Sobre videolocadoras, comida e desafios

Sobre videolocadoras, comida e desafios

Até hoje guardo na memória o cheiro da videolocadora em que eu ia com meus pais e meu irmão, no bairro Petrópolis

Guilherme Baumhardt

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Dia desses lembrava – com boa dose de saudosismo – dos tempos em que tínhamos as videolocadoras. Era um ritual bacana. Os mais novos talvez não saibam, mas sexta-feira era dia de buscar filmes. E, geralmente, funcionava assim: quanto mais fitas você levasse, mais tempo poderia ficar com elas. Um filme, um dia. Dois filmes, dois dias. Com lançamentos era diferente: você precisava fazer reserva e o prazo para devolução era de 24 horas.

Na hora de retornar, nada de entregar sem rebobinar. Do contrário, multa. Até hoje guardo na memória o cheiro da videolocadora em que eu ia com meus pais e meu irmão, no bairro Petrópolis. Depois das fitas VHS vieram os DVDs e depois dos DVDs os serviços de streaming – associados aos canais de televisão fechados. E enquanto essa revolução acontece, salas de cinema resistem bravamente, com suas telas gigantes, potentes sistemas de som e aquele perfume permanente de pipoca no ar.

Hoje há um manancial ilimitado. Existem opções para todos os gostos, produções de todos os cantos do mundo e que chegam pela Internet. E admito: tenho uma ponta de inveja daqueles que conseguem consumir toneladas e toneladas de filmes e séries. Há excelente material sendo produzido, com ótimos enredos e grandes roteiros. E eu não consigo aproveitar. Não é culpa de ninguém, exceto minha.

Nas férias eu consegui. Assisti a episódios da série Chef’s Table. É a história de um famoso chef de cozinha e dono de restaurante em Berlim, na Alemanha. Mais do que pratos, sabores e descobertas, há ali uma história de vida interessante.

Pedindo perdão aos que não assistiram, faço um resumo: o protagonista é um sujeito que foi bastante maltratado pela vida. A mãe, embora afetuosa, não tinha condições de criá-lo. Ele vai morar com o pai, que sistematicamente o agredia fisicamente. O bairro em que ele morava – Kreuzberg – estava longe de ser uma área amistosa. Entrar para uma gangue, arranjar brigas e cometer pequenos delitos era apenas uma questão de tempo. Até que surge a virada. Após concluir o ensino fundamental, ele faz um curso de gastronomia. Na hora de buscar um emprego, ele distribui o currículo nos melhores hotéis e restaurantes de Berlim. E não é chamado. Ele decide ser um pouco menos ousado e, no lugar de hotéis cinco estrelas e cozinhas consagradas, bate na porta de restaurantes um pouco menos famosos e hotéis quatro estrelas. O resultado é o mesmo.

Meses depois o telefone toca. Do outro lado da linha, a responsável pela área de recursos humanos de um dos locais nos quais ele tentou uma vaga. Curta e grossa, ela diz: “Você não foi contratado, foi?”. Após a resposta negativa, vem a dica: “Ninguém vai contratá-lo. Você é de Kreuzberg e isso desperta desconfiança. Comece por baixo”. É o que ele faz. Inicia a carreira em locais simples. De auxiliar, passa para cozinheiro. De cozinheiro, vira chef. De um restaurante ele passa para outro, melhor.

Tim Raue – o chef – hoje é dono de um restaurante com duas estrelas no conceituado Guia Michelin. Ele tinha tudo para seguir por um caminho que o levaria para a cadeia. Ele poderia reclamar de preconceito pelas suas origens. Ou ainda creditar um eventual fracasso à eterna luta de classes, alimentada por determinados grupos políticos. Não foi o que Tim fez. Levou a sério a sugestão que ouviu. Iniciou cozinhando para o povão. Acertou muito mais do que errou. E trabalhou muito.

Histórias como a de Tim existem no Brasil. E poderiam ser ainda mais frequentes se não insistíssemos na tese de que deve vir do Estado a solução para os nossos problemas. Menos governo na vida das pessoas é um ótimo começo. Mais difícil do que arrebentar a corrente amarrada aos nossos pés é mudar a mentalidade plantada nas nossas cabeças ao longo de décadas. Estamos apenas começando.


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