Caderno de Sábado

Uma tragédia e três personagens

O escritor Sergio Faraco, patrono da Feira do Livro de Porto Alegre 2024, traz texto com pesquisa que começou com um nome de rua

Foto : Freepik / divulgação / cp

Em 1914, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou a mudança do nome da Rua Maria Isabel − uma travessa da Avenida Paulista, entre as ruas Augusta e Estados Unidos −, que passou a chamar-se Rua Peixoto Gomide. Por iniciativa dos poderes públicos, o homem que assim se chamava também é homenageado em outras cidades do Estado, nomeando escolas e logradouros e tendo sua lembrança perpetuada em monumentos, mas a travessa parece fadada a outra mudança. Em 2025, foi apresentado à câmara o projeto 0482, que propõe substituir o nome do pai pelo da filha.

No âmago deste projeto, há uma tragédia e três personagens.

Francisco de Assis Peixoto Gomide, figura de relevo em São Paulo nos últimos anos do século XIX e no princípio do seguinte – a primeira personagem –, nasceu na capital em 24 de março de 1849. Cursou Direito na Academia do Largo de São Francisco, formando-se em 1873. Nomeado promotor público na cidade de Amparo, ali também foi vereador e conheceu a futura esposa, Ambrosina Pinto Nunes. Casaram-se em 7 de setembro de 1875. Sete anos depois ele já se achava na capital, exercendo a advocacia. Destacando-se nas atividades políticas, elegeu-se senador estadual, reelegendo-se outras vezes no período 1894-1906. Presidiu interinamente o Estado em três ocasiões, a última em 1898, quando era vice do renunciante Manoel Ferraz de Campos Sales, que se candidatara a presidente da República. O casal Gomide teve cinco filhos: Mario (1877-1946), Bruno (1880-1905), Sofia (1881-1906), Alceu (1884-1958) e Gneza (1890-1961). Bruno cursou Direito e teve como colega o poeta Manuel Baptista Cepelos – este a segunda personagem. A amizade com Bruno propiciou ao poeta frequentar a casa do senador.

Cepelos nasceu em Cotia (SP), em 10 de dezembro de 1872. Era mulato, filho de uma escrava. Na juventude foi carroceiro e garçom. E já era poeta. Em 1883, na capital, entrou para o Corpo Municipal Permanente, alcançando o posto de capitão. E ainda era poeta. Um bom poeta, mas tinha outros planos e ambições e, em 1895, matriculou-se no anexo da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Formou-se em 1902, com o curso integralmente pago pelo pai de Bruno. Passou a advogar e, no mesmo ano, publicou dois volumes de poesia, “A derrubada” e “O cisne encantado”.

A advocacia não o sustentou. Foi delegado de polícia, depois promotor público em Apiaí e Itapetininga. Quando na capital, sempre comparecia à residência do benfeitor, à Rua da Princesa 25-A (depois Benjamin Constant), entre a Praça da Sé e o Largo de São Francisco, um dos lugares mais chiques da capital paulista. Naquelas visitas, Cepelos também fez amizade com uma das filhas do senador, Sophia – a terceira personagem. A amizade prosperou e o casal começou a namorar.

No início não houve oposição do chefe da família, talvez confiado de que fosse um namorico ocasional, mas após o falecimento de Bruno, em 1905, o Dr. Gomide se capacitou da repetição das visitas, da maior intimidade entre o casal e, nos primeiros dias do novo ano, passou a ver com outros olhos a presença do poeta em sua casa, alegadamente porque não suportava a ideia de separar-se tão cedo da filha amada.

Cepelos era um homem sem recursos, mas havia uma promessa do governo do Estado de nomeá-lo Juiz do Direito na primeira comarca que vagasse. E os namorados, de repente, decidiram casar. A pressa era tanta que marcaram a cerimônia para uma data próxima, 27 de janeiro. O senador se opôs com inaudita veemência, impondo o isolamento da filha, transtorno que o levou a procurar o psiquiatra Franco da Rocha, a quem talvez tenha confessado os motivos de sua oposição, pois houve um momento em que, convicto, teria dito ao médico:

– Minha filha não casará. Prefiro vê-la morta.

Mas oscilavam seus propósitos. Se em casa insistia no rompimento, publicamente parecia satisfeito, ou ao menos conformado com a resolução de Sophia. Permitiu o início de algumas obras na residência, necessárias para a festa do casamento. No início de janeiro fez o testamento e, na ocasião, disse ao amigo Dr. Gustavo de Godoy e ao tabelião que aprovava aquela união, pois o Dr. Cepelos era “um moço muito distinto” e com grande força de vontade. Terá sido mais veraz no que disse ao Dr. Siqueira Campos, num dos últimos dias dos trabalhos do Senado:

– Não sei o que me parece. Estou assim com a impressão de que vou morrer dentro em breve e de que não acabarei bem.

