Caderno de Sábado

Um trançado de vozes e pertencimento

Escritora, poeta e pesquisadora Cátia Castilho Simon analisa a obra “Cartas para uma professora”, de Taiasmin Ohnmacht

"Cartas para uma professora", de Taiasmin Ohnmacht, com ilustrações de Mitti Mendonça. será lançado domingo, 8/11, com papo às 17h e autógrafos às 18h, na 72ª Feira do Livro
"Cartas para uma professora", de Taiasmin Ohnmacht, com ilustrações de Mitti Mendonça. será lançado domingo, 8/11, com papo às 17h e autógrafos às 18h, na 72ª Feira do Livro Foto : Feijão / Divulgação / CP

O livro “Cartas para uma professora” é o sétimo lançado pela escritora e psicanalista, Taiasmin Ohnmacht. A autora define como um romance juvenil. A publicação é da Libretos, tem 168 páginas, ilustrado pela artista têxtil, Mitti Mendonça.

A história se desenrola após as enchentes de 2024, na capital do RS. Porto Alegre sofre as consequências sociais e materiais e mesmo os que moram distante das áreas atingidas sofrem os revezes da catástrofe ambiental. A periferia da cidade é o berço dos trabalhadores e trabalhadoras que se deslocam por variados bairros para atender no âmbito doméstico, do comércio e em outras atividades demandadas de classes sociais superiores. A perda de empregos atinge em cheio boa parte da população periférica, mais uma vez. Nesse contexto surge a trama do romance que se desenvolve sob o tripé das cartas enviadas de um ex-aluno, João Francisco, para a ex-professora de português, Jussara, do Colégio Estadual Ildo Meneghetti, na Restinga. A interlocutora escolhida não entende porque aquelas cartas lhe foram destinadas e procura Tatá para descobrir as reais intenções. Quanto mais se aproxima da versão da adolescente, mais intrigada fica, pois as narrações dos amigos diferem. São pontos de vista distintos da mesma história o que problematiza a tal versão única e verdadeira. Chimamanda Adichie já nos advertiu sobre o perigo da história única. Taiasmin com a habilidade de uma tecelã vai tramando esses fios através da fala dos adolescentes, João Francisco e Tatá. Tudo isso reverbera na professora Jussara que tem suas verdades absolutas abaladas e somente ao final terá desvelada a razão de ter sido escolhida como interlocutora das cartas e da aventura dos alunos.

O tempo da narrativa não se dá em linha reta, ele é espiralado e convoca a ancestralidade, na concepção da cultura diaspórica, a ocupar seu protagonismo apagado. O escritor Luiz Antonio Simas, na crônica Nossos Fantasmas, refere Alberto Mussa que diz “(...) a história de uma cidade pode ser conhecida a partir de seus crimes,” e complementa assim: “Eu acrescentaria nesta sentença os fantasmas. A história de uma cidade pode ser contada perfeitamente a partir de seus fantasmas”. Taiasmin traz seres encantados, entendidos por alguns como fantasmagóricos até, são na verdade guardiães das histórias que devem ser contadas e estarem vivas na memória da cidade, como a Vó Durvalina. É a anciã que lembra que a palavra carrega o axé. Há também os portais que se abrem através de livros de escritoras e escritor gaúchos criando saídas inesperadas para a história, na circularidade do tempo. Eis que nos deparamos com elementos narrativos inusitados sob o ponto de vista da tradição literária e que têm sido compreendidos na esfera do realismo mágico ou fantástico. No entanto, as correntes de discussão históricas e literárias decoloniais, descoloniais ou contracoloniais dão conta hoje de sustentar elementos outrora entendidos como menores. Os procedimentos narrativos conceituados no âmbito do realismo fantástico, por exemplo, mais serviram para ressaltar o exotismo da literatura produzida fora dos conceitos eurocêntricos do que para de fato validar uma concepção de mundo que se expressa em culturas diversas e não hegemônicas. Taiasmin é expert em tranças incomuns, no livro “Também existem os tambores”, a psicanalista e escritora exercitara o trançado entre a psicanálise e questões raciais; neste romance nos brinda com um trançado ficcional de vozes e pertencimentos de pretos e pretas.

