Depois de ser atacado em seu território ao longo de dois anos e meio, o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, resolveu partir para o revide dentro do território russo. Fato marcante, porque é a primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial que a Rússia é atacada dentro do seu território. E esta ação, iniciada no último dia 6, já resultou na tomada de 73 localidades nos arredores de Kursk, correspondendo a uma área de 1.000 quilômetros quadrados. Segundo as informações, foram mobilizados para esta ação entre 6 mil e 15 mil soldados. E já provocou a morte de pelo menos 24 civis, ferimentos em cerca de duas centenas, e a fuga de 131 mil pessoas. O governo de Vladimir Putin teve que colocar trens especiais para deslocar os moradores da região para localidades mais seguras.
DESAFIO
O desafio que encara Zelensky é muito grande. Afinal, ele está enfrentando uma das maiores potências militares do planeta. E mais, uma potência nuclear. E não foram poucas vezes em que Putin acenou com fazer uso desses artefatos. Embora a maior parte das autoridades mundiais acredite que se trata de mera retórica, pois Putin não será louco o suficiente para usar este tipo de armamento. Segundo falou para o The Times, Michael Clarke, professor de estudos de defesa do King’s College de Londres. Zelensky vinha discutindo havia meses com os seus comandos militares o lançamento desta ofensiva. E conseguiu convencer seus pares a executar uma ação que é bem a sua cara, “atrevida e arriscada”. Segundo o professor, “a Rússia não tinha visto nenhum metro de seu território invadido desde 1941”.
IMPACTO
O professor destaca o que era um grande objetivo de Zelensky e que está acontecendo. “As imagens que chegam de Kursk estão impactando a população russa e o efeito pode ser difícil de ser administrado pelo Kremlin.” Já os pesquisadores do Fundo Carnegie para a Paz Internacional, publicaram no site War on the Rocks que a operação em Kursk se destaca pelo fator surpresa e pela rapidez do avanço da contraofensiva.
Outro detalhe importante, foi mostrar a fragilidade da defesa russa. Fragilidade que foi constatada também na ofensiva, pois, quando lançou o que chama eufemisticamente de “operação militar especial”, a 24 de fevereiro de 2022, invadindo a Ucrânia, o objetivo de Putin era realizar essa tarefa em questão de dez dias a duas semanas no máximo. Depois disto esperava ver o presidente Zelensky preso, colocando no poder um títere de suas relações. O fato de a “operação” ainda estar acontecendo mostra que as forças russas não têm o poderio que aparentavam ter.
REVIDE
Outro ponto importante nesta vitória que, momentaneamente, a Ucrânia vai tendo, é o fato de a Rússia ter-se visto obrigada a deslocar seus batalhões que disputavam com as forças ucranianas a cidade de Kharkiv, a segunda maior do país. Esses batalhões foram mandados para Kursk, na tentativa de impedir o avanço ucraniano em território russo. O primeiro resultado disto foi a recuperação pela Ucrânia de sua importante cidade.
Os ucranianos, no entanto, estão cientes do revide que pode acontecer. O mesmo The Times cita fontes do Ministério da Defesa que dizem esperar uma grande represália russa, inclusive com bombardeios contra a capital Kiev. Há, porém, um outro importante fator nesta escalada da Ucrânia em território russo: a presença de equipamentos da Otan. Testemunhas citadas pelo jornal espanhol El País, dizem que nessa ofensiva estão presentes veículos blindados de infantaria da Otan sendo usados mísseis de médio alcance Himars dos Estados Unidos, assim como os poderosos caças F-16.
CONFRONTO
Assim é que, indiretamente, já estamos vendo um confronto da Otan com a Rússia. Isto porque a autorização inicial para a Ucrânia usar esses equipamentos era para uso em seu território. Todavia, diante do impasse que se estabelecia havia meses em razão da disputa por Kharkiv, as lideranças ocidentais teriam dado o seu aval para o uso dos equipamentos no território russo, com base nessa estratégia audaciosa de Zelensky. Putin havia advertido que o uso de armas da Otan em solo russo significaria uma declaração de guerra. Fica, portanto, a grande expectativa em torno da reação russa a esta cartada dada por Zelensky.
