Caderno de Sábado

Uma sátira gigantesca

Ilustração de um gigante em Mundus Subterraneus
Ilustração de um gigante em Mundus Subterraneus Foto : Athanasius Kircher / Wikipedia Commons / CP

Pestana, personagem de Machado de Assis, é um artista que, ao longo da sua existência, encontra-se dividido entre o reconhecimento popular e a incansável tentativa de realizar uma composição erudita. Embora famoso pelas suas polcas, o músico que despertava o entusiasmo de centenas de admiradoras era também um sujeito insatisfeito, pois trocaria, sem pestanejar (apesar de seu nome), o prestígio pela possibilidade de ser um autor clássico.

De forma nem tão indireta, o Bruxo do Cosme Velho aborda a difícil tarefa do artista em harmonizar o alto e o baixo; o trágico e o cômico; ou, em outras palavras, a aceitação da crítica ou do público. E nessa escolha, a resposta do autor é bastante realista: o ditado que diz que mais vale um pássaro na mão que dois voando não se aplica às regras da arte. Aqui, parece sempre que a ave que voa é mais atraente que a que está entre os dedos, talvez mais pela beleza do voo que pela anatomia do pássaro. 

O livro “O Gigante – Comitragédia Satírica em quatro atos e meio” (Editora Giostri), publicado pelo professor, tradutor e escritor Marcus de Martini, complexifica a questão. A peça, vencedora do Prêmio Cidade de Belo Horizonte e vice no IV Prêmio Ufes de Literatura, desmembra as formas dramatúrgicas e as remonta, extraindo de cada uma o seu sumo mais valioso: da tragédia, a força inexorável do destino aplicado mais ao reino que ao herói; da comédia, a imitação de pessoas de perfis inferiores – tão reconhecíveis – que jamais chegam à plena vilania; e da sátira, a essência crítica que permeia as relações de poder que se constroem e se dissolvem ao longo das 124 páginas do livro.

A premissa é seguinte: nas festividades do Reino de Somorra, Rei João, filho esquecido de Príapo, se vê ameaçado pela iminente chegada de um gigante. Após ouvirem os presságios de Apolinarius – profeta adepto da preganomancia – os homens ligados ao poder decidem empreender uma busca que encontrasse um sátiro puro e honesto. Somente um indivíduo com estas características, posto em sacrifício, poderia aplacar a ira do monstro. 
Durante a aventura, as articulações políticas se estabelecem, levando as personagens a procedimentos e conciliações que remetem, em diferentes níveis, ao cenário do contexto brasileiro, sempre previsível em repetir os erros do passado. Como diz o próprio escritor, para encarar o desafio de falar sobre política, era necessário “mergulhar de cabeça na sátira mais desbragada e anárquica, pois a sátira não costuma ter cuidado ao pisar em ovos; ela simplesmente quebra todos”. 

Essa conjectura elaborada com maestria permite a consagração de figuras como o do Barão de Lassabonète, aristocrata que, pelos seus atributos inferidos pelo próprio nome, mantém-se ligado ao governo, independente do governante. Ou do Cardeal Deleterius, cuja retórica enfadonha adorna um discurso de muitas palavras e pouco conteúdo. Diferente destes é Maco, bobo da corte que representa um pouco de lucidez em um lugar onde falta, citando Gregório de Matos, “verdade, honra e vergonha”.

Trazendo o sátiro baiano à discussão, é bem possível que o conhecimento de Martini das estruturas literárias tenha viabilizado um produto cultural dessa natureza. Devido a sua formação, o autor conhece a fundo a teoria dos gêneros e dos artistas que se utilizaram desses sistemas para se expressar. Como tradutor, foi responsável pela nova edição de Anatomy of Criticism, do canadense Northrop Frye e da poesia religiosa de John Donne, trabalho que lhe rendeu o Prêmio Cléber Teixeira de 2016. Mas o que vincula Martini ao Boca do Inferno é sua especialização em Literatura Colonial do século XVII, já que sua tese de doutorado, As Chaves do Paraíso: Profecia e Alegoria na obra de Padre Antônio Vieira, dedicada a Vieira, contemporâneo de Gregório e vinculado ao Barroco, lhe rendeu o Prêmio Científico Casa da América de Lisboa e a Menção Honrosa do Prêmio Capes de Teses, em 2012.

Com isso, o que se torna claramente perceptível em O Gigante é a naturalidade com que o autor subverte o teatro clássico, nos dando a ideia de que está seguindo os passos desse mesmo teatro. Para o leitor acostumado com os (des)caminhos nem sempre tranquilos da história da literatura, a peça está permeada de mecanismos que o familiarizam com o enredo e as personagens de forma a transformar a experiência artística em (re)conhecimento. Entretanto, mesmo para quem nunca ouviu falar em Aristófanes, Rabelais ou até mesmo Gregório de Matos e Machado de Assis, o livro é um convite à reflexão dos tempos atuais, não diferindo, em substância, de muitas notícias veiculadas nos jornais cotidianos.

Como escreveu Umberto Eco, é como se o autor, ao lançar mão do repertório literário existente, desse uma piscada de olho para o leitor, edificando, pelo entendimento mútuo, uma cumplicidade entre eles. Essa cumplicidade implica intimidade e não raro nos sentimos mais próximos ao criador da obra, amplificando uma conexão emotiva com ela. No entanto, quem não percebe essa piscada, pouco se sente prejudicado.

Para ser mais exato, para tematizar a incomunicabilidade existente, hoje, entre as pessoas, por exemplo, Martini cria um profeta que se expressa em palavras que não são completamente decifradas. Ora, em um reino que não se compreende uma verdade clara e objetiva, como poderá haver espaço para a metáfora, para a alegoria e, por conseguinte, para a literatura?
A resposta, é evidente, está na própria publicação do livro, que resiste, como matéria textual, à falência interpretativa da linguagem. Se Pestana, lá em "O Homem Célebre", morre sem aparentemente solucionar o impasse existencial entre dois universos antagônicos, ressaltando a insatisfação humana em querer o que não se têm, quem sabe a mensagem codificada de Machado seja outra, encontrada no final do conto: Pestana, antes do fim, faz a primeira piada de sua vida, mas que chega tarde demais, porque morre na manhã seguinte. Ou seja, o que faltou à personagem foi a leveza necessária para suportar as contrariedades entre a seriedade e a galhofa.

Em síntese, até para não transformar a crítica em uma fala do Cardeal Deleterius, a maior contribuição da obra de Martini é equilíbrio entre a necessidade de levantar um assunto de extrema importância e o modo tragicômico de fazê-lo. E com todas as qualidades que um drama satírico pode oferecer. Uma sátira gigantesca, com certeza. Gigante pela própria natureza. 

* Doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal de Santa Maria.