A responsabilidade de escrever um texto é grande, e um texto sobre o Flavio Del Mese é uma responsabilidade e tanto, literalmente uma viagem, um enorme prazer. Conheci o Flavio quando adolescente, meus pais construíram a nossa casa na avenida Jacuí e tínhamos entre o nada e o quase nada, a Lomba do Asseio hoje Pinheiro Borba, que nos separava da casa de Flavio, que mora até hoje no mesmo endereço.
A amizade com meu pai era marcada pelos mesmos prazeres que a vida pode proporcionar a dois homens inteligentes, apreciadores das belas artes, leituras, viagens, um bom vinho, boa comida, jogo de sinuca, viagens, arte em sua forma ampla. Flavio um admirador deste vizinho, escultor já consagrado, colecionador de cactos, e surdo, Francisco Stockinger, meu pai.
Explico “o surdo” do Xico. A surdez iniciou por volta dos 40 anos de idade em meu pai. Em 1965 já estava totalmente surdo, consequência de uma calcificação do nervo auditivo. Pequena explicação necessária para o entendimento da amizade entre essas duas grandes figuras. O fato da surdez nunca atrapalhou as relações de amizade entre meu pai e os amigos. Com o passar do tempo aprendeu espontaneamente a ler os lábios das pessoas com quem interessava conversar. Claro que tinha uns requisitos básicos, como por exemplo, bigode inviabilizava o entendimento. Flavio aprendeu a se comunicar com o Xico com facilidade. Conversavam sobre variados assuntos, inclusive em inglês. Poucas pessoas se comunicavam tão bem com meu pai, além da família. Eu tinha a mania de dizer as palavras sem deixar sair o som, assim só meu pai entendia. Isto gerava brigas homéricas com minha mãe. O Flavio usava a mesma forma de falar sem som e assim a amizade perdurou até a morte do Xico em 2009.
Flavio e Xico viajaram juntos algumas vezes, uma dessas viagens foi para a Ilha da Páscoa no Chile que rendeu fotos belíssimas feitas pelo grande fotografo Flavio Del Mese que era o proprietário do Studio, um local onde eram exibidos os audiovisuais do Flavio. Uma sala imensa, com uma acústica excelente e as paredes recobertas com enormes painéis do Xico Stockinger. Flavio é um grande colecionador de arte e possui incontáveis obras do Xico. Além destas e outras artes, Flavio colecionava Dachshunds, os Pinóquios. Eram os salsichinhas, ou linguicinhas, ou cofaps marrons mais simpáticos da Lomba do Asseio. Minha mãe, Yeda Stockinger, me presenteou com uma “pinóquia”, Maria Polyana Del Mese Stockinger, um salsichinha adorável, viveu 14 felizes anos.
Esta amizade do Flavio e Eliane com o Xico e Yeda Stockinger foi tão intensa que o escultor e sua esposa foram os padrinhos de casamento do casal Del Mese.
Tenho muitas lembranças preciosas desta época em que erámos vizinhos e amigos. Uma dessas lembranças é fantástica, tínhamos em casa uma sala de jogos onde havia uma mesa oficial de sinuca. Aos sábados, invariavelmente à tarde, reuniam vários amigos do Xico para jogar. Flavio, Nelson Jungbluth, Enon, Carlos Mancuso, Francisco Fortes e tantos mais. Chegavam, todos, com uma maletinha preta, estreita, verdadeira preciosidade onde estavam os tacos raros, pessoais e intransferíveis. Pareciam as gangues de mafiosos. Estes jogos rendiam risadas, conversas sérias e brigas.
Brigas por pontos, por qualquer motivo, cerveja, vinho e muitas vezes um churrasquinho na beira da piscina. As esposas faziam companhia para a Yeda. Isto durou até o Xico falecer em 2009.
Estas lembranças se juntam a outras tantas que o Flavio conta de forma vibrante e arrebatadora em seu livro – “Flavio Del Mese, um Nômade pelo Mundo” – lançado pela Editora Libretos, em coautoria com a jornalista Susana Gastal. O livro é uma verdadeira viagem pelo mundo da história geográfica, gastronômica, arquitetônica com fotos fantásticas, inclusive há um ensaio do fotógrafo Marco Nedeff denominado Casa Del Mese. Como bem diz o título do livro, Flavio é um nômade do mundo e no mundo. Vale a leitura que é fácil, agradável e rica em informações. A biografia do autor já é fantástica por si só.