Jurandir Soares

A derrota de Trump

O eleitorado aproveitou a renovação do Congresso e a escolha de governadores para manifestar seu descontentamento com os rumos do governo

A s eleições de meio de mandato realizadas nesta terça-feira, nos Estados Unidos, representaram um importante revés político para Donald Trump. O eleitorado aproveitou a renovação do Congresso e a escolha de governadores para manifestar seu descontentamento com os rumos do governo, especialmente diante do aumento do custo de vida, da inflação, dos preços da energia e dos combustíveis. O resultado também colocou em evidência os limites da estratégia política do presidente e a dificuldade de transformar sua popularidade em apoio parlamentar.

Mais do que uma disputa entre republicanos e democratas, a votação foi uma avaliação dos dois primeiros anos do atual mandato. A perda de espaço no Congresso reduz a capacidade de Trump de aprovar sua agenda e abre uma nova etapa de disputas entre a Casa Branca e o Legislativo.

NÚMEROS

Na Câmara dos Representantes, os democratas conquistaram 228 cadeiras contra 139 dos republicanos, com 68 disputas ainda sem definição na atualização desta quarta-feira. No Senado, passaram a contar com 54 parlamentares, incluindo dois independentes que integram sua bancada, contra 44 republicanos. Duas disputas ainda estavam em aberto. A mudança é expressiva: os republicanos controlavam as duas Casas antes da votação. Na eleição para governadores, os democratas também avançaram: conquistaram 28 governos estaduais, contra 20 republicanos, considerando os resultados já anunciados.

ECONOMIA

A insatisfação econômica foi determinante. O aumento do custo de vida, a inflação persistente e a alta dos combustíveis e da energia pesaram no voto. Também contribuíram as consequências da guerra com o Irã e os efeitos das tarifas comerciais impostas por Trump. Pesquisas de boca de urna indicaram que metade dos eleitores encarava a votação como uma oportunidade de manifestar oposição ao presidente. Cerca de 70% defenderam que o Congresso exerça maior controle sobre o Poder Executivo. O resultado mostrou que a mobilização política de Trump não foi suficiente para neutralizar as preocupações cotidianas da população.

CONGRESSO

A partir de janeiro, quando os novos parlamentares assumirem, Trump terá de governar com um Congresso controlado pela oposição. Os democratas poderão bloquear projetos, dificultar a aprovação de indicações para cargos importantes e abrir investigações sobre decisões do governo, negócios da família presidencial e condução da política externa. A Câmara poderá também iniciar processos de impeachment, embora uma eventual condenação dependa de dois terços dos votos do Senado. Trump já sinalizou disposição para negociar, mas ameaçou vetar projetos que considerar inaceitáveis. Os próximos dois anos, portanto, deverão ser marcados por confrontos institucionais e negociações difíceis.

A eleição, como seria de esperar, elegeu representantes de minorias, como a democrata Keisha Lance Bottoms, 56, para o governo da Georgia. Primeira mulher negra a ser eleita governadora. Assim como tivemos o primeiro senador muçulmano, Abdul El-Sayed, eleito por Michigan. A lista poderia ir além.

EXTERIOR

Na política externa, a derrota poderá limitar a liberdade de ação presidencial, sobretudo em questões que dependam de recursos, legislação ou aprovação parlamentar. A guerra com o Irã e a política comercial estarão entre os principais assuntos sujeitos a questionamentos. Entretanto, não se deve imaginar uma mudança automática na orientação internacional dos Estados Unidos: o presidente conserva importantes prerrogativas diplomáticas e militares. Trump poderá, inclusive, tentar concentrar esforços no exterior para compensar as dificuldades internas.

Para o Brasil, abre-se uma oportunidade de diálogo com parlamentares democratas e republicanos contrários ao uso de tarifas e sanções como instrumentos de pressão política. A mudança de maioria poderá ampliar a fiscalização sobre as medidas adotadas contra Brasília e criar espaço para discutir as barreiras comerciais. Mas não significa que as tarifas serão suspensas imediatamente.