João Francisco (JF) é o menino preto que conduz a narrativa da aventura vivida por ele e Thalita (Tatá) a amiga e vizinha preta, através da escrita das cartas. O adolescente de 14 anos, ao contrário da amiga, tem a vivência na religião e expõe isso nas cartas através de uma linguagem expressiva e coloquial. Ele demonstra muito afeto pela família e amigos, é um poeta, alguém que procura entender seu lugar no mundo movido por um alto senso de dignidade. Ele é um slamer que vive um combate interno e externo. O adolescente percebe que não dá conta sozinho dessa batalha e busca apoio na amiga Thalita para encampar a empreitada. A arma poderosa utilizada pelos adolescentes é a palavra. É com ela que articulam, buscam caminhos, enfrentam os Caiados – monstros do progresso; desvendam enigmas e se livram dos perigos que se mostram no caminhar e na busca do sentido daquelas vidas. Como diz a música da cantora e compositora Pâmela Amaro, “Deixa eu te contar” fazendo rodar os moinhos e a energia circular.

A aventura que os amigos irão viver se passa em um tempo cronológico entorno de 24 horas que é dilatado na recuperação das histórias vividas por ancestrais que construíram a cidade através da força do trabalho físico. João Francisco sai em busca do pai para pedir auxílio diante da situação de precariedade que se avizinha para sua mãe e a família em virtude do desemprego como consequência da enchente que comprometeu também o comércio do centro da cidade. À medida que avança nessa procura, o adolescente e a amiga vão se deparando com outras histórias em diversos bairros que vão compor um mosaico da cidade. A Ilha da Pintada e o Mercado Público entram no percurso dos aventureiros sem que eles decidissem por isso. Na Ilha a constatação de que “ o rio que falava com os moradores mudou de idioma após a inundação”.Chegar ao Mercado Público deu um alívio ao João Francisco, além de um lugar conhecido seu, dali sabia como voltar para a casa, na Restinga. “Mercado Público ao som dos tambores” “(...) Um som de tambores que entendi como música de fundo, tá ligado?” – escreve João Francisco na carta 7. Nesse ponto, os adolescentes percebem que está na hora de retornar para casa, como bons filhos que eram.

Cabe destacar a força e a importância do papel das mulheres pretas na história protagonizada pelo João Francisco. A Tatá; a mãe do João Francisco, a Arlete; a professora Jussara e sua mãe, Glória; a Viviane - a bibliotecária, as avós, lideradas pela Vó Dorvalina. Lélia Gonzalez, intelectual negra, feminista abordou em vários artigos o lugar que a mulher negra ocupava no Brasil: “pode-se concluir que discriminação de sexo e raça faz das mulheres negras o segmento mais explorado e oprimido da sociedade brasileira. (...) é importante enfatizar que uma visão depreciativa dos negros é veiculada nos textos escolares e perpetuada em uma estética racista constantemente transmitida pela mídia de massa”.

Taiasmin ao engendrar Cartas a uma professora reafirma a que veio. Resgata a história da cidade, erguida com o suor e a força de pretos e pretas com a urgência da hora, permeada de desafios, coragem e alegria. Sabe também da relevância do lugar que as mulheres pretas ocupam na família e na sociedade. Elas são referência, são colo, são alicerce, são impulso. Por elas e com elas a palavra que faz a energia circular.

A história ganha ainda outras camadas através das ilustrações concebidas pela Mitti Mendonça que amplia a expressão literária do texto. O leitor e a leitora têm ainda esse componente para agregar à instigante história que tem em Porto Alegre insuspeitas riquezas construídas pelos braços de pretas e pretos e desveladas no caminhar, na evocação das vozes negras.

  • Durante a 72ª Feira do Livro de Porto Alegre o lançamento de Cartas para uma professora (Libretos Editora, 168p.), de Taiasmin Ohnmacht com ilustrações de Mitti Mendonça será no domingo, 8 de novembro. Às 17h, acontece um bate-papo com a autora e a ilustradora na Sala Vitrine de Lançamento (Clube do Comércio) e às 18h, autógrafos na Praça de Autógrafos.