Guilherme Baumhardt

Não foi pouca coisa

Ataque em Curitiba merece pronta e dura resposta

No último dia 5 de fevereiro, uma horda bárbara invadiu a igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Curitiba. O grupo tinha entre os seus líderes o vereador Renato Freitas, do Partido dos Trabalhadores. Com faixas, cartazes, gritos e doses cavalares de desrespeito, o bando obrigou o padre a encerrar a missa antes do previsto, fazendo com que fiéis deixassem o local. Nos minutos seguintes, o espaço religioso passou a ser utilizado como palanque para discurseira política.

Sob o pretexto de defender a memória de Möise Kabagambe e pedir justiça, o grupelho dotado de muita intolerância e pouca massa cinzenta acabou dando tiros nos dois pés. Aos gritos de “racistas” e “fascistas”, a turba agrediu pessoas que certamente condenam a atrocidade cometida contra o jovem congolês, brutalmente assassinado no final do mês passado, no Rio de Janeiro.

Empunhando bandeiras do PT e do PCB, o grupo de bárbaros profanou um lugar de valor histórico não apenas para católicos, mas para a capital paranaense – o prédio atual foi construído no mesmo local que abrigou a terceira igreja de Curitiba, um espaço erguido por escravos e para escravos, e que com o fim do regime de escravidão perdeu sua razão de ser, dando lugar a um novo santuário.

Se as imagens já são chocantes, a nota oficial emitida pela executiva do Partido dos Trabalhadores, no Paraná, consegue ser igualmente terrível. Em primeiro lugar, os “iluminados” burocratas concluem que o assassinato do jovem Möise teve motivação racial. Em tempo: as investigações ainda estão em andamento e ao menos dois dos suspeitos de participarem do crime são igualmente negros, assim como era a vítima.

Quando fala sobre a balbúrdia promovida pela horda, os dirigentes petistas lavam as mãos: “... a Comissão Executiva Estadual do PT do Paraná lamenta o episódio e esclarece que não participou nem da organização nem da decisão de adentrar o templo religioso”. E segue: “Há, por parte da imprensa tendenciosa, a manipulação de fatos para prejudicar o Partido dos Trabalhadores, pois os vídeos evidenciam que no momento em que os manifestantes estiveram no interior da paróquia, a missa já havia terminado e o templo estava vazio”. Não é bem assim. A missa termina por força dos manifestantes, já posicionados à porta. E mesmo que houvesse apenas o coroinha no local, a atitude do grupo continuaria sendo reprovável. Ao final, não há qualquer menção sobre eventual reprimenda, muito menos a expulsão do vereador que integra o partido.

Aos que acham que há uma dose de exagero nas linhas acima, faço questão de lembrar: regimes totalitários têm aversão a religiões, por algumas razões. Primeiro: são locais que representam de uma forma ou de outra a liberdade individual, sem amarras impostas por déspotas. Segundo: há ali uma espécie de poder concorrente, não necessariamente político, mas que disputa espaço e discurso com eventuais tiranetes. Terceiro: religiões, de maneira mais ampla, carregam valores que nem sempre compactuam com aqueles defendidos pela ditadura de plantão. Ou seja, representam uma ameaça.

No episódio de Curitiba, pouco importa o espaço e a religião. Se fosse uma sinagoga, uma mesquita ou um templo evangélico, a ação do grupo seria igualmente condenável. Aqui escreve um sujeito que crê em Deus, mas não é seguidor de nenhuma doutrina. Filho de um católico e uma luterana, aprendi a respeitar todas as crenças, assim como aqueles que são simplesmente ateus.

O que aconteceu no Paraná é grave e exige pronta e dura resposta, por parte da polícia e dos vereadores de Curitiba que, imagino, não deixarão o colega sem punição. É o mínimo que se espera. Se ficar por isso mesmo, corremos o sério risco de assistirmos aqui, no Brasil, ao que aconteceu no Chile, por exemplo, onde igrejas foram incendiadas em meio a manifestações, que, coincidência ou não, terminaram com a esquerda radical chegando ao poder nas eleições recentes. Queremos isso?