Escrevo este texto, logo após voltar do velório do Luis Fernando Verissimo, no Salão Júlio de Castilhos da Assembleia, que foi encerrado no sábado, 30 de agosto (2025), 17h, com aplausos emocionados e vivas ao jornalista, cronista e escritor, um 3 em 1 muito melhor do que aqueles CCEs no qual ouvi as principais canções da minha infância e adolescência, de Chico Buarque ao jazz de John Coltrane. Resolvi escrever estas linhas talhadas com lágrimas para falar do autor que me ensinou viver com mais alegria, a ler o humor com ironia, sarcasmo e deboche, e a não levar tão sério os textos cômicos, a ser mais Polianna (referência ao jogo do contente da personagem de Eleanor H. Porter).
Muito mais do que o pai, Erico, Luis Fernando sempre esteve presente na minha vida desde a infância nos anos 1970. O primeiro livro que comprei dele foi “O Rei do Rock” (1978), coletânea de crônicas em coleção da Editora Globo. A crônica que me marcou deste livro foi “Futebol de Rua” e falava da Pelada, o jogo de futebol onde tudo é possível e que era a realidade dos fominhas de bola de plantão entre os quais eu me inseria. Com 4 anos de idade, eu jogava futebol com bolas de tênis ou de frescobol, com 5 e 6 anos, eu chutava pedras e bolinhas de gude como se fossem de futebol. Esta crônica do LFV me pegou em cheio, pois falava disto, da falta de regras para a Pelada. Este trecho mostra o porquê da minha identificação:
DA BOLA
“A bola pode ser qualquer coisa remotamente esférica. Até uma bola de futebol serve. No desespero, usa-se qualquer coisa que role, como uma pedra, uma lata vazia ou a merendeira do seu irmão menor, que sairá correndo para se queixar em casa. No caso de se usar uma pedra, lata ou outro objeto contundente, recomenda-se jogar de sapatos. De preferência os novos, do colégio. Quem jogar descalço deve cuidar para chutar sempre com aquela unha do dedão que estava precisando ser aparada mesmo. Também é permitido o uso de frutas ou legumes em vez da bola, recomendando-se nestes casos a laranja, a maça, o chuchu e a pera. Desaconselha-se o uso de tomates, melancias e, claro, ovos. O abacaxi pode ser utilizado, mas aí ninguém quer ficar no gol.”
Quando chegamos aos anos 1980, eu adolescente e já envolvido com o teatro, acabei assistindo a uma esquete da crônica “Emergência” no qual Verissimo brincava com uma pessoa entrando pela primeira vez em um avião e os comissários dando instruções do que fazer em caso de queda da aeronave. Na época, eu fazia parte de um grupo de teatro em São Leopoldo, o Corpos e Sombras, e em janeiro de 1988 fiz minha primeira viagem de avião a Salvador, Recife e Fortaleza, pela Varig/Cruzeiro e também pela Transbrasil. Viajei com meus pais, Roque e Deotília, e quando a aeromoça começou a dar as instruções, eu comecei a me apavorar como no texto de Verissimo:
"Senhores passageiros, sua atenção, por favor. A seguir, nosso pessoal de bordo fará uma demonstração de rotina do sistema de segurança deste aparelho. Há saídas de emergência na frente, nos dois lados e atrás."
- Emergência? Que emergência? Quando eu comprei a passagem ninguém falou nada em emergência. Olha, o meu é sem emergência (...)
- Isto é apenas rotina, cavalheiro.
- Odeio a rotina. Aposto que você diz isso para todos.
"No caso de despressurização da cabina, máscaras de oxigênio cairão automaticamente de seus compartimentos."
- Que história é essa? Que despressurização? Que cabina?
"Puxe a máscara em sua direção. Isto acionará o suprimento de oxigênio. Coloque a máscara sobre o rosto e respire normalmente."
- Respirar normalmente? A cabina despressurizada, máscaras de oxigênio caindo sobre nossas cabeças - e ele quer que a gente respire normalmente?
(...)
- Eu desisto! Parem este troço que eu vou descer. Onde é a cordinha? Parem!”
Fiz algumas coisas parecidas ao que eu lembrava da crônica. A comissária de bordo pensou que eu estava apavorado e tentou me acalmar. Vendo que ela estava preocupada e que já queria trazer algo para me acalmar, eu acabei dizendo que estava recriando uma crônica do Verissimo. Ela deu um suspiro de alívio e chegou a ensaiar ficar zangada comigo, mas a minha pirraça tinhas bases sólidas textuais.