Tinha perdido o apetite, tinha perdido o sono e aqueles distúrbios foram interpretados como preocupações próprias de um cidadão que era o presidente do Senado. Contudo, não o impediram de ir a Itapetininga no dia 18 para alugar a casa em que residiria o casal.

Na manhã de sábado, 20 de janeiro de 1906, uma semana antes da cerimônia, o Dr. Gomide, após a noite mal dormida, não conversou com ninguém. Almoçou em silêncio, na companhia da esposa e dos quatro filhos, e continuou à mesa após a refeição, enquanto Ambrosina e Gnesa se retiravam para outras dependências e Alceu ia para seu quarto estudar, estava no quarto ano de Medicina na Bahia. Sophia, sentada numa poltrona, bordava um lençol, quem sabe o de sua noite de núpcias.

São duas horas da tarde.

Distrai-se o Dr. Gomide jogando bolinhas de pão no lustre da peça, subitamente se levanta e, aproximando-se de Sophia, recomeça a falar no casamento. Exige mais uma vez o rompimento e Sophia, ainda e sempre, nega-se a obedecer. São interrompidos em dois momentos pela cozinheira – ela traz chá com torradas e depois vem recolher a louça –, e quando a mulher dá as costas retomam a discussão. Diante da insistência furiosa do pai, Sofia confessa que já se entregou ao poeta. O senador, que estivera a caminhar de um lado para outro, pára e encosta um revólver na testa da filha, um pouco abaixo dos cabelos louros. Alguém a ouve dizer: “Que é isso, meu pai?” E ele dispara! O corpo de Sophia escorrega na poltrona, tomba no piso e uma poça de sangue se alastra sob sua cabeça. Aos 22 anos, Sophia está morta. Acorrem Ambrosina, Alceu, Gnesa e uma empregada, encontram o senador com o braço erguido, rígido, que ele começa a mover lentamente, até a arma apontar para Gnesa. A empregada grita, coloca-se entre ele e a menina, o senador recolhe o braço e caminha devagar até a sala de visitas. Senta-se diante do piano e encosta o cano do revólver no ouvido direito. Puxa o gatilho, o tiro falha. Dispara novamente e tomba ao lado do piano.

14:35h. O senador ainda respira.

Os estampidos chamam a atenção dos vizinhos, que espiam pelas janelas, assustados, e pouco a pouco forma-se um grupo de curiosos junto à porta principal da casa. Avisado por telefone, o filho mais velho, Mário, com escritório de corretor na Travessa do Comércio, sobe a correr a Rua Quinze de Novembro e quando se encontra com Alceu e Gnesa desatam os três a chorar em desespero. Ambrosina não chora. Em estado de choque, murmura palavras incompreensíveis. Acabam de chegar o arcediago Francisco de Paula Rodrigues, que é pessoa grata à família, e o cônego Benedicto de Souza, vigário de Santa Cecília.

O corpo de Sophia é levado para um dos quartos, ainda em seus trajes caseiros. No sofá de palhinha da sala de visitas, onde o deitaram, seu pai resiste, com “longos e fundos haustos”. Acima do ouvido esquerdo, onde saiu a bala, derramam-se porções de massa encefálica.

– Sou eu, Dr. Gomide, seu amigo Chico – diz o arcediago ao seu ouvido. – Lembre-se da Virgem e peça-lhe perdão por seus pecados.

Não há reação do moribundo.

Na calçada do número 25-A, há agora uma multidão a dar passagem aos notáveis que chegam e sobem a escadaria da casa. São senadores, deputados, secretários de Estado, altos funcionários, parentes, amigos. Chegam também os delegados João Baptista de Souza e Teóphilo Nóbrega, seguidos pelo Chefe da Polícia Meirelles Reis e do médico-legista Marcondes Machado. Também estão presentes os médicos Ayres Netto, Arthur Mendonça e Cândido Espinheira, mas já não há que fazer. Pouco antes das três da tarde, morre o senador.

A família é avisada de que os funerais serão realizados às expensas do Estado de São Paulo.

Às 22h são conduzidos os corpos às câmaras ardentes, a do senador é a peça contígua à sala de visitas. Vestido com terno e casaca, ele tem o rosto coberto por um lenço de seda. As paredes foram revestidas de veludo negro e ouro. No teto, cruzam-se duas largas fitas de crepe. Suporta o féretro a eça guarnecida de galões dourados e coberta de seda negra. Em volta, dezenas de coroas, na cabeceira um grande crucifixo de prata.

A câmara de Sophia foi armada na sala de visitas, com as paredes forradas de veludo branco e prata. Em torno da eça coberta de seda branca, grandes castiçais de prata, onde ardem os círios. Sophia está vestida de noiva, o rosto parcialmente velado.

Às 9h do dia seguinte param à frente da casa três coches funerários. O primeiro, com adornos pretos e amarelos, tirado por quatro cavalos negros com penachos também negros, destina-se ao corpo do Dr. Gomide. O outro, branco e com frisos dourados, tirado por quatro cavalos brancos com penachos também brancos, é o carro de Sophia. O terceiro transportará as profusas coroas. Nos jornais do dia seguinte serão citados os nomes dos remetentes. Uma delas é do poeta, que participa de um julgamento em Itapetitinga e é representado pelo Dr. Júlio Prestes.

