Os casos de violência contra a mulher têm aumentado pelas mais diversas causas. Como psicanalista, com especialização em Neuropsicanálise, meu intuito é compartilhar, ainda que despretensiosamente, uma perspectiva clínica por meio de um perfil fictício, baseado em fatos reais.
João Reis, 23 anos, separado, dois filhos, espancou a ex-esposa. Foi preso por conta de denúncia feita por ela, com base na Lei Maria da Penha. Permaneceu 47 dias na prisão. Foi solto. Desde então, tem quadros de paranoia e está afastado dos filhos. Sofre por estar longe e do convívio social com eles. Tem uma nova companheira, grávida dele, com a qual teve episódios de violência doméstica. Ela, também apresentou queixa via Lei Maria da Penha, mas acabaram se entendendo e estão juntos. Não há dúvidas de que a punição foi necessária e justa. Mas, e depois? Como psicanalista clínica, fui procurada por um parente deste agressor para tratá-lo em conjunto ao acompanhamento psiquiátrico.
BREVE CONTEXTO
HISTÓRICO DO AGRESSOR
Sua mãe com transtornos psíquicos foi agredida pelo marido, durante a gravidez. João sofreu violência física e verbal pelo pai, que, enquanto batia nele, dizia: “Você é um desgosto, não será nada na vida”. Foi criado pela bisavó, seu único modelo de vínculo afetivo e segurança. A mãe viajava muito e dizia com frequência: “Eu deveria ter seguido os conselhos de minha mãe e ter te abortado”. Presenciou a morte da bisavó por AVC aos 13 anos. Ficou sem residência fixa. Jogado de um lado para o outro, pois ninguém o queria, transformou-se em uma criança agressiva. Pela perspectiva clínica, João tem histórico de traumas de desenvolvimento desde a gestação, acompanhado de violência infantil, abandono e agressões ainda na primeira infância — um conjunto de traumas psíquicos — que são conflitos causados por experiências intensas não processadas devidamente.
Nesse contexto, entende-se que corpo e mente são indissociáveis. Imagine que você ingeriu um alimento e teve intoxicação alimentar. Até que o consiga expelir e desintoxicar seu aparelho digestivo, você terá vários sintomas e se sentirá bastante desconfortável. O problema é que não é possível expelir ou deletar memórias. Elas podem e devem ser tratadas, mas estão longe de serem simples. Esses conflitos sobrecarregam o sistema nervoso e podem se manifestar por meio de sintomas, sendo um deles a agressividade, decorrente de um conjunto de causas e condições que não estão no nosso controle, como a genética e a epigenética herdada dos pais. No caso de João, a raiva é expressa em direção ao outro. Em outras pessoas, a raiva pode surgir na forma de depressão, que seria a raiva voltada contra si; compulsão por alimentos; dependência química; ideação suicida; automutilação; crises de pânico; sintomas físicos; entre muitos outros.
O CÉREBRO QUE PREVÊ E AUTOMATIZA PARA ECONOMIZAR ENERGIA
A Neuropsicanálise é uma área das ciências humanas que reúne cerca de 40 anos de estudos e pesquisas. Ainda pouco conhecida no Brasil, tem como principais nomes os neurocientistas e psicanalistas Mark Solms, Karl Friston e Jaak Panksepp, entre outros. Essa abordagem compreende o cérebro como uma espécie de “fábrica de memórias”, responsável por produzir e organizar diferentes tipos de registros em diversas áreas.
Do período da gestação até aproximadamente os dois anos de idade, nossas memórias situam-se em um nível emocional primitivo, enquanto o aparelho psíquico ainda está em formação. Nessa fase, não somos capazes de criar imagens, pensar ou raciocinar de forma estruturada. Nascemos sendo afetados e sentindo, mas sem formar representações mentais ou pensamentos sobre essas experiências iniciais. Além disso, o sistema nervoso do feto em desenvolvimento é profundamente influenciado pelas vivências da mãe durante a gravidez, ao mesmo tempo em que carrega heranças genéticas e epigenéticas dos pais.
Experiências como abandono e agressões na infância podem deixar marcas profundas, constituindo memórias emocionais primitivas que se manifestam posteriormente como impulsos irracionais e sobrecarga do sistema nervoso. Ao longo do amadurecimento, em interação com o ambiente, o aparelho psíquico responde da maneira possível, recorrendo a mecanismos de sobrevivência que tendem a se automatizar. Essas memórias são armazenadas e passam a orientar respostas futuras. Assim, o cérebro se organiza para prever e reagir com base nesses registros e nesses padrões automatizados, buscando economizar energia — independentemente de essas respostas serem benéficas ou prejudiciais. Essa é uma possível, ainda que parcial, explicação para comportamentos como o de João e de vítimas de violência que permanecem em relações abusivas.
A grande maioria de casos como o de João cresceu em ambientes hostis. Por mais que haja um reconhecimento, no nível cognitivo e racional de que é ruim, já no nível afetivo e primitivo é conhecido e possível sobreviver. O agressor entende que, para ter vínculos, é necessário ser agressivo. E a vítima entende que ser agredida faz parte da manutenção do vínculo, porém, isso não é conscientemente percebido. Está automatizado no nível primitivo, e um atrai o outro.
A Neurociência Afetiva de Jaak Panksepp, que serve de base para a Neuropsicanálise, categorizou emoções e necessidades emocionais em “sistemas afetivos”, que são tão necessários para a sobrevivência, a saúde física e mental, quanto são as necessidades fisiológicas.
Em casos de violência contra a mulher, podemos supor que os “sistemas de necessidade de vínculo” e o “sistema da raiva” estão hiperativados e em desvio. O “sistema de necessidade de vínculos”, cuja tradução literal do inglês seria “Panic/Grif”, e aqui podemos usar a imagem daquele cachorrinho ou gatinho que trazemos para casa com 45 dias de vida, que grita e geme quando fica sozinho, mesmo tendo suas demais necessidades fisiológicas atendidas. Acredite ou não, carregamos este mesmo sistema, que se desenvolveu a partir das mesmas áreas do cérebro relacionadas à dor física. Quando perdemos alguém ou algo que amamos muito, sentimos dores e sintomas físicos. O “sistema da raiva”, que visa nossa proteção — proteção do que julgamos ser nosso e senso de justiça — também é ativado. Evidências robustas mostram que o cérebro masculino é fisiologicamente diferente do feminino. A testosterona está associada a comportamentos agressivos mais físicos em homens, enquanto mulheres tendem a expressar a raiva de forma mais emocional e psicológica, o que é apoiado por estudos que ligam hormônios ao comportamento agressivo.
João segue em terapia, está medicado e vem apresentando avanços graduais significativos. São 23 anos de memórias e mecanismos de sobrevivência automatizados que não se resolvem em uma semana ou um mês. A prisão gerou um impacto emocional intenso que, num contexto de tratamento em ambiente seguro, pode ajudar, mas, num cenário hostil e repressor, pode piorar os sintomas e escalar a agressividade. Dito isso, fica a reflexão sobre punições aos agressores em trânsito livre sem um acompanhamento psicanalítico clínico.
Autoria: DRIKA SHAK - Psicanalista clínica.