Caderno de Sábado

“Terra sem Mapa”, um espetáculo de travessias

Espetáculo com Mirna Spritzer e Sergio Lulkin* retorna em agosto ao Stravaganza, com sessões nas quintas (6, 13, 20 e 27) às 20h

Mirna Spritzer e Sérgio Lulkin são Luba e Vrum em ‘Terra sem Mapa’, espetáculo com dramaturgia, direção e atuação de ambos
Mirna Spritzer e Sérgio Lulkin são Luba e Vrum em ‘Terra sem Mapa’, espetáculo com dramaturgia, direção e atuação de ambos Foto : Renata Stein / Divulgação / CP

Mapas de caminhos e mapas de números: ao longo de três anos, "Terra Sem Mapa" percorreu algumas cidades do Estado, encontrou públicos diversos, habitou salas de teatro, parques e praças, construindo o pontilhado que desenha um percurso repleto de emoções, sempre sabendo que “a viagem continua e não se sabe o final”. Assim diz Luba, personagem que mira as estrelas e relembra passagens doloridas: deixar, abruptamente, quartos com fotos e lembranças - as águas e as armas empurram para fora, a fome leva a extremos. As malas e os sapatos prontos para partir; despedir-se dos amigos que eram para sempre. Vrum, seu parceiro de viagem, promete queixar-se para Deus, que nunca nos olha.

EU SOU A LUBA, EU SOU O VRUM

Tendo compartilhado espaços de teatro e audiovisual no decorrer de nossa vida artística, prestes a completar cinquenta anos de carreira, nos reencontramos durante a pandemia com um desejo: criar em nosso espaço de origem, o teatro. Em “Terra sem Mapa”, nos reunimos para uma criação autoral que partiu de nossas semelhanças artísticas e muito de nossos diferentes caminhos de formação. Assim, foram ganhando corpo dois personagens com os quais vínhamos inventando situações há muito. Eles existiam como esboço, às vezes voz, às vezes brincadeira e muitas vezes afeto, eram ainda desenhos de algo que nos habitava como nossos duplos. Isolados pelo mau tempo e pelos riscos, começamos a enviar vídeos, ora de um local ou outro, como se os dois tipos, ainda em esboço, também fossem aprendendo a utilizar os recursos digitais, uma alfabetização que colocava um desafio: como lidar com o impedimento do encontro?

A pandemia regia o mundo, era preciso sair e reagir com o que temos, jogar, atuar; o ambiente ao ar livre e a máscara nos protegiam e nos permitiam criar, apesar de tudo. Luba e Vrum passeavam pelo Parque da Redenção, visitando os pontos turísticos, placas e monumentos, tecendo comentários, construindo a lógica de nossos duplos, que lentamente começavam a se manifestar em nós trazendo suas maneiras de ser e falar.

E veio convite do Bar Ocidente para um show online e lá foram Vrum e Luba vindos do parque, maravilhados com o bar da esquina. E, depois, encontraram no parque um pequeno chafariz, a estátua de um menino, uma fonte que nos fez lembrar de um texto de Karl Valentin, autor e comediante alemão do início do século passado: O Chafariz. Outro vídeo para nossos duplos.

A CHAVE DA CASA

Agora, com o repertório de nossa cumplicidade e amizade, o parque e os vídeos, e a presença cada vez mais fulgurante de Vrum e Luba, nos mobilizamos para o universo teatral. Ancoramos nossos desejos artísticos no Estúdio Stravaganza, um espaço amplo, generoso e com a energia criadora de um grupo que ali desenvolvia seus processos há mais de 30 anos. Luba e Vrum se sentiram acolhidos ali em seus sonhos de cena. Mais uma travessia e a sensação de quem volta pra casa: o teatro. Construímos pequenos rituais de criação que se iniciavam sempre pelo café, pela conversa e relatos do que vivíamos naqueles tempos. Então, já com roupas de trabalho, o espaço nos convidava a ocupá-lo. Músicas de todas as formas e gêneros nos envolviam e moviam nossos corpos. Trazíamos ao trabalho nossas experiências com aquecimentos, jogos, dramaturgias, acervos de nossas trajetórias que mostrávamos um ao outro.

