O livro “Leopold: uma novela” (2023) de autoria do escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil retrata, como o título sugere, a vida de Leopold Mozart (1719-1787), iluminista, compositor, professor de música e Kapellmeister (mestre de capela) que ficou conhecido pela posteridade como o pai do célebre compositor Wolfgang Amadeus Mozart.
Assis Brasil segue o rastro de Leopold Mozart, também chamado pelo escritor de velho Mozart, numa viagem pela sombria e fria Áustria de 1785, é justamente nesse cenário que encontramos Leopold sentado numa diligência se questionando sobre ter cumprindo ou não, a grande missão de sua vida: fazer “florescer” o talento de seu filho Wolfgang no “palco do mundo”.
Nas primeiras páginas do livro, temos a impressão de estar lendo uma biografia pois o retrato de Leopold Mozart é pintado com as “tintas da realidade”, ou seja, inspirado em aspectos reais da sua biografia. Não podemos esquecer que Assis Brasil fez inúmeras viagens ao território austríaco, consultou fontes primárias, arquivos públicos, especialistas mozartianos, trabalhos acadêmicos e leu detalhadamente a correspondência de Leopold, uma pesquisa feita com seriedade e que ajudou a inserir o leitor na atmosfera do século XVIII.
Outra questão relevante, diz respeito ao subtítulo: uma novela. Apesar do livro ter 296 páginas, não se trata de um romance. Tradicionalmente, o gênero literário novela é reconhecido por ser um gênero de curta extensão. Todavia, a novela tem outras características que a identificam como, por exemplo, o conflito central que vive a personagem principal e por ter poucas personagens envolvidas na trama. Narrada em primeira pessoa, a novela de Assis Brasil dá voz a esse personagem que sempre viveu à sombra do filho ilustre e que abriu mão de seus próprios sonhos e ambições para se dedicar integralmente à formação intelectual e musical de Wolfgang.
Como sabemos, desde a mais tenra idade, Wolfgang manifestou o que seu pai Leopold considerava ser um grande “dom de Deus”, um dom excepcional, uma aptidão fora do comum para música. Contudo, sem a educação primorosa proporcionada pelo pai que dedicou horas do seu tempo a ensiná-lo e sem os aprendizados que obteve com os grandes mestres da música europeia, certamente a qualidade da sua produção musical e a sua sensibilidade artística não teriam atingido o grau de excelência que atingiram.
Se para Herr Mozart, seu filho Wolfgang havia sido agraciado com um “dom de Deus”, para os representantes da ciência moderna, entre eles podemos citar Howard Gardner em seu livro Inteligências Múltiplas: teoria e prática (1995), Wolfgang tinha uma tipo de inteligência hoje denominada de inteligência musical, uma inteligência que permite ter uma percepção diferenciada dos sons, produzi-los e executá-los de outras formas.
Um dos maiores méritos da novela de Assis Brasil é desmistificar, em certa medida, essa ideia propagada pelo senso comum de que os gênios como Wolfgang “nascem prontos,” isto é, não precisam aprimorar os seus talentos pelo viés da educação. Desde o início, o professor de música Leopold percebeu que não bastava apenas a vocação do filho, essa vocação precisava ser desenvolvida. A criança prodígio – Wolfgang – foi treinada em suas habilidades e capacitada para exercer com maestria a sua vocação musical.
Na vida e na arte, os conflitos entre Mozart pai e Mozart filho foram inevitáveis. A independência musical de Wolfgang é muito marcada pelo episódio da sua partida de Salzburg - cidade de mexericos - rumo à Viena em busca de novos horizontes artísticos, Wolfgang dava um perigoso salto rumo ao desconhecido tomando assim as rédeas de sua vida e de sua carreira, criando sua própria identidade musical e tudo isso, longe da vigilância paterna.
O retrato do pintor Johann Nepomuk Della Croce – Mozart Family (1780) – é um retrato que conseguiu capturar e eternizar a imagem dessa família musical e artística que foi a família Mozart. O retrato de Assis Brasil é um outro retrato, trata-se de um retrato “pintado por palavras”, um retrato em que visualizamos dois músicos: um representante da antiga música e outro, da nova música clássica que surgia na Europa, um retrato em que Mozart pai aconselha Mozart filho, um retrato em conseguimos ouvir a arrebatadora e extraterritorial música de Wolfgang.
Em sendo assim, a assinatura musical de Wolfgang Amadeus Mozart está registrada na História da Música – o mundo todo é um espaço mozartiano- e nas páginas da novela do violoncelista e escritor Luiz Antonio Assis Brasil. Não resta dúvida de que Leopold Mozart cumpriu a sua “divina” missão em transformar o filho prodígio no maior compositor de todos os tempos e que Wolfgang colheu a glória futura que o velho Mozart tanto almejava.
Bravo Herr Mozart!