Um peso... quantas medidas?

Um peso... quantas medidas?

Curioso é que no Brasil o site The Intercept, que assim como as redes sociais nasceu “ontem”, publicou material que foi obtido após a invasão – sem autorização da Justiça – de telefones de autoridades.

Guilherme Baumhardt

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Algumas eleições atrás a principral preocupação de partidos e da justiça eleitoral era com panfletos apócrifos. O golpe baixo, sempre sem autoria e na maioria das vezes com informações caluniosas sobre determinados candidatos, era espalhado na madrugada, em papéis atirados de carros em movimento, sobre ruas e calçadas das cidades. Uma porquice, em uma primeira análise, além de jogo sujo do ponto de vista ético.

Com internet, banda larga e redes sociais no lugar do material impresso, a prática seguiu a mesma, mas agora acontece nas redes. O melhor filtro para isso? Informação, um mínimo de checagem e vergonha na cara – afinal, compartilhar lixo ou mentira deveria provocar rubor em bochechas de gente séria.

Qual caminho adotamos? Agências verificadoras de informações, algo que o próprio jornalismo já faz – o bom jornalismo, frise-se. Onde está o erro? No foco. Uma postagem na semana que passou, na página do projeto Comprova, carregava nas tintas e no teclado para dizer o seguinte: “É falso que Jair Bolsonaro tenha sido o primeiro presidente a visitar a Ilha de Marajó (...) como afirma publicação que viralizou nas redes sociais”.

Uma breve pesquisa em jornais da época mostrou que outros mandatários da nação já estiveram no local. Mas, com o perdão dos marajoaras, qual a relevância e o impacto disso? Não defendo que a versão errada deva prevalecer, óbvio que não. Mas não existem outras informações circulando pelas redes ou até mesmo produzidas por veículos de imprensa que mereçam uma checagem mais apurada?

Também nesta semana, nos Estados Unidos, o Twitter e o Facebook barraram a publicação de uma reportagem do jornal New York Post a respeito do candidato democrata Joe Biden e um de seus filhos, Hunter. Denúncias pesadas, que podem interferir na decisão dos norte-americanos em meio a um processo eleitoral. A justificativa? Em um primeiro momento, a de que precisavam checar a veracidade da informação. Como?! Um jornal com mais de dois séculos de história, protagonista da cobertura do escândalo dos Pentagon Papers, não tem credibilidade suficiente para garantir que uma rede social que nasceu “ontem” divulgue o material checado, apurado, com fontes e sob pena de ser punido pela lei, caso as informações ali não sejam procedentes? A coisa ficou feia e, em um segundo momento, a desculpa foi a de que a publicação trazia dados pessoais dos citados, o que contraria as regras de uso das redes.

Curioso é que no Brasil o site The Intercept, que assim como as redes sociais nasceu “ontem”, publicou material que foi obtido após a invasão – sem autorização da justiça – de telefones de autoridades. Ok, nem sempre o jornalismo tem como fontes a banda limpa e cheirosa de determinados setores. Aliás, é justamente em meio à podridão, ao esgoto, que surgem as histórias mais escabrosas e com maior repercussão.

Tenho restrições a chamar o que faz o Intercept de jornalismo. Mas isso é opinião pessoal. Também não defendo que o material divulgado pelo site fosse censurado. Não vi ali um trabalho criterioso de checagem, e profissionais do site admitiram edição no conteúdo. Se o que foi revelado é crime ou não, é outra história. Externei em outro momento neste mesmo espaço minha visão a respeito. Meu ponto é outro. As mesmas redes sociais que barraram a publicação do Post não viram problema no que fez o Intercept? Se não vejo razão para censura ao episódio brasileiro, menos ainda no escandaloso caso americano.

Já citei o caso aqui. Algum tempo atrás, em depoimento ao Congresso dos Estados Unidos, um dos criadores e dono do Facebook, Mark Zuckerberg, admitiu com outras palavras que o Vale do Silício, onde estão hospedadas as empresas de tecnologia, tem uma predominância clara de pessoas simpatizantes do Partido Democrata, que recentemente deu uma guinada feroz à esquerda, dando destaque para figuras como Alexandria Ocasio-Cortez e Bernie Sanders.

Se Facebook e Twitter não endossam uma reeleição de Trump, são livres para isso. Desconheço a legislação americana para redes sociais, mas veículos de imprensa tradicionalmente “abrem o voto” em um ou outro candidato. É natural e algo até esperado pelo eleitorado.

No Brasil, embora exista liberdade para assumir uma linha editorial, emissoras de rádio e televisão, por exemplo, não podem sob hipótese alguma manifestar preferência por um ou outro candidato. São concessões públicas e por isso ficam sob um guarda-chuva diferente. Impressos têm mais liberdade, mas em terras tupiniquins a tradição é diferente da vista nos Estados Unidos.

A sensação que fica é, após este e inúmeros outros casos, de que algumas páginas e redes sociais têm posicionamento. Para mim, nenhum problema. Só deveriam deixar isso mais claro aos usuários


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