O BRILHO DISTANTE DE UM PEQUENO COMETA

Em diversas improvisações os dois personagens iam revelando suas paixões, algumas tristezas e sua persistência em sonhar com grandes cenografias e efeitos especiais que residiam bem num sonho, mas que em cena seriam quase impossíveis no contexto em que usualmente criamos. Mesmo assim, estações de trem noturnos, cais de portos com navios, estradas e florestas, grandes palcos forrados de cortinas de veludo e inúmeros camarotes lotados habitavam a imaginação de artistas amadores que não desistiram de seu impulso: estar na ribalta e contar boas histórias. Vrum e Luba conectavam-se com o tempo, com os sons e com a cena, tudo poderia ser matéria para criação. Inventar sonhos, cultivar devaneios, quem sonhava éramos nós ou nossos personagens?

No decorrer dessas práticas, passamos a reconhecer temas que persistiam: o deslocamento e a fuga, travessia, migração, exílio. Tudo estava ali: a emergência de um contexto sombrio, a pandemia e o governo de então no Brasil, e o respiro pela poesia que sempre fez parte de nossas trajetórias artísticas, reunidas mais uma vez. A partir de registros na forma de roteiros, fomos localizando os temas e relacionando com trechos de livros, notícias de rádio e jornais, TVs e nas redes.

MÁGICOS PRESSÁGIOS

Nessa empreitada, fomos nos tornando criadores artísticos da cena em que habitamos, roteiristas e diretores de nós mesmos. Convidamos um colega, Carlos Mödinger, para registrar nossas invenções, um olhar atento de fora da cena para orientar algumas das inúmeras vias que se abriam. Em várias oportunidades, um dos personagens saía da cena para assistir sua parceria em atuação, fazendo sugestões dentro da perspectiva que cada uma expunha. Nesse exercício constante, alternando entre artistas e personagens, foram tomando forma e ganhando vida, os contadores dessas peripécias, Vrum e Luba, que teriam criado uma saga épica, pelo tanto que investiam em sua imaginada peça teatral.

Nos debruçamos sobre a História, em arquivos ou na história oral sobre o tema da imigração e das guerras. Nossas histórias e de nossos antepassados deram suporte à nossa busca. Também a literatura documental e ficcional alimentou a construção de nossa dramaturgia, sendo que num certo momento da trama, mergulhamos na literatura latino-americana que nos falava muito de perto. O próprio nome do espetáculo nasce desse universo ao encontrarmos o escritor uruguaio Ángel Rama e seu livro “Terra sem Mapa”, que trilha também os caminhos da memória e da imaginação. Isso propiciou o contato com seu filho que muito emocionado nos concedeu o uso do título. Os personagens narradores, Vrum e Luba, transpõem suas falas da literatura à matéria viva da cena, tornando-se os autores dos textos recontados com suas prosódias peculiares, ora melancólicas, ora bem-humoradas.

TUDO PODE SER TÃO FÉRTIL

A sensação de manter o roteiro vivo e atualizar “Terra Sem Mapa”, tal como acontece agora, se fortalece pela constante divulgação sobre deslocamentos, rescaldos de inundações e incêndios, novas batalhas.

Concebida como uma trama de memórias passadas, “Terra Sem Mapa” fala, também, do nosso tempo e prevê futuros, um espetáculo profecia. Mirna e Sergio, Luba e Vrum, surpreendem-se com as possibilidades que o teatro lhes oferece de contar tudo que vêm observando em sua viagem sem fim. E prometem voltar daqui a 200 anos.

*Autores: Mirna Spritzer e Sergio Lulkin são atores, diretores e dramaturgos do espetáculo “Terra sem Mapa”.