Jurandir Soares

A hora da decisão

Não foi sem razão que nos últimos dias de campanha o republicano Donald Trump e a democrata Kamala Harris trataram de passar por todos os “swing states”

Acompanho eleições dos Estados Unidos há mais de 50 anos e não lembro de uma ocasião em que os dois candidatos tenham ido para o dia de votação com tamanha igualdade nas pesquisas eleitorais. Não foi sem razão que nos últimos dias de campanha o republicano Donald Trump e a democrata Kamala Harris trataram de passar por todos os “swing states”, os chamados estados-pêndulo, que são aqueles em que o eleitorado pende ora para um lado, ora para outro.

Dentre esses estados-pêndulo em que as pesquisas apontam empate técnico está a Pensilvânia. Por isto é bom lembrar que na eleição de 2016 Trump ganhou naquele estado e conquistou a presidência. Já em 2020, Joe Biden ganhou na Pensilvânia e foi o vencedor da eleição presidencial.

SISTEMA

É sempre importante ressaltar o peculiar sistema de votação dos Estados Unidos, que difere do brasileiro e da maioria dos que são realizados pelas democracias mundo afora. Na eleição de 2016, Hillary Clinton fez 3 milhões de votos de eleitores a mais que Trump, no entanto, perdeu a eleição porque o republicano teve maioria no Colégio Eleitoral, que é composto de 538 delegados, definidos de acordo com o número de eleitores de cada estado.

Voltando à Pensilvânia, esta tem 19 delegados ao CE. Assim, para exemplificar, mesmo que se dê uma votação muito igual, em que um candidato tenha 50,5% enquanto o outro fica com 49,5%, aquele que fez mais leva os 19 delegados. Ou seja, fosse aqui, a diferença iria influir pouco no cômputo geral. Lá influi decisivamente.

VOTAÇÕES

Vale lembrar também que não serão eleições apenas para presidente. Haverá a renovação dos 435 integrantes da Câmara dos Representantes e de um terço do Senado, processo que se repete a cada dois anos. O total de eleitores é de 244 milhões, porém o voto não é obrigatório. Como sempre acontece a cada eleição, estados estarão realizando votações paralelas em que a população decide sobre temas como aborto, maconha ou salário mínimo.

DECISÕES

Como se trata da maior potência do mundo, as eleições nos EUA geram muito expectativa. Desde o intercâmbio comercial, passando pelo apoio às guerras e chegando até a questão da imigração. Este último, um dos temas mais controversos, porque, diariamente, a fronteira sul do país é inundada por gente querendo entrar sem visto.

Ao tempo de seu governo, Trump anunciou a construção de muro na fronteira do México. Deu continuidade ao já existente, mas não conseguiu concluí-lo. Agora, ele acusa Kamala de, como vice-presidente, ser leniente com a entrada de imigrantes ilegais. O fato é que a economia dos EUA precisa dos imigrantes. Eles atuam nos setores da construção civil, hotelaria, obras de trânsito, de redes elétricas etc. Aliás, há algum tempo, passou um filme chamado “Um dia sem os mexicanos”. Resumindo: parou tudo no país.

Já o cidadão americano quer recuperar uma estabilidade econômica que desfrutava, mas que há muito perdeu. Primeiro, foi a crise imobiliária de 2008/09. Depois, a pandemia em 2020, cujos efeitos ainda se fazem sentir. Seja Trump ou seja Kamala, é muito difícil que a situação de então possa ser restabelecida.

EXTERIOR

Em termos de conflitos internacionais, seguramente que a Guerra Econômica 2.0 travada com a China irá continuar. Seja quem for o vencedor, a taxação aos produtos chineses será mantida. Não é sem razão que Elon Musk – produtor do carro elétrico Tesla - está dando amplo apoio a Trump, porque este prometeu taxar em 100% os BYD e outros produtos chineses que entrarem no mercado americano.

Quanto às guerras, com Trump ou com Kamala continuará o apoio a Israel. Porém, na questão da Ucrânia haverá mudança. Trump disse que, assumindo, acaba com a guerra no outro dia. E fará isto cortando a ajuda dos EUA para a Ucrânia, que já chegou a 64 bilhões de dólares. Deverão piorar também as relações com os membros da OTAN, que estão dando amplo apoio à Ucrânia, pelo temor do expansionismo de Vladimir Putin. Como Trump sempre teve uma boa relação com Putin, quem sabe possa acertar com ele o fim da guerra. O que, inevitavelmente, implicaria a entrega para a Rússia dos territórios ucranianos invadidos por Putin.

Quanto ao futuro tudo são especulações. Resta aguardar o resultado das urnas e esperar que Trump não faça o que foi previsto pela revista Time. Ou seja, tão logo seja terminada a votação vai se anunciar vencedor. Mas, se for derrotado, vai denunciar fraudes na eleição. O que, diga-se de passagem, não será novidade.