Jurandir Soares

A fala de Putin e a proposta chinesa

Presidente russo se meteu em uma grande enrascada

O esperado discurso do presidente russo, Vladimir Putin, perante a Assembleia Federal não passou de uma repetição do que vem dizendo desde que deflagrou a guerra contra a Ucrânia, um ano atrás. Ou seja, que o Ocidente quer acabar com a Rússia e que, para se defender, poderá fazer uso de armas nucleares. E aproveitou para dizer também que o seu país ficaria fora do acordo chamado Novo Start, que fora assinado em 2010. Ocorre que, na prática, este acordo não teria validade nenhuma. Isto porque ele limita Estados Unidos e Rússia, que possuem cerca de 13 mil bombas nucleares em seus arsenais, a 1.600 ogivas. Dois pontos: nunca houve essa redução que fora acordada e as 1.600 permitidas são suficientes para acabar com a humanidade. Putin disse que “a Rússia não irá atacar primeiro”, mas que está pronta para reagir e que a “situação pode sair de controle”. Se não vai atacar primeiro, já é um bom indício.

O fato é que Putin meteu-se numa enrascada nessa guerra na Ucrânia. Já falei múltiplas vezes da expectativa que ele tinha quando desencadeou o que continua a chamar de “operação militar especial”. Era coisa de poucos dias. Já dura um ano e não há perspectiva de vitória. Está em meio a profundo desgaste e precisa da vitória para sobreviver. Acabou usando a guerra para obstaculizar qualquer movimento de oposição, construindo uma sociedade fechada, hostil às liberdades e aos movimentos sociais, entre outras coisas. No seu discurso desta quarta-feira voltou a dar uma de moralista traçando uma caricatura do Ocidente ao dizer: “Vejam o que está acontecendo com seus povos. A destruição da família e da identidade cultural e nacional. A perversão, o abuso dos meninos, incluindo a pedofilia, são normas de vida. E os sacerdotes são obrigados a abençoar matrimônios entre pessoas do mesmo sexo”. Hoje na Rússia, todo movimento que conteste Putin é reprimido pela força.

Para seus críticos e para alguns que até foram seus aliados, Putin está destruindo o que ele mesmo havia construído. Ou seja, a recuperação da Rússia depois do colapso da União Soviética e do subsequente governo cambaleante de Boris Yeltsin. Sob Putin, a Rússia teve presença marcante no G-7, o grupo das economias mais industrializadas e ricas do mundo. A primeira cúpula com oito membros ocorreu em 1998, fazendo com que o grupo passasse a se chamar G-8. Em 2006, em Kananaskis, os chefes de Estado e de governo tomaram uma decisão histórica ao convidar a Rússia a exercer a presidência do G8 e a sediar pela primeira vez a reunião de cúpula, levando em consideração importantes mudanças econômicas e democráticas ocorridas nesse país nos últimos anos, além do arsenal bélico que possui. No entanto, a obsessão de Putin pela Ucrânia levou o grupo a expulsar a Rússia, em 2014, depois que ele anexou a Crimeia e tentou tomar a região do Donbas. O Grupo voltou a ser G-7 e Putin se transformou de parceiro em um inimigo perigoso.

Voltando à situação atual, não se pode esquecer que o Ocidente também está desgastado com esta guerra. Já destinou mais de 150 bilhões de dólares para a Ucrânia e está vendo sua produção de armamentos se esgotar. Assim, para todos os lados seria interessante que a China apresentasse uma proposta realmente viável na próxima sexta-feira conforme prometeu. No entanto, as posições cada vez mais extremadas não embalam a perspectiva de que a China possa fazer o milagre de acabar com a guerra.