Continuei lendo LFV com afinco, mas nos anos 1990 quando eu já estava a mil na minha primeira década de jornalismo, começaram a vir com tudo as publicações de “As Comédias da Vida Privada” pela L&PM. A primeira edição foi em 1994 e já em abril de 1995 o Guel Arraes e o Jorge Furtado resolveram levar as crônicas para uma série de TV e foi um estrondoso sucesso com atores do quilate de Fernanda Torres, Débora Bloch, Pedro Cardoso, Luiz Fernando Guimarães, Daniel Dantas, Giulia Gam, Marieta Severo, Cláudia Abreu, Marco Nanini, Andréa Beltrão, Tony Ramos, Diogo Vilela. E aí comecei a voltar a escrever textos de humor junto com amigos do jornal no qual eu trabalhava na época, do Grupo Editorial Sinos. É claro que não publicava os textos, mas eu lia “As Comédias da Vida Privada”, via a série quando passava na TV, gravava no videocassete e queria por que queria entrevistar o Luis Fernando Verissimo. Dá para acreditar que eu não consegui, mas acho que foi para manter a distância segura do ídolo.
Nos anos 2000, tive algumas oportunidades de ter algumas conversas rápidas com o Luis Fernando Verissimo. Não mais do quatro ou cinco conversas. Me lembro de três delas. A primeira foi durante o lançamento do livro “Pequenos Amores”, do José Roberto Torero, em 2003, na Feira do Livro de Porto Alegre. LFV estava na fila dos autógrafos à minha frente e eu peguei a caneta e o bloco e perguntei se Torero não ia pegar o cetro de melhor cronista de humor do país, depois que Verissimo partisse. Luis Fernando exaltou as qualidades de Torero e disse que não aceitava este posto de melhor cronista de humor do país. A segunda vez foi quando ele e Lucia estavam no Aeroporto Charles de Gaulle em Paris, no balcão da TAP, para um voo de Paris a Lisboa. Eu e minha namorada à época estávamos atrás deles na fila. Tínhamos ido a Paris pela primeira vez. Puxamos papo sobre Paris e Lisboa. Lucia contou um pouco sobre a viagem e Luis Fernando comentou “en pasant” que estar em Paris pela primeira vez é parecido com a Disney para as crianças.
A terceira vez foi em 2015, quando republiquei no Caderno de Sábado um texto de Erico escrito dois meses antes de sua morte, em 1° de outubro de 1975, chamado “O Correio do Povo e Eu”. Erico falava de sua gratidão ao jornal por ter publicado um dos seus primeiros contos em 1930 e agradecia ao jornal pelo impulso que faltava para optar pela carreira literária. Republiquei o texto em um sábado e na segunda houve sessão de autógrafos na Livraria Cultura e o Luis Fernando estava lá. Em dado momento, estávamos olhando livros em uma mesma estante e eu puxei um papo, me apresentando como Luiz Gonzaga, editor do Caderno de Sábado, e que eu havia republicado o texto “O Correio do Povo e Eu”, de Erico no sábado. Luis Fernando desarmou sua timidez e falou comigo que aquele texto era muito caro ao Erico. Foi escrito durante semanas naquele 1975 e publicado um pouco menos de dois meses da morte do pai, um ataque do coração (como se dizia à época) em 28 de novembro de 1975. LFV disse que o texto demorou a ser feito, porque Erico era sempre grato ao CP pelo impulso que faltava em sua carreira literária.
E corta para 2025, quando Verissimo foi internado no Hospital Moinhos de Vento, no dia 16 de agosto, com quadro de pneumonia, permanecendo em estado grave por duas semanas até a sua morte no dia 30 de agosto. Desde então, passei a reler alguns textos de Verissimo e a frequentar o Arquivo de Jornais do Correio do Povo. Com o auxílio do colega Juliano Bruni, fui esquadrinhando as crônicas de Verissimo na Folha de Manhã entre 1° de maio de 1970 a 24 de outubro de 1975. Achei pérolas. Uma delas está reproduzida na página ao lado.
No dia em que perdemos a presença física de Verissimo, posso dizer que manteremos a presença etérea e eterna dos seus textos, principalmente as crônicas de humor. Só posso dizer que LFV me ensinou a ser mais alegre, a ser mais Polianna, a fazer o jogo do contente ou a tratar com ironia e de forma proativa as pequenas tragédias cotidianas. Vida longa à escrita de Verissimo!!!