Caderno de Sábado

Um sopro de invenção, vida e frescor

Professor de Literatura, coordenador de Literatura e Humanidades e ex-secretário de Cultura da Capital, Sergius Gonzaga atualiza artigo sobre Vargas Llosa para o Caderno de Sábado

Mario Vargas Llosa durante palestra no Fronteiras do Pensamento em 2010
Mario Vargas Llosa durante palestra no Fronteiras do Pensamento em 2010 Foto : Fabiano do Amaral / CP Memória

Foi no bar do Antonio, na antiga Filosofia da Ufrgs, por indicação de um amigo argentino – fanático leitor das novas ficções que explodiam na América Latina – que terminei de ler “La ciudad y los perros”, romance de estreia de Mario Vargas Llosa, lançado em 1963. A intriga do texto centrava-se nos dramas de violência e solidão vivenciados por adolescentes no internato de um colégio militar, ao mesmo tempo em que se desvendavam suas relações familiares e afetivas fora do âmbito escolar.

Creio que o li em 1968, porque havia cartazes convocando para as derradeiras passeatas, e o ar se impregnava do cheiro de pastéis que o Antonio fritava na cozinha, e eu lia e fumava, tão absorto nas derradeiras páginas daquele romance intrincado, cuja revelação final modificava de modo fascinante o seu sentido, que, ao contrário de outras manhãs, nem reparava no desfile cotidiano das estridentes e graciosas estudantes de História Natural.

Era uma época de narrativas prodigiosas que surgiam caudalosamente: “O Século das Luzes”, de Alejo Carpentier; “A morte de Artemio Cruz”, de Carlos Fuentes; “O jogo da amarelinha”, de Julio Cortázar; “Cem anos de solidão”, de García Márquez, para ficar com as mais conhecidas. Eu não sabia ainda que estava em curso uma revolução sem precedentes na literatura contemporânea, originária de países periféricos que ingressavam na modernidade artística pelas portas do gênero romanesco e assombravam o mundo.

O “BOOM”

As condições objetivas eram favoráveis à emergência do que seria designado como o boom: havia um conjunto de escritores de notável audácia imaginativa, um novo público leitor composto por jovens universitários intelectualizados e dispostos a decifrar textos em que a inventiva e a experimentação predominassem, um amotinamento coletivo contra tudo aquilo que representava o passado em termos culturais, morais, afetivos e políticos, e havia, por fim, a aura da Revolução Cubana, que naquele momento, parecia traduzir a possibilidade da construção de uma ordem socialista de natureza libertária.

Contudo, nenhuma outra obra latino-americana que eu lera até aqueles dias – por mais apaixonante que fosse – oferecera com tamanho resplendor um modelo de narrar, uma composição ao mesmo tempo aberta e totalizante, inovadora e brutalmente realista, como A cidade e os cachorros. A audácia de seus processos formais e a ampliação quase ilimitada de significados do real que essas inovações desencadeavam teriam sequência em “A casa verde” (1966) e “Conversa na Catedral” (1969).

Neles, Llosa reafirmava a perícia incomum para estabelecer amplos arcabouços estruturais, condizentes com a realidade múltipla que pretendia fixar. Sua vocação realista – a maior entre os contemporâneos – expandia-se nestas complexas arquiteturas técnicas, formidáveis pela engenhosidade, pelo poder de tornar ambíguo o universo narrado e por criarem persuasivos e candentes simulacros da vida real.

NOÇÃO DE COMPROMISSO

A par da maestria técnica, impregnou seu projeto literário da noção de compromisso, em voga nos anos 60, embora isso não significasse adesão ideológica a algum programa partidário. Em famoso discurso pronunciado por ocasião do recebimento do Prêmio Romulo Gallegos, identificou na literatura uma forma de insurreição permanente contra a realidade como ela é.

Poucos anos depois, ao lançar texto crítico definitivo sobre as primeiras obras de García Márquez, “A história de um deicídio”, reafirmaria a missão do escritor como a de um anjo rebelde que não aceita a vida estabelecida, rebaixada pelo conformismo, pela injustiça e pelo marasmo espiritual.

