Um dos filhos do ex-detento Lula foi vítima de um assalto, na última terça-feira à noite, em São Paulo. Ou melhor. Vamos contar a história sob a visão esquerdista. Ele não foi vítima de um assalto. Ele foi alvo de uma pessoa socialmente vulnerável e financeiramente desfavorecida. E, no lugar de um assalto, o que ocorreu foi a subtração de um bem capitalista, comprado após a exploração do proletariado.
Ironias de lado, vamos aos fatos. Delito consumado, Luís Cláudio procurou uma delegacia. Para quê?! Registrar um boletim de ocorrência, que poderia ser feito pela Internet? Para refrescar a memória do leitor, voltemos a novembro de 2019, quando Lula disse, logo após sair da prisão: “Eu não posso ver mais jovem de 14, 15 anos assaltando e sendo violentado, assassinado pela polícia, às vezes inocente, ou às vezes porque roubou um celular”.
Se honrar o que disse, acho que Lula deveria dar uma chamada no filho: “Pô, Luís Cláudio! Que é isso? Delegacia?!?! Onde já se viu?! ‘Caguetar’ os meninos para a ‘puliça’!”. E a coisa não terminou aí. Entrevistado por uma equipe da TV Record, o filho lulista disse o seguinte: “Foi muito rápido, não deu tempo de fazer nada”. O que ele faria? Reagiria?
Luís Cláudio só repetiu o roteiro de uma correligionária do pai. Maria do Rosário, deputada federal pelo PT do Rio Grande do Sul, foi assaltada há alguns anos, em Porto Alegre. Os bandidos (sim, bandidos, deputada) levaram o carro da parlamentar. Alvo dos criminosos, Rosário chamou a valorosa Brigada Militar, que cumpriu sua missão e localizou o veículo no dia seguinte.
Os assaltantes de Luís Cláudio eram menores de idade (Maria do Rosário é contra a redução da maioridade penal). Estavam com um simulacro de arma, o suficiente para levar dois telefones e mais 220 reais. A diferença entre o certo e o errado não está no valor do que foi levado. Se fosse apenas um telefone e a metade do dinheiro, continuaria sendo um crime, continuaria sendo errado.
O raciocínio que cabe aqui, para irmos além, é outro. Se para Luís Cláudio o susto foi maior do que o prejuízo, para a dona Maria e o seu João, moradores de regiões menos abastadas do país, perder o telefone em um assalto significa uma dificuldade enorme. É perder um trabalho, uma faxina. É ver as prestações do telefone que ainda não foi quitado chegarem todos os meses, mas não encontrar mais o aparelho no bolso ou na bolsa. É mais do que isso. Maria, João e tantos outros não têm uma vida fácil. Tiveram, sim, uma escolha. E optaram por trabalhar honestamente. Muitos, inclusive, viram os filhos irem além, estudarem mais do que eles estudaram, conquistarem o que eles não conseguiram conquistar. E de maneira correta.
É mais ou menos como o caso do faxineiro do aeroporto de Brasília que, em 2004, encontrou uma mala com 10 mil dólares no banheiro do terminal. Francisco Cavalcante (falecido em 2016) ficou famoso e quis conhecer Lula. Deu uma aula de retidão e honestidade ao sujeito que só não está na cadeia graças ao que um dia foi uma Suprema Corte. Perguntado sobre os amigos que sugeriram a ele comprar uma casa ou um carro com o dinheiro encontrado, Francisco respondeu: “Esse é o lado do desonesto”. E ouviu como resposta, do ex-detento: “Não é nem desonesto, não. Eu acho que o cara achou um dinheiro, não tem dono, e aí fala ‘conforme for, vou ajudar minha vida”.
Tenho um amigo que perdeu um envelope com 3 mil euros, em um banheiro, em Cannes, na França. Não havia nome, nenhuma identificação. Desesperado, ele procurou até encontrar. Nenhuma cédula havia sido retirada dali. Assim como o faxineiro do aeroporto de Brasília, quem encontrou o dinheiro foi uma pessoa honesta. Outro conhecido esqueceu uma máquina fotográfica em um trem, na Alemanha. Um outro passageiro encontrou o equipamento e a empresa fez a remessa, via Correios, ao Brasil.
Definitivamente, caráter não tem preço.
