Caderno de Sábado

Teatro, Tempo e Memória

Atores e diretores, Tânia Farias e Paulo Flores, da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz abordam a pesquisa e mostra fotográfica sobre oito grupos longevos do teatro brasileiro

Registro fotográfico do Grupo Galpão em sua primeira montagem, "Romeu e Julieta" que integra mostra "Teatro, Tempo e Memória", aberta na quarta, 10, na Terreira da Tribo, que tem visitação até março
Registro fotográfico do Grupo Galpão em sua primeira montagem, "Romeu e Julieta" que integra mostra "Teatro, Tempo e Memória", aberta na quarta, 10, na Terreira da Tribo, que tem visitação até março Foto : Guto Muniz / Divulgação / CP

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, no último dia 10 de dezembro, abriu a Exposição “Teatro, Tempo e Memória” com o lançamento do livro "Por Um Museu de Memórias da Cena - Incursões da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz em acervos de grupos longevos do Teatro Brasileiro" com sessão de autógrafos do autor Clóvis Dias Massa. O livro é editado pelo selo Ói Nóis Na Memória e as ações fazem parte da Etapa Memória do Projeto Arte Pública - realizado com recursos da Funarte do Ministério da Cultura através de emenda parlamentar de autoria da deputada Fernanda Melchionna. A Exposição, com curadoria da atuadora Tânia Farias, ficará aberta a visitação pública durante os próximos meses, de terça a sexta-feira, no horário das 14h às 18h, na Terreira da Tribo (em seu novo endereço Av. Pátria 98, bairro São Geraldo).

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, que há quase 50 anos vem r(e)xistindo no Sul do país, percorreu as sedes e espaços de memória de oito coletivos de teatro da região Sudeste: Tá na Rua (RJ), Teatro Oficina (SP), Grupo Galpão (MG), Sobrevento (SP), Cia. Ensaio Aberto (RJ), Pombas Urbanas (SP), Engenho Teatral (SP) e Cia. do Tijolo (SP) que trouxe as memórias do grupo Vento Forte de Ilo Krugli (RJ-SP). Foram realizadas entrevistas gravadas em vídeo e visitas a sede dos grupos. O objetivo da Exposição e do Livro é o de gerar reflexão sobre a necessidade de uma política pública para preservar a memória do teatro, e isso num recorte específico, o dos coletivos teatrais de ação continuada, longevos, do Brasil.

Clóvis Massa aceitou o desafio de transformar as muitas horas de conversas da Tribo de Atuadores com estes coletivos nesta obra. A dificuldade de fazer teatro de forma contínua e comprometida evidencia a ausência de políticas para a longevidade dos grupos de teatro no Brasil. Na árdua batalha para sobreviver e fazer bom teatro, nem sempre é possível preocupar-se ativamente com ações de preservação de memória dos grupos. A partir das conversas com os coletivos, Clovis Massa retratou como cada um dos coletivos trata com o tema da memória.

Clóvis Dias Massa é professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde atua nos cursos de Teatro do Departamento de Arte Dramática e no Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas. Doutor em Teoria da Literatura pela PUCRS. Mestre pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Graduado em Artes Cênicas: Habilitação em Interpretação Teatral pela Ufrgs. Pesquisador acadêmico no campo da dramaturgia e da história do teatro, da teatralidade, da poética e da estética teatral. Integrante do Grupo de Pesquisa Teoria Teatral: História, Dramaturgia e Estética do Espetáculo, vinculado ao Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq.