Questionar os poderes estabelecidos, lutar contra as verdades feitas, arguir o imobilismo dos seres que obedecem cegamente aos desígnios do destino tornou-se para Llosa o imperativo de suas ficções. Isso nunca significou, contudo, um protesto explícito, de teor moralista ou demagógico. Seu método foi o de desentranhar da interioridade dos personagens e dos atos ínfimos ou grandiosos que cometem – em situação de liberdade ou sob pressão das circunstâncias – a sujeira e o sublime, as paixões lícitas e as clandestinas, a verdade e a impostura, o altruísmo e a violência, a fraternidade e a solidão, em narrativas simultaneamente crispadas, vertiginosas e sedutoras.

Quando fechei “La ciudad y los perros”, no distante ano de 1968, ainda havia alarido, risos e cheiro de fritura no bar do Antonio. Mas, apesar de jovem, estava convicto de que, naquele prosaico boteco estudantil, havia encontrado um escritor cujo texto apresentava larga coerência interna e não menor polissemia. Texto que punha em pé um mundo paralelamente naturalista e autônomo em relação ao mundo concreto. Mais do que isso: um texto que oferecia aos leitores um testemunho contundente do quanto novas formulações estéticas poderiam insuflar no romance (gênero aparentemente em estado terminal) incontornáveis sopros de invenção, vida e frescor.

PEQUENO ROTEIRO PARA LER VARGAS LLOSA

1. “A cidade e os cachorros”– Traduzido inicialmente como Batismo de Fogo. Relato de grande intensidade emocional, tanto pela representação de um microuniverso – o colégio militar Leoncio Prado –, eticamente decomposto e dominado pela brutalidade; quanto pela síntese operada pelo autor entre os elementos críticos do realismo tradicional e um inesgotável repertório de inovações técnicas.

2. “Conversa na Catedral” – (Admirável e polifônico romance de teor político sobre a ditadura do general Odría, no Peru (1948-1956), quando um espesso manto de censura, obscurantismo, corrupção e mediocridade cobriu o país, degradando todos os inúmeros personagens que povoam a narrativa. O início da obra é um dos mais famosos da ficção latino-americana.

3. “Os filhotes” – No original Los cachorros – Pichula Cuéllar. Pequena novela, de alta complexidade narrativa, focando a experiência dolorosa de um menino castrado por mastins em um internato lassalista. Ao se tornar adolescente, “Piroquinha” usa o fato como meio de sobressair-se no colégio, até adquirir consciência de sua tragédia pessoal.

4. “Pantaleão e as visitadoras” – Hilariante sátira à burocracia militar que, por meio de um capitão disciplinado e inflexível, articula um serviço de prostitutas a unidades do exército peruano localizadas nos confins selváticos do país. É a primeira incursão de Llosa no universo do humor.

5. “Tia Júlia e o escrevinhador” – Uma de suas obras-primas, intercalando hilariantes folhetins melodramáticos produzidos por Pedro Camacho – autor boliviano de radionovelas, que vive em Lima – com a história real (e também folhetinesca) da paixão do jovem Llosa por uma tia emprestada. Trata-se de genial representação do sentido das ficções na existência humana.

6. “A guerra do fim do mundo” – Para vários críticos europeus trata-se do grande romance histórico do século XX. Releitura ficcional de Os sertões, de Euclides da Cunha, dentro de esquemas formais clássicos, tem como núcleo a ideia de que a guerra de Canudos resultou da cegueira ideológica de ambas as partes. Além da larga totalização existencial e histórica, o texto apresenta uma galeria inesquecível de personagens.

7. “A festa do bode” – Excepcional romance histórico-político, sobre a ditadura de Trujillo na República Dominicana. Ninguém na literatura atual sintetizou de modo tão denso o peso do poder autoritário e as dramáticas vivências dos indivíduos submetidos a tragédia do despotismo.

8. “Travessuras da menina má” – Delicioso romance, transcorrido em várias cidades e países, sobre um amor sem limites que atravessa décadas de rupturas, traições e surpreendentes retornos, tendo como pano de fundo as grandes mudanças culturais e nos costumes, ocorridos sobretudo nas décadas de 1960 e 70. O final do livro é espetacular, pois só então descobrimos o sentido da paixão que uniu os dois protagonistas.

  • Publicado no Caderno de Sábado, no dia 19 de março de 2016 e atualizado nesta semana pelo articulista Sergius Gonzaga.