A língua do presidente norte-americano, Donald Trump, se assemelha a uma metralhadora giratória, que sai disparando para todos os lados, sem se importar se está atingindo inimigos ou amigos. Assim, as declarações que saem desta metralhadora podem ser totalmente fora de propósito e desrespeitosas para com um vizinho, como a de transformar o Canadá no 51° estado norte-americano, algo que ele voltou a afirmar nesta semana. Ou podem ser reparadoras de discrepâncias, como a de proibir pessoas trans de participarem das competições esportivas como mulheres.
Trump usa nas questões políticas e econômicas sua mesma estratégia da longa carreira de empreendedor imobiliário. Ou seja, ele diz que tal imóvel custa dois milhões, quando ele quer vender por cerca de um milhão. A “pequena diferença” é que relações internacionais não se comparam a negócios imobiliários.
TAXAS
O que tem chamado mais a atenção nos últimos dias é a questão da aplicação de taxas de 25% sobre as importações de aço e alumínio. Decisão que atinge Canadá, Brasil e México, pela ordem, os três principais fornecedores. Vale lembrar que os EUA consomem 82 milhões de toneladas de aço na sua produção industrial. E precisam importar 26,4 milhões de toneladas para atender a demanda. Assim, o que seria importado chegaria mais caro ao país, devido à taxação, o que aumentaria o preço do produto americano, fomentando a inflação.
Daí é de se deduzir que Trump possa repetir o que fez em 2018, quando em seu primeiro mandato impôs taxas de 25% para o aço e 10% para o alumínio. Naquela ocasião, em seguida revogou a medida para Canadá e México. E, depois de uma negociação com o então presidente Jair Bolsonaro, retirou o Brasil da lista dos países taxados.
UCRÂNIA
Fora de propósito têm sido suas declarações sobre os conflitos do Oriente Médio e da Rússia com a Ucrânia. Aliás, a propósito deste último conflito ele fez bombásticas declarações, antes de assumir, de que terminaria com a guerra no dia seguinte à sua posse. Claro que este “dia seguinte” é simbólico, porém até agora não se viu nada de concreto na busca do fim daquela guerra. Ontem, porém, ele deixou aberta a possibilidade de uma reunião com Vladimir Putin, ao declarar que havia conversado com o presidente russo e que ambos decidiram trabalhar juntos e iniciar negociações sobre a guerra na Ucrânia.
Quem sabe daí possa surgir uma solução para o conflito e Trump possa se vangloriar de ter alcançado o que prometera. Só o que se espera é que essa negociação não resulte numa capitulação da Ucrânia. E o pior, que venha a acontecer aquilo que ele disse de forma sutil nesta semana. Ou seja, que a Ucrânia poderia ser incorporada à Rússia. Isto seria sepultar o sonho já demonstrado pela maior parte dos ucranianos de querer se libertar do tacão russo e passar a fazer parte da Europa.
GAZA
Fora de contexto sua declaração de tirar os palestinos de Gaza e de transformar aquela área numa Riviera. Ora, Gaza – assim como a Cisjordânia – é terra natal dos palestinos. Absurdo querer tirá-los dali e mandá-los para Egito, Jordânia e outros países, “porque teriam moradias muito melhores”. Mais uma vez Trump age como empreendedor imobiliário, ao quer tirar a população de uma área valiosa, que está junto ao Mar Mediterrâneo, e transformá-la num grande empreendimento imobiliário. Pois ele aventou até a hipótese de os EUA tomarem conta da área.
Outra declaração fora de propósito foi a de incentivar o governo de Israel a romper com a trégua e retomar a guerra contra o Hamas. Neste sentido, demonstra não estar nem aí para os reféns israelenses que ainda estão retidos, assim como para com suas famílias. Tampouco liga para que a catástrofe volte a se abater sobre os palestinos de Gaza, no momento em que tentam voltar para casa. Não se importa que morram mais palestinos, além dos cerca de 45 mil que pereceram durante o conflito. Assim como também poderão morrer mais alguns dos jovens soldados de Israel.
LIBERDADE
Por fim, é preciso destacar o ataque à liberdade de expressão, quando Trump mandou expulsar da Casa Branca, nesta terça-feira, um jornalista da Associated Press – uma das mais respeitadas agências de notícias do mundo – pelo fato de a empresa de comunicação não ter aderido à sua decisão de mudar o nome do Golfo do México para Golfo da América. Como ressaltou em nota a AP, um atentado contra a Primeira Emenda da Constituição dos EUA, que assegura a liberdade de expressão.
Enfim, tudo isto e ainda não decorreu um mês de governo Trump. Pois a metralhadora verbal continuará atirando por todos os lados.
