ao diálogo, sempre mais interessado em buscar a verdade do que em convencer seus interlocutores. Para ele, “a vida sem ciência é uma espécie de morte” e havia apenas um bem — o conhecimento — e um único mal — a ignorância.
Sua postura provocadora frequentemente despertava ira e hostilidade. Era insultado, agredido fisicamente e ridicularizado em público com alguma frequência. Ainda assim, suportava tudo com serenidade e parcimônia. Afirmava que “é costume de um tolo quando erra queixar-se do outro; é costume do sábio, queixar-se de si mesmo.”
Apesar das críticas alheias, o Oráculo de Delfos teria declarado que Sócrates estava destinado a ser um grande educador. E é dele a célebre máxima: “Conhece-te a ti mesmo, e conhecerás o universo e os deuses”.
Segundo ele, deve-se ter cuidado com o vazio de uma vida excessivamente ocupada. Manteve um modo simples de viver, coerente com sua filosofia. Dizia sentir-se mais próximo dos deuses por ter poucas necessidades.
Casou-se duas vezes: primeiro com Xântipe, com quem teve um filho, depois com Mirto, com quem teve outros dois. Segundo algumas fontes, ambas teriam sido suas esposas simultaneamente, prática legalizada em Atenas devido à escassez de homens após as guerras - fato que atestaria sua enorme paciência.
Aos 70 anos, Sócrates foi condenado à morte, acusado de não reconhecer os deuses da pólis, introduzir novas divindades e corromper a juventude. Sua pena foi ingerir cicuta, veneno fatal. Incorrigível, manteve o humor e a placidez, sustentando que, no outro mundo, poderia fazer perguntas eternamente sem risco de punição.
Antes do fim, deixou uma reflexão que atravessou os séculos: “Eis a hora de partir: eu para a morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo, ninguém sabe, exceto os deuses”. Considerado o mais sábio dos homens, Sócrates eternizou a frase que resume sua filosofia e sua humildade intelectual: “Só sei que nada sei”.
Nestes tempos de fake news, narrativas de aluguel, redes sociais alucinadas e influencers fajutos, fazem muita falta à humanidade figuras pensantes como Sócrates. Ou alguém discorda?
*Autor: ALCIDES MANDELLI STUMPF é médico e escritor.