Caderno de Sábado

Sol entre Neblina e... “Mormaço”

Em artigo exclusivo para o Caderno de Sábado, a doutora em Letras Maria Alice Braga exalta os 122 anos do nascimento de Manoelito de Ornellas, a partir do segundo livro de memórias, “Mormaço”, seus relatos e vivências em cidades do RS.

Manoelito de Ornellas em sessão de autógrafos durante a VI Feira do Livro de Porto Alegre
Manoelito de Ornellas em sessão de autógrafos durante a VI Feira do Livro de Porto Alegre Foto : CP Memória

Fevereiro é o mês em que lembramos o aniversário do escritor e poeta itaquiense Manoelito de Ornellas, que nasceu aos dezessete dias do ano de 1903, na cidade de Itaqui, às margens do rio Uruguai.

Recordar pertence ao presente, mas o reencontro com o passado permite que possamos reviver, religando o princípio e o fim – a esse percurso denominamos totalidade criadora. Assim, iremos recordar Manoelito de Ornellas por meio de sua arte, de sua escrita e nada mais emblemático, neste momento, do que buscar em “Mormaço”, fatos que trazem o escritor à vida, pois, como bem sabemos, a obra de arte é imortal.

“Ao deixar o último palmo de minha terra xucra, vim pelos caminhos da Depressão Central rumo das escarpas do Planalto Médio. Era março de 1922.” Com essa frase (p. 9), Manoelito de Ornellas inicia “Mormaço”, seu segundo livro de memórias, que focaliza a juventude do autor em terras tão inóspitas quanto sua Itaqui natal.

Em “Mormaço”, o escritor narra a história de Tupanciretã, desde a origem do nome indígena até sua principal fonte de economia, as charqueadas, as quais conferiam um aspecto próprio à paisagem: na época da fartura, os varais de carne ao sol exibiam a economia forte da cidade; no período de recesso, os galpões de madeira resguardavam o fruto do trabalho árduo.

Ele descreve pormenores da vida na cidade, como a geografia do povoado, que era constituído por apenas uma rua, mas muito comprida, onde havia residências, lojas, farmácias, barbearias, alfaiatarias, todo o comércio e mais a igreja, a estação ferroviária, o cinema e o clube. As famílias eram chamadas por seus sobrenomes e todos se conheciam.

Manoelito gostava de ir até a cidade vizinha, Vila Rica (hoje Júlio de Castilhos), à sede do jornal O Popular, a fim de se inteirar das últimas novidades literárias do país. Colaborou com aquele periódico e depois exerceu a função de redator em O Gaúcho, de Tupanciretã.

O escritor relata que, durante o ano de 1926, indo frequentemente à cidade vizinha, Cruz Alta, centro mais desenvolvido que Tupanciretã, lá conheceu Erico Verissimo, jovem dono de uma farmácia.

Cruz Alta foi importante na vida do escritor iniciante pela presença de Erico Verissimo, jovem talentoso com quem Manoelito tinha muitas afinidades, da profissão às leituras comuns, os anseios literários e a juventude. Reuniam-se no Café do Pedro Gigli, para discutir literatura e trocar ideias sobre seus escritos. A amizade perdurou à revelia dos desencontros. Foi em Cruz Alta que os dois amigos sedimentaram a vocação de escritor e Manoelito lembra a publicação do conto de Erico, “Ladrão de Gado”, pela Editora Globo.

Fluía o tempo; o cronológico e o psicológico (p. 87). A referência ao tempo remete à memória, pois o tema essencial de toda autobiografia são realidades experimentadas concretamente, em que a realidade externa se modifica pela vida interior. O autor fala de saudade, de sonho, de fantasia – tudo conjugado à realidade da terra, da geografia local, da rotina daquela vida simples em que o horizonte era marcado pelo friso do Caneleira (1).

Manoelito pensara num livro que se chamaria “Flexilha”, projeto que morreu, coincidentemente, com os ideais da Revolução de 30. Também “Chimarrão”, outro livro que ficou nos originais, foi queimado pelo escritor. Parece que o espírito de desencanto dos anos 30 invadira não só a política, mas o entusiasmo dos jovens que desejavam mudança.

Era um tempo em que o cenário do Rio Grande se dividia entre um campo de luta e a desistência de muitos, com a demanda para o Uruguai. Nessa época, na cidade uruguaia de Rivera, Waldemar Ripoll foi assassinado, um crime que abalou o estado e decepcionou aqueles que desejavam a liberdade e a justiça.

Manoelito recorda seu afastamento, tanto da poesia como da política e enquanto permanecia na pequena cidade do Planalto Médio, começou a pesquisar e a escrever sobre história, afundando-se nos estudos referentes a terra – era o ano de 1934. Começou a estudar a história da região missioneira do Rio Grande do Sul com espírito poético, pois encantava-se com o pensamento de Spengler (2), que dizia:

“A visão histórica, propriamente dita, começa onde acaba o documentário e pertence ao reino das significações. A natureza deve ser tratada cientificamente, mas a história, essa deve sê-lo poeticamente”.

Ornellas seguiu seu propósito nos estudos sobre história e confessou que a pesquisa o seduziu desde então. Na verdade, segundo ele mesmo, “Gaúchos e beduínos”, mais tarde, teria origem nesse entusiasmo da pesquisa. Afirmava que no patrimônio artístico da humanidade, naquilo que representa o essencial na natureza e o misterioso no indivíduo, sem necessidade de método, vem das lonjuras da vida humana, justapondo-se em fenômenos que são independentes da história, mas, ao mesmo tempo, testemunhas do pensamento.

Encerra “Mormaço”, despedindo-se de Tupanciretã, a qual permaneceu viva na sua memória, mas se tornou irreal como um sonho que se conta na manhã seguinte:

“Eu estava, e para sempre, dentro da cidade que os açorianos haviam plantado nas terras do meu velho ascendente que chegara pelas estradas de Sorocaba e Laguna, o pioneiro Jerônimo de Ornellas que, como meu bisavô, viera à aventura do Brasil, partindo de Funchal.” (p. 110).

“Mormaço” foi publicado postumamente, encerrando a produção literária do autor, não sem antes registrar que vislumbrava “Estuário”, soberbo, grandioso, às vezes encrespado pelo Minuano, a brincar de mar, mas quase sempre pacífico, refletindo a policromia dos mais belos crepúsculos do mundo.

Manoelito, tua escrita nos remete a um mundo maravilhoso. A ti, palavras de Rubem Braga: “... do qual sempre voltamos com maior respeito à liberdade e à dignidade humana. Um respeito sagrado por essa pobre coisa – o indivíduo”. (Rubem Braga)

Muito obrigada por tanto, caro Manoelito de Ornellas.

NOTAS:

1. Fundadas as Missões, em fins do século XVII, uma fazenda jesuítica foi construída no planalto de Coxilha Grande, onde nascem os cursos de água de Caneleira, Buracos e Ijuizinho.

2. Oswald Spengler (1880-1936) filósofo, matemático e historiador alemão.