Procede à dupla encomendação de corpo presente o padre Nicolau Carpinelli, amigo da família, que mais de uma vez tem a fala interrompida pela emoção e pelas lágrimas.

O caixão do Dr. Gomide, de seis alças, ultrapassa a porta da casa carregado pelo presidente do Estado, Jorge Tibiriçá, pelo Chefe da Polícia Meirelles Reis, pelo secretário de Estado da Agricultura Carlos Botelho e ministros estrangeiros. O de Sophia, pelos irmãos Mário e Alceu e os senhores Manuel Braga, Joaquim Batalha, Júlio Prestes e Raul Jordão. Uma garoa refresca a multidão, que agora ocupa toda a extensão da Rua da Princesa, o Largo de São Francisco, as ruas José Bonifácio e Líbero Badaró. “Eram tantos os guarda-chuvas e tão unidos uns aos outros”, lê-se no jornal O Comércio de 22 de janeiro de 1906, “que pareciam formar uma grande abóboda”.

Defronte à residência alinham-se o Batalhão de Infantaria, comandado pelo tenente-coronel Pedro Rodrigues Xavier, e o Corpo de Cavalaria, sob as ordens do tenente-coronel Antônio Baptista da Luz, e enquanto os caixões são conduzidos aos coches a tropa presta homenagem em posição de funeral-arma. Ao primeiro movimento dos carros, o Corpo de Cavalaria se posiciona atrás do que leva o corpo do senador. Começa o cortejo para o Cemitério da Consolação. Seguem-se os tílburis, as elegantes vitórias, os landaus das famílias mais abastadas, as seges de aluguel e os cupês de praça em fila interminável de lenta e reverente evolução, ao passo que nas calçadas se desenha o pasmo no rosto no povo miúdo. No cemitério, enquanto os caixões são introduzidos no jazigo da família, a banda militar executa a marcha fúnebre.

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Chocado com tamanha insânia, o ex-noivo abandonou o emprego e era visto embriagado e andrajoso pelas ruas da cidade. Malvisto pelos que o julgavam responsável pela morte de Sophia, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido como poeta simbolista e tradutor de Mallarmé, Verlaine e Gôngora. Publicou um livro, “Bandeirantes”, com prefácio de Olavo Bilac e boa repercussão. Candidatou-se três vezes à Academia Brasileira de Letras e em todas foi derrotado. Residia numa pensão à Rua Silva Manuel 104 e em tão lamentáveis condições que foi obrigado a vender ou mandar vender seu livro de porta em porta para pagar o quarto que ocupava. Teve dias menos amargos ao ser nomeado promotor público em Cantagalo, em 1915, mas a angústia e a tristeza que pesavam em sua história jamais o abandonaram.

Em 6 de maio do mesmo ano, Cepelos esteve no Centro Paulista, onde estava sendo organizada uma festa em sua homenagem marcada para o dia 10, segunda-feira, com a participação de vários artistas, mas na manhã do dia 8 ele foi encontrado sem vida por crianças que brincavam nos fundos de uma casa no Catete, ao pé de um penhasco de 80 metros de altura. O corpo e o rosto estavam dilacerados e a polícia o identificou pelo que trazia nos bolsos: uma carteira de veludo com as iniciais M. B. C., uma revista de São Paulo, um soneto intitulado Olhar e 12 cartões de visita com os dizeres: Manuel Baptista de Cepellos – Advogado. Entenderam os investigadores que se tratava de um suicídio, mas ao longo dos anos persistiu uma dúvida, pois Cepelos era míope. Também nunca se soube o que ele foi fazer lá em cima na noite de sexta-feira.

Somente nos anos 50, por informações constantes do diário que o poeta Humberto de Campos manteve de 1928 até sua morte, publicado em parte na revista O Cruzeiro e provocando acérrimas polêmicas, soube-se que Peixoto Gomide, em sua loucura, elegera o pior caminho para evitar uma relação incestuosa: Baptista Cepelos era seu filho natural, fruto de um caso que, na mocidade, tivera com uma escrava em Cotia.

Nota:

Nas consultas à Hemeroteca Digital Brasileira, colaborou o pesquisador santa-mariense Válter Antônio Noal Filho.

Consultas:

Correio Paulistano. São Paulo, 21 jan 1906.

O Estado de São Paulo. São Paulo, 21 jan 1906

O Comércio. São Paulo, 22 jan 1906

Correio Paulistano. São Paulo, 9 maio 1915

saopaulopassado.wordpress.com

aventurasnahistoria.uol.com.br

pragmatismopolitico.com.br

economia.estadao.com.br

TOLEDO, Renato Pompeu de. A capital da vertigem. São Paulo: Objetiva, 2015