Caderno de Sábado

Um Pomar Cultural à Beira-Mar

Jornalista, escritora e mestranda de Artes Visuais, Priscila Ferraz Pasko, aborda atividades do Pomar Poético, espaço de convivência voltado à arte em Imbé

O curta "Antes do tempo” (2025), de Marcelo Cabrera e Tati Missel, conta a delicada história de amizade entre um menino que acaba de se mudar para o litoral, e um ancião
O curta "Antes do tempo” (2025), de Marcelo Cabrera e Tati Missel, conta a delicada história de amizade entre um menino que acaba de se mudar para o litoral, e um ancião Foto : Marcelo Cabrera / Divulgação / CP

É em meio aos ventos do Litoral Norte do Rio Grande do Sul onde sopra, possivelmente, uma das propostas de fomento cultural mais interessantes dos últimos dois anos aqui no Estado. Não é a única, evidentemente. No entanto, esta sobre a qual quero falar, já revela a sua particularidade ao não estar instalada em Porto Alegre, na Serra Gaúcha ou no Sul do Estado.

Refiro-me ao Pomar Poético - um espaço de convivência voltado à arte, sediado na cidade de Imbé. As atividades oferecidas transitam pela literatura, teatro, cinema, dança, fotografia, videodança e outras articulações possíveis que dialogam com o Litoral Norte e que são elaboradas coletivamente. O Pomar conta com um espaço físico no Centro da cidade, uma casa alugada onde ocorrem os encontros e a intensa programação cultural que envolve a comunidade local. As ações do Pomar têm se mostrado profícuas e revitalizadoras em diferentes sentidos, tendo as suas criações integrado eventos e mostras nacionais e internacionais.

Na última semana de abril, o espaço foi reconhecido pelo Ministério da Cultura como um Ponto de Cultura, evidenciando a relevância das práticas promovidas em Imbé e região. O espaço conta com uma biblioteca comunitária, abastecida de um acervo para adultos e crianças, e com um clube do livro. Periodicamente, são realizadas mostras de longas e curta-metragens que transitam desde produções clássicas, àquelas que dão visibilidade a artistas da comunidade LGBTQIAPN+ e dos povos originários. Dentro da programação de eventos e oficinas, o público 60+ pode desfrutar de oficinas semanais de inclusão digital, teatro, dança, escrita criativa, exposições fotográficas e saraus. Entre os participantes assíduos, um público que se encontra na faixa etária dos 50 a 90 anos de idade, aproximadamente.

O Pomar Poético começou a ser idealizado em 2018 pelos artistas Airton Tomazzoni e Marcelo Cabrera, quando eles passaram a frequentar com maior assiduidade o litoral. A proposta era a de pensar poéticas do cotidiano, articulando arte, palavra, corpo e natureza. O encontro com a bailarina Tati Missel, que também vivia em Imbé, foi o disparador para as criações colaborativas. Em 2020, em plena pandemia, o coletivo Pomar Poético deu início a ações mais efetivas.

A estreia aconteceu com o projeto “Vozes da quarentena”, uma parceria com o Instituto Goethe de Porto Alegre. Nele, foram reunidos diferentes textos e produções visuais que convidavam refletir sobre o papel da arte naquele momento. No mesmo ano, o projeto participou da edição internacional da CARE WHERE? Digital Gathering Fanzine: Art, Activism and Electronic Music, com o foto-poema “one day I want to make myself tree / um dia eu quis me fazer árvore”, ao lado de artistas de outros países. E, desde então, diferentes projetos que dialogam, retratam, resgatam, criam e difundem um imaginário para o litoral estão sendo desenvolvidos com o aporte de editais públicos.

Os exemplos são vários. Destaco alguns, como a produção audiovisual Um mar de danças – cartografias do Litoral Norte Gaúcho, que retrata a dança desenvolvida pelos moradores da região, mapeando a diversidade e a pluralidade cultural de artistas e coletivos que promovem a dança. Participam artistas de Capão da Canoa, Cidreira, Balneário Pinhal, Imbé, Nova Tramandaí, Osório, Santo Antônio da Patrulha, Tavares, Torres, Tramandaí e Xangrilá.

