Na medida em que a situação no Oriente Médio beira a catástrofe, crescem as mobilizações com busca a um cessar-fogo na Faixa de Gaza o que, pelo menos teoricamente, implicaria também o término do confronto do Hezbollah com Israel. Isto porque a ação do grupo sediado no Líbano se dá em apoio ao Hamas e, segundo suas lideranças, terminará quando findar a guerra em Gaza. E este término está na dependência de um acordo que está esbarrando em um aspecto. Enquanto o Hamas exige a retirada total das forças de Israel de Gaza, com a entrega dos sequestrados, Israel quer a entrega dos reféns, mais a manutenção de uma força militar numa área que chama de “Cinturão Filadélfia”, que se trata de uma faixa de terra separando o sul de Gaza do Egito.
ETAPAS
Egito, Estados Unidos e Catar estão trabalhando intensamente em busca de um consenso entre as partes para o fim da guerra. E urge este término para acabar a mortandade que está acontecendo em razão dos dois conflitos. E o perigo de uma extensão, com o envolvimento de outros atores, como o Irã. Porém, é fundamental salientar que o fim desta guerra não significará o estabelecimento da paz na região. Isto porque a questão fundamental permanecerá insolúvel. E esta questão é algo que começou a ser falado com mais insistência nos últimos tempos: o Estado da Palestina.
Este estado já tem a aprovação de 109 países, inclusive do Brasil. Só que, para funcionar de forma autônoma é preciso a concordância de Israel, que ocupa militarmente muitas de suas áreas. O tema já teve até um acordo altamente festejado, em 1993, com o que se chamou de Acordos de Oslo, mediados pelo então presidente dos EUA Bill Clinton e que resultou na concessão do Prêmio Nobel da Paz para os signatários: primeiro-ministro de Israel Yitzhak Rabin e seu chanceler Shimon Peres, e o presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat.
DETALHES
Sua concretização esbarrou em detalhes que ficaram para ser ajustados posteriormente. E nessas negociações predominaram as imposições das partes mais radicais de ambos os lados, chegando-se ao ponto de Rabin ser assassinado por um judeu radical. Na sequência, Arafat foi forçando a corda em busca de maiores concessões, o que acabou resultando na queda do então primeiro ministro israelense Ehud Barak e na ascensão do radical Ariel Sharon. Tudo voltou para a estaca zero.
No meio palestino também se estabeleceu uma divisão entre os partidos políticos Al Fatah, então liderado por Arafat e sediado na Cisjordânia, e o Hamas, estabelecido em Gaza. