Basta estar vivo e atento para saber que é muito fácil desumanizar certos grupos sociais, a depender de quão incômodos esses grupos podem ser para uma sociedade que deseja, a qualquer custo, manter tudo como está. É preciso um grande desejo de mudança para se aproximar e escutar as vozes das mulheres encarceradas, tristes representantes destes grupos excluídos da arena pública porque sua mera existência é capaz de abalar crenças e práticas sociais. Em “Corpos Ardidos”, Marli Silveira não apenas se aproxima, como faz questão de passar tempo com elas e de permanecer ali, pois “permanecer significa não apenas reconhecer as injustiças, mas se implicar com elas”.
São muitos os fatos que tornam invisíveis — ou inaudíveis — as mulheres em privação de liberdade. Suas histórias de vida desafiam as visões românticas que se constroem sobre a feminilidade e a maternidade, por exemplo, pois não se costuma imaginar que mulheres sejam capazes de recorrer a crimes. Não surpreende ler que a grande maioria das mulheres atrás das grades não recebe visitas de ninguém e, além de lidarem com o isolamento de sua punição, precisam encarar a dor do abandono.
É por apostar no poder das palavras que Marli Silveira desenvolve com as mulheres um trabalho de escrita. “Ler e escrever são práticas ou exercícios que permitem ao indivíduo humano transitar sobre si mesmo e no deslocamento sobre si, poder se imaginar em outras paragens humanas”, ela explica, apontando também o jogo de alteridade presente na escrita, pois ela “mobiliza outro aspecto muito importante, que é a possibilidade de se poder imaginar e ou se colocar nas proximidades dos outros.”
A partir da abertura para que as mulheres escrevessem seus testemunhos sobre a vida nas celas e sobre os caminhos que as levaram até ali, elas conseguem aplacar um pouco da solidão, pois sabem que suas palavras encontrarão quem as leia. Como diz uma das mulheres sob o pseudônimo Querubim, a interlocutora “não tem noção do quanto é importante saber que alguém tira um tempo para olhar nos meus olhos ou ler as minhas palavras”. Por isso, não podemos apagar aqui o testemunho da própria autora, que embora não narre sua vida nem sua história, se posiciona de modo inequívoco nos capítulos teóricos que antecedem os depoimentos pessoais.
Marli Silveira deixa evidente o quanto o encarceramento serve como forma de manutenção das estruturas sociais, garantindo que pessoas previamente marginalizadas permaneçam vulneráveis, estigmatizadas e excluídas. Garantindo, em resumo, que suas vidas continuem sendo vistas como menos valiosas do que outras, menos dignas de reconhecimento, menos humanas, enfim, o que possibilita que sejam silenciadas.
Chama atenção também o protagonismo de ex-parceiros nos relatos das mulheres: quase todas são levadas para o crime por companheiros que depois desaparecem, algumas afirmam que sequer estavam envolvidas nas atividades criminosas, mas que acabaram “no lugar errado, na hora errada”. Em resumo, “fui presa por amar a pessoa errada”, diz Mariposa, e essa constatação ecoa no relato de outras. Abandonadas após a prisão, muitas superam o término, mas não conseguem aceitar a distância dos filhos que não podem mais ver.
Obviamente, não se trata aqui de eximir essas mulheres da responsabilidade pelo que fizeram. Tampouco elas próprias se apresentam como inocentes. O que Marli Silveira busca é reconhecer que muitas delas passam por uma punição reiterada, que não se limita à privação de liberdade nem se encerra quando elas voltam às ruas.
No desenvolvimento de seus argumentos, Marli Silveira lida com conceitos filosóficos abstratos para tratar de uma realidade duramente concreta, costurando Giorgio Agamben com Hannah Arendt, trazendo visões de mundo de Walter Benjamin e de Theodor Adorno, sem esquecer de uma referência literária como Milan Kundera. Nesse panorama teórico, a autora investiga o dever ético que nós, humanos, temos uns com os outros, e a urgência do reconhecimento da vulnerabilidade como ponto de partida para a transformação.
“Corpos Ardidos”, como já anuncia o título, se debruça sobre um dos fenômenos mais corporificados da contemporaneidade, já que a punição se dá inteiramente no controle de corpos, restringido a possibilidade de ir e vir e, mais do que isso, determinando o que e quando se come, por quanto tempo e em quais horários se tem acesso ao sol, onde e em que condições se dorme, se banha, se convive, se menstrua e, em última análise, se pensa e se sonha.
Como afirma Marli Silveira, “os presídios respondem, em grande medida, por zonas cinzas, ou seja, campos de indistinção, em que as pessoas presas perdem sua humanidade, melhor, delas é retirada sua dignidade a partir de um processo ininterrupto de desumanização, configurando, o presídio, como espécie de um limiar de indistinção. Constitui-se uma performance de objetificação constante dos corpos, apagando-se sonhos e esperanças, apagando-se a singularidade”.
O que a autora faz neste livro é devolver a singularidade às mulheres, permitindo que cada uma delas assuma o protagonismo de sua própria história diante de uma interlocutora que não se afasta. Cada uma das depoentes se destaca das habituais generalizações sem sujeito que usamos para pensar sobre o encarceramento. Emergindo desse corpo massificado, desse coletivo anônimo, cada mulher reivindica seu direito à fala e sua dignidade humana.