Quando no final do ano passado surgiu a oportunidade de realizar uma exposição em homenagem ao meu pai, Plínio Bernhardt, nas dependências do Theatro São Pedro, em Porto Alegre, não imaginei que isto me levaria a uma fantástica viagem no tempo como uma testemunha privilegiada na busca da enorme quantidade dos seus trabalhos e lembranças inesquecíveis da vida e obra do meu pai. A exposição, ideia prontamente abraçada pelo presidente da fundação, Antônio Hohlfeldt, estava prevista inicialmente para o período de janeiro a março deste ano. Por uma feliz ironia do destino a mostra teve que ser adiada. Foi excelente, ganhei tempo e energia para empreender minha viagem.
VERÃO ESCALDANTE
O ponto central da exposição foi a participação do pai na pintura do teto e outros locais do prédio histórico. Reuni estudos de pássaros, frutas, um croquis incluindo as figuras no modelo de madeiramento do forro e até o original do contrato de trabalho assinado pela eterna presidente do Theatro São Pedro, Eva Sopher, Plínio Bernhardt e Carlos Mancuso em 1983, para a execução da pintura decorativa do espaço. Daí veio a primeira lembrança de observação: ao ver as fotos dos quatro artistas sem camisa, de bermuda e chinelos, realizando o seu trabalho, lembrei que estive lá para observar aquele trabalho.
Era um daqueles verões escaldantes da nossa Capital, apelidado de Forno Alegre em 1984. A indumentária dos realizadores era pra lá de adequada ao calor. O fotógrafo Luiz Carlos Felizardo registrou tudo aquilo.
AO SOM DE BEETHOVEN
A partir daí são destacadas temáticas relacionadas ao teatro em geral. As coloridas telas dos instrumentos musicais, por exemplo, levam a uma colagem de Beethoven, autor predileto de Plínio. Ele gostava de pintar ouvindo principalmente a 5ª Sinfonia, conhecida como a sinfonia do destino. Nova lembrança: acompanhando o trabalho do pai no seu atelier na rua Liberal, altos do Sétimo Céu, Zona Sul de Porto Alegre. A música estava sempre presente com sinfonias de Beethoven, Tchaikovski, óperas como Aida de Verdi mas também Música Popular Brasileira, com Bethânia e Chico Buarque, embalando o ritmo dos pincéis e pastéis na elaboração das telas e desenhos.
Outro recorte são as fachadas de prédios históricos como os teatros de Triunfo e o da Ópera, de Ouro Preto, Minas Gerais. Plínio eternizou em suas telas várias fachadas do Rio Grande do Sul e do Brasil.
ARTE NAS MISSÕES
Foi especial trazer para amostra o estudante Plínio, pintando nas férias de inverno de 1947 os óleos sobre telas de linho, retratando as ruínas das Missões Jesuíticas. Montar seu cavalete de campo, seus pincéis e tintas, duas telas originais e a foto do artista naquela época não tem preço. A publicação "Viagem às Missões”, feita pelo Centro Acadêmico Tasso Corrêa, do Instituto de Belas Artes, relata a viagem de estudos de vários acadêmicos da instituição, liderados pelo na época professor de pintura, Benito Castañeda. O livro descreve assim atividade: “Depois do almoço se armaram os cavaletes. Foi interessantíssimo apreciar o espetáculo. O descampado fronteiro ao templo, outrora praça principal do povo, estava agora pontilhado pelos cavaletes do Professor Castañeda, de Plínio Bernhardt, colorido aqui e ali pelos vestidos de Alice Bruegmann, Hilda Gráu, Suelí e Lígia Fett, que se enrodilhavam com a caixa de pintura ao colo.”
A publicação estampa uma das telas de Plínio, elaborada na ocasião. Dentro da mesma temática, em 2001, Plínio produziu três telas sobre as Missões, incluídas no Projeto Enartes. Na sua releitura sobre o assunto incluiu a presença de Jesus Cristo acompanhado de crianças indígenas no cenário das ruínas históricas.
