Carta desconexa

Carta desconexa

Motivos da adesão à carta devem ser avaliados

Guilherme Baumhardt

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Cuidado com a tal “Carta pela Democracia”. O nome é lindo. O texto é fabuloso, rebuscado. Mas ela na verdade não passa de uma mistura de fantasia com o desejo não revelado de determinados grupos de interesse. E talvez de alguns incautos, outros inocentes úteis e alguns que parecem estar meio perdidos por ali. Mas como descobrir? Basta ver quem assina o documento e se alguns desejos foram ceifados nos últimos três anos e meio.

Há ali banqueiros, por exemplo. E é fácil entender a adesão deles ao movimento. Durante a gestão de Jair Bolsonaro um oligopólio foi desmanchado. Em um país com mais de 200 milhões de habitantes, apenas cinco grandes bancos disputavam o mercado. É pouco, muito pouco. Uma concentração que era boa apenas para um lado: o dos “bancões”.
Hoje milhões de brasileiros usam o chamado Pix, que permitiu transferências de dinheiro entre contas de pessoas físicas sem a cobrança de taxas, como ocorria com os antigos TED e DOC. São negócios que foram facilitados. A doceira que vende bolo, o encanador que trabalha com bicos. Todos usando o Pix.

Além disso, a abertura do mercado permitiu que bancos digitais e as chamadas fintechs entrassem no jogo, oferecendo serviços sem custos adicionais, além da facilidade de abrir uma conta usando apenas o telefone celular. O cartão de crédito? Chega alguns dias depois, pelos Correios. Simples assim. É uma relação construída na base da confiança.

Milhões (especialmente jovens) passaram a usar esse tipo de serviço. Fica muito claro quem perdeu. E não me entendam mal. Bancos são bem-vindos e necessários em qualquer economia séria. Nosso problema era outro, a reserva de mercado, a falta de concorrência. Essa turma entrou em pânico. E estão lá, signatários da tal carta.
Quem também assina o documento são as centrais sindicais – CUT e Força Sindical. Desde a reforma trabalhista, aprovada ainda no governo de Michel Temer, essa turma viu secar uma gorda teta. A contribuição sindical, antes obrigatória, passou a ser facultativa. E, apesar da trabalheira que é suspender o desconto em folha, a maioria dos trabalhadores optou por ficar com o dinheiro, no lugar de contribuir com entidades que se dedicam muitas vezes a fazer política partidária, e não a atuar em questões ligadas ao trabalho. Há exceções, claro.

Há também empresários. Mas quais? Há gente com cores políticas bastante definidas. Guilherme Leal, fundador da Natura, por exemplo. Anos atrás, Leal foi candidato a vice-presidente, na chapa encabeçada por Marina Silva – uma ex-petista que só sabe falar em “sustentabilidade”, sem conseguir fazer o casamento da verborragia com a economia ou com a vida real.

A Natura, empresa de Guilherme Leal, criou um movimento chamado “Segunda sem carne”, em que defende que não se coma carne uma vez por semana, sob o pretexto de que se trata de um cuidado com o meio ambiente – falam em redução do consumo de água, redução dos gases do efeito estufa e preservação de vegetação. Balela e conversa fiada, lacração barata de quem ignora que a natureza é feita de ciclos e que, já nos ensinava Lavoisier, “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

Há também artistas. Chico Buarque, por exemplo. Curioso, em 2003, é que Chico Buarque assinou outra carta. Mas não a favor da democracia, mas sim defendendo a ditadura de Cuba, um dos antros em que não há sequer um pingo de liberdade, graças a décadas de esquerda no poder, produzindo fome, miséria e perseguição política.

Há signatários do documento que não possuem interesses específicos? Sim, certamente há. Sobre os mencionados acima, nenhum problema em endossarem um documento assim. Seria mais honesto, porém, se trouxessem a público os reais interesses, aqueles que sobressaem ao que está no texto trazido a público, e não apenas uma questionável defesa da democracia. Eu (e provavelmente tantos outros) não ficaríamos olhando para esse negócio, com uma interrogação no meio da testa: será que eles acham que somos idiotas?


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