Caderno de Sábado

Trinta e dois anos de gargalhadas e lágrimas

Coordenador-geral do 33º POA em Cena, Luciano Alabarse, escreve sobre a história do festival cênico e sobre a expectativa da edição que vai de 10 a 20/9

"Auto da Compadecida" será apresentado no 33º Porto Alegre em Cena, nos dias 16 e 17 de setembro, no Teatro Simões Lopes Neto, com direção de Gabriel Villela e montagem em parceria com o Grupo Maria Cutia
"Auto da Compadecida" será apresentado no 33º Porto Alegre em Cena, nos dias 16 e 17 de setembro, no Teatro Simões Lopes Neto, com direção de Gabriel Villela e montagem em parceria com o Grupo Maria Cutia Foto : Tati Motta / Divulgação / CP

Não sei você, mas eu acompanho, todos os anos, a programação oferecida pelo Porto Alegre em Cena. Quero saber, quero acompanhar, quero ir. E conheço pessoas que, assim como eu, esperam ansiosamente o mês de setembro, pois sabem que setembro, além de ser o mês da chegada da primavera, é um mês especial para conferir grandes espetáculos que nos visitam.

Há, sem dúvida, o criterioso crivo da curadoria que assinamos. Assinalamos que é lindo ver nossos ipês cenografando a intensa movimentação artística da cidade. Não é só a natureza florida que surpreende a cidade. Nosso festival também cumpre essa função. Nosso festival alegra, floresce e se espalha, inquieto e dadivoso, pela capital inteira. O Em Cena é uma prova de que a vida presta.

Esses dias, ouvi a ministra Cármen Lúcia dizendo que a arte cumpre o papel de subverter e denunciar as mazelas de nossa sociedade, sem comportar censura de nenhuma forma. Ponto para a ministra. Mas o papel da arte é ainda maior. Também espalhar beleza e esperança, nesses tempos duros e difíceis, se impõe como tarefa. Sem escapismos. Sem medo. Sem reticências.

O teatro, meu território de ofício, tem valorizado a construção de pontes libertárias para enfrentar descrenças e dificuldades. Nossos espetáculos reforçam a ideia de que a arte salva. A arte cura. E não só as peças de teatro, também os espetáculos de dança, música e circo oferecem beleza e conforto.

Não é assistencialismo barato, não é demagogia. Em tempos em que fica difícil o exercício da cidadania plena, nossos artistas são faróis a iluminar o breu do país. Não é pouco.

Um festival como o Porto Alegre em Cena repercute e provoca a criação artística, sem passividade ou subserviência. Criar é condição essencial para a linha evolutiva da verdadeira arte, a arte que importa. É papel fundamental de um evento de cultura, é uma necessidade básica da sociedade. Os tempos são desafiadores para aqueles que querem evoluir e experimentar o novo, a novidade, a criação artística, os abismos e reentrâncias das experimentações cênicas. O caminho, às vezes, apresenta desafios superlativos.

Há uma ideia romântica e equivocada de que a atividade cultural não custa, de que dinheiro e verbas públicas devem ser destinados a outras necessidades estruturais da sociedade. Essa distorção, mais frequente do que se poderia imaginar, obriga uma postura firme e inequívoca: a produção cultural é assunto, por isso mesmo, de saúde mental. Precisa de investimento e recursos, verbas generosas e continuidade – porque movimenta um vasto campo profissional de oportunidades de emprego.

O trabalho de centenas de pessoas é uma alavanca de progresso e profissionalismo. Só quem trabalha no setor pode avaliar a quantidade de empregos gerados por um festival de artes cênicas. Só quem compreende os bastidores de um grande evento pode efetivamente avaliar a dor e a delícia de construir, do zero, uma programação capaz de encantar e mudar o pensamento de uma cidade.

Porto Alegre está no nome do nosso evento, e isso diz muito sobre as nossas intenções. Os porto-alegrenses são o público-alvo desse festival realizado pela Prefeitura Municipal. Desde a primeira edição, insistimos: nossa cidade é nosso público-alvo. Que as informações, as denúncias, as alegrias, as alegorias e as linguagens inovadoras cheguem aos nossos palcos e contribuam para a felicidade geral da capital gaúcha.

São muitos os Estados brasileiros presentes na programação da trigésima terceira edição, oportunidade para conhecer a produção cênica fora do eixo Rio/São Paulo. A integração das artes gaúchas com as artes nacionais é fundamental para nós, gaúchos, sermos reconhecidos pelo resto do país como centro fomentador da produção brasileira, pois se não houver política pública permanente e eficiente, nossos artistas ficarão confinados, isolados, sem o devido reconhecimento.

Furar a bolha e mostrar ao Brasil nossa força criativa e nossa originalidade inventiva requer insistência e continuidade. O Porto Alegre em Cena faz isso, dialoga e aproxima nossos talentos das manifestações artísticas do Brasil. Nesta edição, isso se confirma com grupos que criam a partir de suas referências geográficas, mas que precisam escoar sua produção.

Os grupos do Nordeste presentes merecem atenção e presença. Um festival incentiva concretamente esse diálogo necessário e, assim, assume um papel inovador ao buscar diálogo e parceria com a criação de regiões tão distantes da nossa.

Todo ano fazer o Em Cena é uma luta real. Sem lamentações pífias, sem esmorecimentos vãos. Por vezes, é certo, há angústia e decepções. Mas a certeza da importância do festival é maior que qualquer dúvida. Insistimos, eu e Letícia Vieira, em buscar o melhor evento para a cidade que tanto amamos.

Que Porto Alegre compareça às nossas salas, prestigie a qualificada produção deste ano e renove suas forças e esperanças para aguentar todos os desafios que temos pela frente. Nosso festival insiste em acreditar que a alegria é a prova dos nove. E é com alegria que anunciamos a trigésima terceira edição do festival que, neste ano, será novamente apresentada pela Petrobras. Longa vida ao Porto Alegre em Cena!