Jurandir Soares

A mortandade em Gaza

Os palestinos, que têm que se deslocar de um lugar para outro em Gaza para sobreviver, são vítimas de todas as forças envolvidas na guerra

A mortandade de civis palestinos em Gaza é algo que está apavorando o mundo. E não bastasse serem vítimas dos bombardeios, passaram a morrer também no ato desesperado de conseguir algum alimento nos escassos postos de distribuição que foram impostos por Israel e Estados Unidos. Chegou-se ao ponto de Israel admitir ter matado civis em busca de ajuda humanitária em Gaza e diz investigar bombardeio em área de descanso. O Exército israelense afirma, porém, que o número de vítimas divulgado pelo Hamas é “exagerado”. Pode ser, mas não deveria haver nenhuma vítima deste tipo de situação.

A declaração foi feita na segunda-feira, três dias após o jornal israelense Haaretz publicar que membros do Exército judeu disseram ter recebido ordens para disparar contra multidões desarmadas próximas aos pontos da Fundação Humanitária para Gaza (GHF, na sigla em inglês), organização apoiada por Israel e pelos Estados Unidos, que assumiu, há pouco mais de um mês, a entrega de alimentos e outros suprimentos essenciais no território palestino. Pelo menos 130 organizações de direitos humanos pedem encerramento de grupo de ajuda apoiado por Washington e Tel Aviv.

VÍTIMAS

O problema é que estes indefesos palestinos, que têm que se deslocar permanentemente de um lugar para outro em Gaza para sobreviver, são vítimas de todas as forças envolvidas na guerra. A começar pelo Hamas que – usando uma expressão nossa – cutucou a onça com vara curta. Sua ação levou à reação de Israel e a esta mortandade e destruição que se vê hoje em Gaza. Não é sem razão que cada vez mais se veem protestos dos palestinos contra a organização terrorista. E a mortandade passa por Israel que, na ânsia cega de acabar com o Hamas, passa por cima dos preceitos humanitários, matando indiscriminadamente milhares de civis indefesos.

De outra parte, há o sofrimento das famílias dos reféns, que estão há quase dois anos sem informações sobre seus entes queridos. Acrescente-se o sofrimento das famílias dos soldados israelenses que acabam morrendo na guerra. E tudo fica na dependência de um acordo de cessar-fogo. Enfim, o que mundo vê é uma guerra que, desde o seu início, é marcada pela crueldade e ódio que uma parte tem pela outra.

FRACASSO

O problema é que tanto Israel quanto EUA não aceitaram mais o sistema de distribuição de alimentos que era realizado por entidades humanitárias e por serviços de refugiados da ONU. Daí resolveram instalar a GHF. Ao contrário das promessas iniciais da fundação, a distribuição de alimentos tem sido caótica, com multidões desesperadas correndo em direção às pilhas de caixas, em um sistema que o chefe da agência das ONU para os refugiados palestinos (UNRWA), Philippe Lazzarini, definiu como “uma abominação”. Apenas no primeiro mês desde a inauguração dos centros — são apenas quatro desses locais para todo o território de 2 milhões de pessoas. E o pior, geralmente abrem por apenas uma hora pela manhã. De acordo com a agência Reuters, um soldado de Israel disse ao jornal Haaretz que o local “é um campo de extermínio”: “No local onde eu estava, entre uma e cinco pessoas eram mortas todos os dias”.

ESCOLHA

Um comunicado emitido por organizações internacionais, entre elas Oxfam, Save the Children e Anistia Internacional, diz: “Hoje, os palestinos em Gaza enfrentam uma escolha impossível: morrer de fome ou arriscar serem baleados enquanto tentam desesperadamente conseguir comida para alimentar suas famílias. Crianças órfãs e seus cuidadores estão entre os mortos, com crianças feridas em mais da metade dos ataques contra civis nesses locais”. De sua parte, o governo israelense tem a obsessão de não acabar com a guerra enquanto não exterminar o Hamas.

Na realidade, se o mundo árabe pensa em paz, é preciso acabar com o Hamas. Enquanto o Hamas tiver força irá imperar o radicalismo também pelo lado dos palestinos. E dentre os palestinos há organizações moderadas, que podem conduzir uma negociação de paz, como o Fatah, que controla a Autoridade Palestina. E o futuro de Gaza, assim como da Cisjordânia no pós-guerra passa por uma ampla articulação no Oriente Médio, onde terão papel decisivo os países árabes, especialmente, os que estão firmando acordo de paz com Israel, dentro do que o presidente Trump convencionou chamar de Acordos de Abrahão. Cabe a países como o Catar – que não é signatário do acordo, mas é poderoso – deixar de abrigar lideranças do Hamas e de dar suporte militar para a organização.

Porém, quem pode cumprir melhor o papel de indutor de um novo futuro para Gaza é a Arábia Saudita. O país mais poderoso do Golfo e que já condicionou a assinatura de um acordo com Israel à solução do problema palestino. Assim é que a monarquia saudita é o tênue facho de esperança para o futuro dos palestinos.