Já no espaço dos “Primeiros Desenhos” está um trabalho de faculdade mostrando um cenário de uma ópera, desenhos de prédios e figura humana, temas presentes em toda a sua trajetória até 2003. Aliás, a figura humana liga-se à exposição por meio da tela “Bailarina” e traz outros trabalhos com este tema marcante na obra do artista.
GRAVURAS NA GARAGEM
As gravuras de Plínio chegam ao teatro a partir do conhecido Clube de Gravura de Porto Alegre, incluindo ainda outras peças de linóleo, xilogravura e litografia. Foi bom também mostrar as goivas e matrizes do artista, utilizadas para a realização das obras.
Outra surpresa: encontrar a anotação na linoleogravura de mulher em fundo vermelho, revelando que foi feita na garagem, na rua Fernando Machado, onde ele estacionava seu Austin 1951. Plínio guardava e anotava tudo. Na maior parte dos 55 anos de casamento meus pais moraram no Centro Histórico da capital gaúcha. Era 1965, quando eu tinha 10 anos, minha recordação resume-se a saber que sempre depois de um longo dia de trabalho e das aulas noturnas no Colégio Inácio Montanha, onde ministrava aulas de Desenho, Plínio guardava o carro naquela garagem. A gente morava num edifício do outro lado da rua. Lembro dele chegando em casa sempre depois das onze da noite. Confesso que não recordava que a garagem da Fernando Machado, também era local para as artes plásticas, que na época só podiam ser feitas nas horas de folga.
O ÚLTIMO RETRATO
Pode parecer que as telas de “Esqueletos” de Plínio tem relação com a doença que o vitimou em 14 de abril de 2004. Na verdade, o tema desta série de telas grandes começou no início dos anos 1990 e se manteve até 2003, ano anterior à sua morte. Desde 1980 sua pintura, desenhos e gravuras já mostravam seres extraordinários e outros que ele chamava de animais.
Começava a surgir esse universo fantástico na arte de Plínio. Certa vez minha esposa Anita perguntou ao sogro se a temática das obras tinha relação com seu estado de espírito ou saúde. Ele respondeu prontamente que não e que estava tudo bem. Foi fato. Mais de uma década se passou com um intenso trabalho do artista. As quatro telas de 1,80 por 1,50 metro de “Esqueletos”, presentes na exposição, foram produzidas em período bem próximo ao seu falecimento. O retrato feito por Fernando Zago no final de 2003, mostra o Plínio Bernhardt rodeado por seus “Esqueletos”. Embora doente, está com um ar altivo, olhando para o futuro de frente e demonstrando sua personalidade estóica. Além das pinturas, ele não deixou de ministrar o curso de desenho da figura humana, nos torreões do Margs, até suas últimas forças. Quem sabe ele, ao posar para seu último retrato, não pensava no lema dos formandos de 1948 do Instituto de Belas Artes, atribuído ao filósofo grego Hipócrates “a arte é longa e a vida é breve”.
Ele também deveria estar refletindo sobre seu enorme legado que ele iria deixar, incluindo sua produção de obras nos mais de 60 anos de arte e pelos ensinamentos aos seus alunos.
SERVIÇO
- O QUÊ: Exposição “Plínio Bernhardt: Arte eternizada no São Pedro volta ao Theatro”.
- QUANDO: Abre dia 11/6, 17h, com apresentação de obras de Beethoven por um quarteto de cordas da Orquestra Jovem do Theatro São Pedro.
- ONDE: Foyer do Multipalco Eva Sopher do Theatro São Pedro (praça Mal. Deodoro, s/nº ou Riachuelo, 1089, Centro Histórico, Porto Alegre).
- COMO: A mostra permanecerá até 6 de julho, com visitação de terça a domingo, a partir do meio dia até as 19h, quando os espetáculos do Teatro Olga Reverbel se iniciam.
- QUANTO: Entrada Franca.
- MAIS: www.theatrosaopedro.rs.gov.br