A Exposição "Teatro, tempo e memória", através de fotos e textos, traz uma visão sobre a atuação teatral desses grupos longevos que tem marcado a história do Teatro Brasileiro. Os mais conhecidos deles são o Teatro Oficina, o Tá Na Rua e o Galpão. O Teatro Oficina de São Paulo, fundado por José Celso Martinez Corrêa, é um marco da cultura brasileira. Sua história é marcada por uma identidade vanguardista, a montagem de peças importantes como O Rei da Vela e Os Sertões, a repressão durante a ditadura militar e a renomada arquitetura do seu espaço Teatro Oficina Uzina Uzona, projetado por Lina Bo Bardi. O Grupo Tá na Rua foi criado no Rio de Janeiro pelo diretor Amir Haddad. Ele é conhecido por seu trabalho de teatro público, que utiliza espaços abertos como praças e ruas para suas apresentações, abordando questões sociais e promovendo a cidadania. O grupo também atua na formação de atores e mantém a Casa do Tá na Rua no bairro da Lapa, desde 1994. O Grupo Galpão criado por atores e atrizes em Belo Horizonte, tem a sua origem no teatro popular e de rua, que leva para o espetáculo um trabalho resultante da pesquisa de diversas linguagens, como o circo, a música, farsa e o melodrama. O grupo ganhou projeção nacional a partir de 1992, quando encenou Romeu e Julieta de Shakespeare. Mantém o Galpão Cine Horto desde 1998.

Neste momento em que vivemos em diversos estados e cidades um grande descaso com a arte e a cultura o Ói Nóis Aqui Traveiz procura através destas ações chamar a atenção para a questão da memória da Arte Teatral. A sede do grupo e Escola de Teatro Popular, a Terreira da Tribo, e também espaços de outros coletivos culturais, foram soterrados pela lama e água da enchente de maio de 2024. E não houve nenhum tipo de apoio das Secretarias de Cultura do Estado e do Município. Neste ano em que vimos 40 anos de História do Grupo Ventoforte, de São Paulo, ser destruído por retroescavadeiras da prefeitura em menos de 40 minutos e também o Teatro de Container, sede da Cia Mungunzá, ser invadida por policiais para um despejo violento, esta Exposição e a publicação deste Livro constitui uma visão sobre a atuação teatral de coletivos que marcaram a História do Teatro Brasileiro e a necessidade de ações que garantam a continuidade deste trabalho e preserve a memória do teatro de grupo brasileiro. A Ação Continuada destes grupos mudou o panorama da Arte Teatral e ao longo de seus anos de pesquisa e ação comunitária, vem solidificando uma série de projetos decoloniais que passam pelas áreas de formação, criação, intercâmbio, fomento e memória. Para as cidades onde atuam ou, mais imediatamente, as comunidades que o circundam, esses coletivos são centros irradiadores de valores humanitários, da necessidade constante de lutar por liberdade, solidariedade e justiça social.

Um coletivo teatral encontra uma série de dificuldades para manter um projeto contínuo, e diante da falta de políticas públicas, alguns grupos assumem o papel de guardiães da Memória do Teatro de Grupo e organizam acervos, catalogam, criam repositórios digitais, mantém publicações que registram aspectos importantes da pesquisa realizada. E outros, frente às prioridades para garantir a sua sobrevivência não conseguem dedicar nenhum tempo e recurso para salvar os vestígios desta arte efêmera que é o teatro. Esta Exposição pretende apresentar os coletivos entrevistados durante o projeto Arte Pública e, quando for o caso, suas ações de memória.

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz criada em Porto Alegre, em 1978, nasceu do anseio por uma renovação radical da linguagem cênica. Durante os vários anos da sua existência, o grupo criou uma estética pessoal, fundada no trabalho autoral do atuador, tanto nas salas quanto nas ruas. A sua sede, a Terreira da Tribo, desde 1984, constituiu uma Escola de Teatro Popular, oferecendo diversas oficinas. Em 2006, criou o Selo Editorial Ói Nóis na Memória que tem publicado livros e DVDs com a história do grupo e a Revista de Teatro Cavalo Louco. Em 2021 criou o Repositório Digital com parte do acervo do grupo, e em 2025 o Museu da Cena Ói Nóis Aqui Traveiz com os registros juntos ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram/MEC) e ao Sistema Estadual de Museus - SEM/RS.

Como disse o mestre Amir Haddad: "Só o Teatro Salva”.

Evoé! Salve o Teatro! Salve a Arte Pública!