Caderno de Sábado

Uma vela acesa descendo a correnteza

O escritor Alcy Cheuiche publica no Caderno de Sábado o primeiro conto do seu livro ‘Uma vela acesa descendo a correnteza’, que será autografado na Feira do Livro de Santa Maria, neste sábado, 23, 16h

Vela ilustrativa para o primeiro capítulo do livro "Uma Vela Acesa Descendo a Correnteza", de Alcy Cheuiche
Vela ilustrativa para o primeiro capítulo do livro "Uma Vela Acesa Descendo a Correnteza", de Alcy Cheuiche Foto : Arivumathi / Wikipedia Commons / CP

O velhinho tomou outro trago de cachaça. Olhou o copo vazio contra a luz do lampião, chupou os lábios como num beijo e respondeu à pergunta dos meninos:

- Encontrar o corpo dum afogado? Só com uma vela acesa descendo a correnteza.

- Como, tio Farra?

- Assim como eu disse.

- Mas... A vela se apaga na água.

- Como vamos fazer para ela ficar acesa?

- E como vamos saber onde está o morto?

O velho Farra arregalou os olhos com exagero. Pegou a garrafa e encheu meio copo com mão firme. O cheiro da bebida se misturou ao de cachorro molhado e lenha queimada.

- Vocês perderam um afogado?

- Não senhor.

- Deus nos livre.

- Era só... para saber.

- Então, está certo. Vou mostrar para vocês.

O menino mais velho se levantou como erguido por uma mola.

- Vou buscar uma vela no oratório da mamãe.

O irmão do meio levantou-se devagar.

- Do que mais vamos precisar?

- De um prato de alumínio.

- Raso ou fundo?

- Fundo.

- Deixa que eu pego na cozinha.

O caçula não se mexeu do pelego. Tio Farra passou a mão calosa sobre seus cabelos suaves.

- Tu tens medo de afogado?

- Não... sei. Nunca vi um.

A chuva voltou a cair sobre o telhado do galpão. O velhinho mexeu num dos bolsinhos da guaiaca e tirou dele um relógio redondo. Aproximou-o do lampião de querosene, forçando seus olhos míopes.

- São quase nove horas. O patrão deve estar chegando do outro lado do Camaquã.

- Posso... ir com o senhor?

Tio Farra mostrou seus dentes cariados.

- A patroa ia me tirar o couro.

- Eu me escondo... Debaixo do seu poncho. Ela não vai ficar sabendo.

Os outros dois meninos chegaram correndo, respirando forte.

- Aqui está a vela...

- ...e o prato de alumínio.

Tio Farra tomou outro trago de cachaça.

- Me dá o prato. E a vela também.

Acomodou o prato sobre os joelhos, acendeu o isqueiro a gás e passou a chama azulada pela parte inferior da vela. Cheiro de sebo derretido. As gotas foram caindo no prato, todos os olhos grudados nelas. O velhinho apertou a vela sobre o sebo, ainda mole, mantendo-a bem reta. Depois moldou a massa esbranquiçada em volta da vela, parecendo não queimar os dedos grossos.

- Tá pronto. Agora só falta acender a vela e largar o prato água abaixo.

- E...

- ... como é ...

- ... que se encontra o defunto?

Uma buzina soou nítida: uma, duas, três vezes, entre o ruído da chuva. O velho largou o prato no chão e se levantou. Acomodou o chapéu na cabeça e deixou cair as abas do poncho até as botas.

- Bueno, se acabou a conversa. O patrão está chegando de Caçapava. Ficou de me esperar do outro lado do rio.

- Mas...

- ...de manhã...

- ...o caminhão atravessou o passo.

- De manhã. Agora já é de noite.

Uma voz de mulher se ouviu bem próxima:

- Nove horas meninos cama!

- Podemos esperar o papai?

- Nos deixa, sim, mamãe?

- E eu... posso... ir junto?

O vulto que enquadrava a porta estendeu suas mãos para a luz amortecida.

- Até que o Farra vá e volte na canoa, vai levar mais de uma hora. Todos para a cama agora mesmo! Se esqueceram que amanhã vamos carnear o porco?

Tio Farra já patinava no barro em direção ao passo. Os meninos tentaram esperá-lo acordados, mas não conseguiram. Só no outro dia ficaram sabendo. A casa e o armazém cheios de gente. A mãe e a irmã mais velha servindo café como num velório. O pai, ainda molhado, contando a história em voz baixa.

- Depois da desgraça, eu fui até o Silvino e pedi um cavalo emprestado. Tinha que atravessar o Camaquã de qualquer maneira. O Farra... eu vi com a lanterna quando ele caiu da canoa.

- Devia estar borracho. Uma vez eu atravessei com ele e...

A voz da mãe elevou-se irritada.

- Mais respeito com os mortos, seu Simplício.

- Mas será...

- ...que ele morreu

- ...mesmo?

Com a chegada dos meninos, os adultos mudaram de assunto.

- Quer um mate, seu Simplício?

- Vou querer sim, obrigado.

Os meninos maiores choravam encerrados no quarto. Escureceu cedo, sem chuva. O caçula adormeceu nos braços da mãe. O pai voltou já noite alta, as botas sujando de barro o piso da sala.

- Não conseguimos encontrar o corpo. O Polidoro quase se afogou procurando. Mandei que parassem.

Pelas frestas da parede de madeira, os dois irmãos viram e ouviram tudo. As carinhas apertadas uma contra a outra. Os ombros tremendo.

- Vamos contar para o papai?

- Sobre a vela?

- É.

- Ele vai dizer que é bobagem. Está morto de cansado.

- Me espera no galpão. Vou pegar os fósforos na cozinha.

- De jeito nenhum. Eu vou contigo.

- Tu tá com medo, guri?

- Me cagando. E tu também.

Mas foram em frente. Os pezinhos gelados moldando a lama. Só o céu estrelado vendo tudo lá de cima.

Na margem do rio, cheiro de barro e peixe morto. Gastaram meia caixa de fósforos para acender a vela. O prato flutuou, mas logo se prendeu nas pontas das ramas de um sarandi. Um segurando a mão do outro, com água pela barriga e pelo peito, os guris empurraram o prato em direção da correnteza. E voltaram correndo, sempre de mãos dadas, tropeçando, até o refúgio da casa, da cama e dos cobertores.

Sem testemunhas, aquele ato de coragem poderia ter sido em vão. Mas um pescador, um pouco mais abaixo, quase morreu de susto ao ver a vela acesa descendo a correnteza. Então, depois que se recompôs, viu quando a vela girou como num redemoinho, girou, girou, até se apagar.

E foi ali mesmo que o Polidoro mergulhou e encontrou o corpo morto do tio Farra. Inchado, mordido pelos peixes, trancado nuns galhos no fundo do rio.