Transectum é o título do mais recente projeto expositivo do artista e pesquisador Mauro Espíndola (Rio de Janeiro, 1962), que esteve instalado até terça, 16, na Sala Laranjeiras do Centro Cultural da Ufrgs. A mostra reúne, ao modo de um gabinete de curiosidades, biogravuras, charbonigraphias, contracampus, livros de artista e um instigante diorama exibido já na entrada. Na mostra, mobiliário e estandartes, fixados junto às janelas, dialogam intencionalmente com a arquitetura deste antigo prédio, que em sua origem abrigou o Instituto de Química.
Arte, Ciência e Natureza conformam o eixo dessa produção e encontram, nesse espaço, uma forma de morada. Impregnada de história, a Sala Laranjeiras evoca o labor do alquimista. A natureza verdejante do entorno compõe com as imagens e objetos que agora ali habitam. Luz e sombra constroem figuras sobre o papel e o tecido: borboletas, galhos, folhas, letras, ornamentos. Interior e exterior articulam-se em sincronia e transformam-se no decorrer das horas. O tempo!
Mas e o título? O que nos traz? Panapanã, termo de origem tupi, designa nuvem ou revoada de borboletas; Papilionis é o genitivo latino de papilio, “da borboleta”; Transectum faz menção a uma linha ou área matematicamente definida, proposta por uma espécie de “olhar metódico”, comum aos estudos de campo em ecologia e biologia. No entanto, no presente contexto, Papilionis Transectum pode ser visto como uma área demarcada para realizar observações, experiências, devaneios e fabulações. Uma área transgressora, que se apropria da linguagem científica e seus códigos de representação em favor de um olhar poético e pluridimensional do mundo. Quando o Transectum desliza para o campo da arte, não há limites para o devaneio da matéria. Neologismos criam legendas pseudocientíficas e fabulações emergem de experiências vividas no estúdio rural do artista junto aos seus heterônimos, no Moinho da Capivara, em Lindolfo Collor - RS.
Por outro lado, Transectum também alegoriza a demarcação de um território no qual observamos o entrelaçamento de dois espaços distintos: o espaço de produção e o espaço de apresentação; o espaço do atelier aberto, que se estende para além das quatro paredes em direção ao quintal do Moinho da Capivara, ao mato, à natureza e o espaço expositivo; o espaço privado habitado pelos objetos, instrumentos e referências pessoais e o espaço público também carregado de significados e produtor de discursos. Nesse sentido, recorrer à estrutura dos antigos gabinetes de curiosidades parece apropriado. O modo de colecionar, justapor e também exibir a reunião de objetos de naturezas distintas, ou mesmo objetos pseudocientíficos ao lado de elementos de origem fantasiosa, ou seja, a proposta de encontro entre uma exploração dedicada ao racional e o irracional, de forma aparentemente ordenada, sempre instigaram a imaginação criativa. Aqui o espaço expositivo transforma-se, também, em espaço de experimentação e a todo momento uma nova imagem, filme ou ação entram em cena.
A estrutura que conforma os gabinetes evidencia a assemblagem de objetos colecionados como procedimento, bem como uma postura experimental diante dos mais diversos materiais. As noções de natural e artificial veem seus limites borrados, sendo que a íntima relação entre arte e natureza encontra aqui seu lugar. Se por um lado o recurso da assemblagem proporciona ao artista pensar nas mais variadas combinações entre objetos e matérias distintos, extrapolando dessa forma o uso de materiais tradicionais da arte, o modo de exibição dessas experiências também lhe confere significação. Toda a expografia formulada por Mauro Espíndola, para Panapanã, tem a forma de um enunciado. O mobiliário caracterizado por vitrines, mesas de luz, balcões e outros confere sentido aos objetos/imagens.
Espíndola conhece todos esses mecanismos e escolhe meticulosamente onde alojar suas coleções. O que dizer dos conjuntos de pequenos envelopes em papel de seda translúcido, no qual vislumbramos delicadas silhuetas de mariposas e borboletas já incompletas, espalhados sobre a superfície no interior de uma caixa de luz? Cada envelope traz consigo uma inscrição: Uthopia, Inconscius I., Ventus I., Ymnsomnia, Nocturnae N.A.A. e outras tantas palavras que libertam nossos mais condicionados pensamentos. Aqui, palavra e imagem subvertem o enunciado científico e a dimensão poética se instaura. Denominados de Contracampvs, tratam-se dos resíduos corporais despigmentados de mariposas e borboletas coletadas sem vida e utilizadas como matriz de suas biogravuras. Prensadas com delicadeza, transferem ao papel o pó colorido de suas asas. Micro-sudários da vida breve, cujas matrizes transformam-se em relíquias preservadas e que também são expostas.
Mauro Espíndola produz suas imagens com a própria matéria daquilo que representa. Borboletas e elementos vegetais, coletados após seu ciclo vital, são catalogados, fotografados e transformados em gravuras, livros, desenhos e objetos. Aqui tudo é transformação e impermanência. Não por acaso a borboleta, símbolo primeiro da metamorfose é a figura emblemática dessa exposição. Em seus últimos trabalhos, o artista as representa em bando. Em movimentos ascendentes, como visto em sua impactante obra CHARBOMINESYAE, um desenho de 270 x 450cm realizado especialmente para essa exposição, utilizando pigmentos derivados de galhos carbonizados do corte indiscriminado de árvores em extinção. Sobre uma paisagem devastada, um grande panapaná se forma e alça voo em direção ao “céu”. Por detrás da revoada vemos um volumoso tronco deitado que atravessa o plano de fora a fora. Seria possível dizer que CHARBOMINESYAE é a representação de um instante onde a queda e a ascensão acontecem em sincronia, fazendo-nos refletir sobre o momento em que nos esquecemos de que também somos natureza, de que esta não está fora de nós. As charbonigraphias, desenhos com papel carbono e pigmentos derivados de galhos carbonizados, apresentam-se como uma forma de resistir, denunciar e transcender, através da arte, da criação, as forças regressivas de um mundo em transformação. Não sem razão, um diorama composto dessas incinerações, na dimensão de um corpo humano, nos recebe à entrada da exposição. Ao aproximarmo-nos da instalação, começa-se a ouvir baixinho a forte voz da natureza: uma experiência sonora que só é possível em um Papilionis Transectum. (1)
Depois de mais de dois meses de programação intensa, a exposição PANAPANÃ – Papilionis Transectum, chegou a seus últimos dias com mais uma ação experimental. Em seu encerramento, na terça, 16 de junho, acontecerá a performance da bailarina contemporânea Daggi Dornelles com imagens de Frank Jeske e em diálogo com a reapresentação da composição PANAPANÃ, do maestro Antônio Carlos Borges-Cunha, estabelecendo diálogo entre artes visuais, música e dança em desfecho emblemático. Na ocasião foi lançado o catálogo da mostra, com 50 exemplares de distribuição gratuita.
(1) Música do maestro Antônio Carlos Borges Cunha realizada pela Passaredo – Orquestra de Flautas Doces IFRS-Ufrgs. Coord: Lúcia Carpena e (Ufrgs) e Cláudia Schreiner (IFRS), e Wagner Cunha (violino).