Em algum momento da história da civilização humana, as pessoas não precisaram mais buscar ou produzir a sua alimentação, pois podiam trocá-la ou comprá-la. A domesticação das plantas e dos animais — ou seja, o domínio do ciclo reprodutivo da vida — permitiu que se produzissem alimentos em quantidade suficiente para haver sobra no campo, para que parte desse excedente sustentasse a vida nas vilas, nas cidades. Alimentos excedentes, crescimento das cidades.
Assim, com o tempo, a sociedade humana passou de uma sociedade tribal para uma sociedade agrária, na qual a principal riqueza a principal riqueza era produzida no campo; daí para uma sociedade industrial, na qual a riqueza principal se dá na cidade, não mais no campo. A relação campo-cidade muda constantemente, como um par em transformação. Apenas as mudanças não são percebidas em todos os lugares ao mesmo tempo, mas em lugares diferentes, em velocidades diferentes, em densidades diferentes.
Os fenômenos da urbanização e modernização ocorrem paralelamente, espalhando as condições para um modo de vida semelhante, onde estes fenômenos se territorializam. Maior que cidades, mas regiões metropolitanas, onde as cidades se integram para dar fluidez as coisas e pessoas, uma verdadeira Revolução Urbana, nas palavras de Henri Lefebvre. Modelos e planificação orientaram a transformação urbana, formando esse amálgama que foi se estabelecendo para dar continuidade ao processo produtivo, e, ao mesmo tempo, adaptando as características próprias dos lugares, ou das cidades envolvidas.
Capão das Canoas, das embarcações de Timbaúva, seu nome de nascimento, marca a passagem para a Sociedade Agrária da futura cidade de Canoas, onde as Chácaras, como a Casa dos Rosa, é a primeira a ser construída a partir de 1900, onde famílias abastadas de Porto Alegre passaram a se estabelecer em sítios para lazer. Antes disso, em 1871, é inaugurado o trecho de estrada de ferro que liga Porto Alegre a São Leopoldo.
Na década de 1930, se acentua a expansão industrial ao longo de toda a extensão da BR 116, no eixo Porto Alegre a Caxias do Sul, e daí para São Paulo e o Sudeste brasileiro. As operações do Trensurb a partir de 1985 aumentaram a divisão leste e oeste da cidade de Canoas, isolando pontos, separando bairros e comunidades. O desenho e a função da cidade se alteraram. Uma parte da cidade, a comercial e industrial, vê sua população aumentada para suprir a produção e circulação dos serviços especializados e de comércio. A outra, chamada de cidade dormitório, abastece diariamente de mão de obra a Capital, cada vez menos industrializada, mas cada vez mais especializada em serviços. As pessoas ligadas à indústria têm que morar próximo do lugar onde trabalham. As prestadoras de serviço têm que ir até a Capital, diariamente.
Mas as pessoas não apenas dormem na cidade dormitório, elas se realizam como pessoas, passam a fazer parte da modernidade, da “urbanização do modo de vida”, que nos escreve Milton Santos, ou seja, a fazer parte do desenho de caminhos e construção de novos lugares no fenômeno metropolitano, adaptados as suas histórias. O documentário “This is Canoas, not Poa”, primeiro da trilogia de Wender Zanon, faz um mapa das Bandas de Rock’n’roll, ligando características melódicas ou comportamentais, às características do lugar onde moram, onde se reuniam para tocar, buscando espaços próprios para não viver à sombra da Capital, construindo a própria cena musical canoense. Os trailers de lanches, o “xis burguer”, servem de palco para várias reuniões de roqueiros para alegrar, ou mesmo matar, a monotonia dos finais de semana das cidades urbanizadas, porque essas foram pensadas mais para o tripé produção-circulação-consumo, do que para o lazer.
No segundo documentário, “Ensaios sobre uma Cidade”, já vemos os resultados da modernização em contraste com os prédios antigos preservados, as “rugosidades”, formas remanescentes dos períodos anteriores, com coloca Milton Santos, onde os chalés que tinham sua função na sociedade rural encontram uma nova função na sociedade urbana para a criação e circulação cultural, abrindo espaço para a divulgação da expressão visual e histórica e espaço de lazer. Cultura e lazer, como bens simbólicos ou imateriais, são valorizados na contramão da sociedade industrial que a antecedia. Na caminhada, atravessando a paisagem, vamos conhecendo os lugares onde o tempo permanece lento para se observar e contemplar seus significados, bem como as passagens que ligam o antigo ao novo, da praça antiga ao calçadão, símbolo da modernidade setentista, bem como aos monumentos e suas representações, como o significado da praça do avião, que na verdade se chama Praça Santos Dumont.
No terceiro documentário, “Um filme de BR”, vai na direção do global ao local, ou seja, as coisas se realizam no lugar e a forma da realização no lugar se globaliza. Mostra a BR 116, no trecho em que corta Canoas, uma rodovia madura, consolidada, feita para dar fluidez ao tráfego. “O automóvel é o Objeto-Rei”, nas palavras de Lefebvre, que rege comportamentos e domínios.
Entretanto, a estrutura por onde se deslocam os veículos — a BR 116 — deixa lacunas preenchidas por pessoas, histórias repletas de gentes que vão se adaptando ao desenho imposto para a fluidez do trânsito. Quem passa de carro por suas múltiplas elevadas não faz a menor ideia do que está ocorrendo, ao mesmo tempo, no leito da rodovia: as várias escalas da vida, o tempo rápido do fluxo e o tempo lento das vidas vividas pelos personagens locais.
A vida não é só isso que se vê, é muito mais!