Outra produção, mais recente, é o curta-metragem “Disco”, de Airton Tomazzoni e Marcelo Cabrera. Ele foi filmado em Imbé com equipe e elenco local, com a participação de atores e atrizes que integram o projdamente. ojeto Artes 60+ do coletivo Pomar Poético. Na trama, um grupo de antigos frequentadores de uma discoteca em ruínas vão até o local reviver memórias. Chama a atenção a fotografia caprichada e de tom experimental de Marcelo Cabrera e Tati Missel, além das atuações.

De mesma direção, o curta “Antes do tempo” (2025) conta a delicada história de amizade entre um menino que acaba de se mudar para o litoral, e um ancião, que conhece como ninguém aquele lugar. Também ambientado em Imbé, “Procura-se ator”, de Airton Tomazzoni e Laura Lautert, traz em seu elenco atores com deficiência (PCD’s). Por 18 minutos, o filme compartilha o sonho de um garoto com deficiência em ser ator de cinema. Todos os filmes mencionados exploram a ficção. Um aspecto a se destacar destas produções artísticas é o de que elas assumem as singularidades próprias do litoral, histórias que se desenvolvem ali. É pelo compartilhamento, registro das vivências, do trabalho de artistas e agentes locais - tendo eles nascido na costa ou não - e pelas manifestações culturais que o imaginário litorâneo se expande e gera memória.

É o caso do livro pensado para o público infantil “Bichos da beira, bicharada praieira” (Bestiário, 2023), de Airton Tomazzoni, com ilustração de Isadora Sehn Maciel, uma reunião de poemas que apresentam a fauna do Litoral Norte. Ali estão a tainha, o tuco-tuco, o biguá, o marisco e a coruja buraqueira, por exemplo. Tem-se aqui a possibilidade de as crianças (se) reconhecerem nas palavras, vivências e imagens, consolidando e fortalecendo a identidade praieira desde a infância. Bichos da beira terá seus desdobramentos: em breve, será produzida uma versão cênica musical para a publicação. Da mesma forma, outras produções estão a caminho.

Historicamente, no contexto gaúcho, o litoral norte costuma ser visto como um lugar de desfrute temporário, concentrado, sobretudo, entre os meses de dezembro e fevereiro. É quando os veranistas buscam o refresco do mar e dos ventos, seja para descanso ou para as festas da temporada. O cenário sofreu uma sensível mudança após a pandemia, em 2020, quando moradores dos centros urbanos buscaram escapar do isolamento social, para garantir o mínimo de qualidade de vida no litoral. Com isso, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística constatou que, entre o censo de 2010 e o de 2022, o aumento populacional subiu cerca de 14 vezes.

Ocorre que a região conta com uma história e com uma cultura própria, cultivada por seus moradores. O maçambique de Osório, que preserva a cultura e as práticas afro-católicas da região, é um dos casos mais representativos e tradicionais. Recentemente, por exemplo, um projeto da Diocese de Osório restaurou cerca de 800 livros que registram diferentes eventos do litoral norte que ajudaram a formar a região. Constam nascimentos, casamentos, óbitos e até mesmo a chegada dos casais açorianos, enviados pela colônia portuguesa para povoar o litoral gaúcho. Para se ter uma ideia, o registro mais antigo data de 1761.

Ainda que os equipamentos culturais sejam escassos — muitas vezes, inexistentes — nas cidades litorâneas do Estado, as comunidades locais se mobilizam, criam estratégias e se articulam a partir das demandas artísticas de cada grupo. Uma mobilização legítima que busca fortalecer a memória e a identidade litorânea gaúcha. E um lembrete de que a cultura também se salga nas águas do mar do Sul do Brasil.