A lírica é um ato solitário. Conclusão, uma das tantas, a que chegou J.H. Dacanal ao ver nascer seu primeiro poema, depois de mais de meio século de atividade no jornalismo e no magistério.
O que o leitor vai encontrar na coletânea de poemas Lírica completa é, portanto, fruto amadurecido de J. H. Dacanal, desde os “rústicos parreirais em latada de Três Vendas de Catuípe”, e de uma infância “moldada pelos rígidos padrões da paideia clássica greco-romana herdada pela Igreja”, passando pelos intercâmbios no exterior e por décadas de docência no ensino superior. E, antes disso, pela formação em Letras e Ciências Econômicas, e com atuação não menos considerável como jornalista.
Mesmo quem o conheceu como colega em uma dessas profissões ou teve a sorte, como nós (gente mais velha) tivemos de ter assistido a suas aulas (e nelas conseguir permanecer do começo ao fim sem com ele se zangar!) durante os semestres de Literatura Brasileira na Ufrgs, não será capaz de testemunhar sua erudição, se não for também leitor(a) de sua lírica.
Pois, não obstante, costumamos perfilar Dacanal - e disso temos a pretensão de dizer que somos também testemunhas - em seu temperamento corrosivo, às vezes tido como intolerante, como crítico mordaz e austero no debate de assuntos os mais diversos, saindo-se mais pela restrição e menos pela apologia, sem medo de ferir a plateia, fosse ela de egos mais elevados ou de pessoas menos ingênuas. Ora, como ele mesmo nos ensinou, a coexistência absoluta da racionalidade paralela à sensibilidade artística é sempre detonadora de conflitos, de modo a tornar o artista um rebelde, e a arte quase sempre contestadora, pois a matéria do artista é delimitada apenas pela amplitude da sua experiência.
Há que se conhecer essa lírica, calcada em conceitos básicos da poética, é verdade. Entretanto, o mundo que esses poemas revelam vem-nos do grande contemplador da vida, de um eu poético, como em À maneira de Boécio, por exemplo. Em presença das delicadezas do amor, estará o leitor de Pastoral à Ricardo Reis e de tantos outros ricos poemas que agora se juntam na coletânea Lírica completa aos não menos primorosos Livro dos amores e Última lira, para dar conta do fascínio de um poeta pelos grandes clássicos da arte literária ocidental, dos antigos aos modernos.
Destacamos a possível aproximação de dois poemas que por seus temas entre si se relacionam: Ancilla Domini e À maneira de Goethe, o primeiro de Livro dos amores; o segundo de Última Lira. (abaixo)
Em latim o título Ancilla Domini pode ser lido em português como “serva do Senhor” ou “servir por livre aceitação ao Senhor”, título que já anuncia o imaginário cristão no poema que pode ser lido como a aceitação voluntária de uma missão. Mas o eu lírico recusa qualquer pedido de absolvição. Isso porque, no “mar undoso”, no mar de ondulações da existência, prevalecem leis que precedem a vontade individual. Articulado o campo semântico que remete ao mar (batel, tormenta, farol), essa submissão religiosa “a algum deus clemente”, a quem o eu lírico se nega a pedir perdão, é subvertida, uma vez que o servir não ocorre pela graça, mas pela necessidade. São passagens do poema que oportunizam uma reflexão sobre as leis que imperam: a primeira diz “Mantém-te à tona; a segunda diz: “/Aos de cima servem/ Os que embaixo vão!”. Tal é a condição trágica da existência, ancorada nos temas da memória e sobremaneira da dependência do eu lírico ao poder para sua própria sobrevivência.
Em À maneira de Goethe, a linguagem poética adquire tom confessional, momento em que a solidão humana é projetada na história de dor e na passagem transitória dos sujeitos “Vós e eu”. A memória é outra vez um tema por excelência, mediante lembranças que emergem do averno (inferno): a felicidade do passado, a “dura sina” no presente; a vida “em eterno recomeço/ De que a morte é o preço.” Nessa passagem, os versos dão conta dos símbolos da antiguidade clássica mesclados ao imaginário religioso cristão.
Um dia, Três Vendas de Catuípe cantará seu poeta
Necessário escrever Uma Carta ao jovem leitor, parafraseando Mario Vargas Llosa? Um léxico, à maneira do Léxico de Guimarães Rosa, de Nilce Sant’Anna Martins? Hoje vivemos tempos de informação veloz, ainda mais na recente era da IA. Assim, ao consultarem a Inteligência Artificial, os leitores de Dacanal hão de constatar: ele sabe. Um saber amplo capaz de gerar um léxico de mui difícil compreensão em tempos de tropeços e arremedos da língua portuguesa, somados agora ao abreviado de tudo, à simplificada ortografia das mensagens e ao vocabulário inovador dos internautas. Mas os robôs da IA também sabem que ele, o poeta, sabe. Custoso é desvendar a sua lírica! Porém a descoberta das camadas mais sutis da linguagem poética ocorre a cada significado das metáforas originais, com a decorrente produção de sentidos novos a cada verso no contexto da lírica. Cada poema despertará a necessidade de desvendar significados do vocabulário de intensa erudição, capaz de beirar o insólito para jovens leitores(as) da era cibernética. Cada leitor(a) há de muito se surpreender com a linguagem típica de quem recebeu uma educação “moldada pelos rígidos padrões da paideia clássica greco-romana”. Não obstante, é justo no momento de suspense, em que o poeta passa a se entender com os seus conflitos, que o tom confessional do eu lírico expressa as mais verossímeis dores e culpas humanas.
“Três Vendas de Catuípe”, no Estado brasileiro do Rio Grande do Sul, um dia cantará seu poeta, “antena da raça”, reconhecido por trabalhar com a realidade na totalidade ambígua dos sonhos de uma existência humana.
*Regina Silveira é professora. Doutora em Letras pela Ufrgs. Pós-Doutora em Ciência da Literatura pela UFRJ.
Ancilla Domini
Frágil batel
Em tormenta fera
Fiz-te luzeiro
E involuntário abrigo.
Farol me foste
Escolho fui-te
No encapelado pélago
À maneira de Goethe
Do Averno emersos em solene préstito
Em silêncio tétrico retornais contínuos,
Ó amados meus,
Memorando a mim, herdeiro triste,
O passado tempo em que felizes fomos
Pelo existir apenas da contígua carne
Na inclemente terra que ao sono eterno
Destinou soturna os filhos seus.
E assim passamos,
Vós e eu,
E os que depois, à dura sina
Condenados todos de chorar insones
Os que antes vieram, em eterno recomeço,
Que da vida sempre a morte é o preço.
Mas cantar eu devo a plateia estranha
De apupo fácil e aplauso avara
Que só do mundo a rasa lei entende
E da dor secreta que n’alma trago
Vulgar é ignara.
De duros idos.
Mas perdão não peço
A algum deus clemente,
Que do mar undoso
Na dura lida
Duas leis imperam
Impiedosamente.
A primeira diz:
Mantém-te à tona!
A segunda diz:
Aos de cima servem
Os que embaixo vão!