Jurandir Soares

A proposta de paz da China

A crise em função dos balões espiões impediu a ida do secretário de Estado norte-americano Antony Blinken à China

A crise em função dos balões espiões impediu a ida do secretário de Estado norte-americano Antony Blinken à China, conforme estava programado. No entanto, o representante da diplomacia dos EUA não deixou de se reunir com o seu homólogo chinês, Wang Yi, o que ocorreu por ocasião da Conferência sobre Segurança em Munique. Segundo os relatos, o clima entre ambos não foi dos mais amistosos. Pelo contrário, Blinken, por exemplo, advertiu o chinês sobre a possibilidade de seu país enviar armas para a Rússia lutar contra a Ucrânia, alertando que isto teria consequências graves. De acordo com o jornal britânico The Guardian, os EUA acreditam que a China possa estar fornecendo informações oriundas de espionagem para o grupo Wagner, entidade de mercenários que atua em nome da Rússia na Ucrânia e que tem obtido os melhores resultados para Moscou.

Wang não falou em ajuda à Rússia. Pelo contrário, indagou que tipo de ajuda os países poderiam dar para acabar com o conflito. E deu indiretamente uma alfinetada nos EUA. Disse, sem nomear as partes, que “algumas forças aparentemente não querem que as negociações sejam bem-sucedidas, ou que a guerra acabe logo”. E veio com uma grande surpresa ao anunciar que na próxima sexta-feira, 24, quando a guerra completar um ano, seu país irá apresentar uma proposta de paz para o conflito. Segundo ele, o plano foi apresentado para Alemanha, França e Itália e reforça a necessidade de manter os princípios de respeito à soberania e à integridade territorial, ao mesmo tempo em que faz ponderações sobre os pleitos russos em relação à segurança de seu território. O que transparece neste caso é que a proposta será de uma retirada russa dos territórios ucranianos e, ao mesmo tempo, uma promessa da Ucrânia de não fazer parte da Otan. Lembrando que foi esta intenção ucraniana que levou a Rússia a invadir o país. Resta saber se estaria incluída na proposta a intenção da Ucrânia de fazer parte da União Europeia, posto que não é uma aliança militar, mas, um grupo de negócios e de integração. Resta saber também se a Rússia vai concordar em parar com o conflito sem levar nada. Nem mesmo uma das províncias separatistas da região do Donbas. Mas, enfim, a proposta chinesa é uma luz que surge em meio às trevas a que foi levada a guerra.

Guerra que teve nesta segunda-feira a surpreendente visita do presidente dos EUA Joe Biden a Kiev, a capital da Ucrânia, onde se encontrou com o presidente Volodimir Zelensky. Viajou de trem a partir da Polônia, num trajeto que durou aproximadamente uma hora. Simbolicamente, um grande desafio a Vladimir Putin, muito embora a passagem por ali tenha sido rápida e a divulgação feita somente depois de Biden ter voltado para a Polônia, onde articula reforços para a Ucrânia. Há, porém, uma realidade: o Ocidente não consegue mais produzir armamentos em número suficiente para atender a Ucrânia, o que foi ressaltado pelo secretário geral da Otan, Jens Stoltenberg. Alguns dos armamentos necessitam mais de dois anos para serem finalizados. Tanto os Estados Unidos quanto a Europa, e a Rússia, estão gastando horrores com esta guerra. Sem contar a Ucrânia, que ainda por cima está sendo destruída e vendo sua população civil e seus soldados morrerem. Então, parece que esta guerra não interessa a mais ninguém, a não ser a alguns estrategistas radicais de Washington, que não querem parar enquanto não verem a Rússia destruída. Assim, está mais do que na hora dos envolvidos darem atenção ao que a China irá apresentar na próxima sexta-feira.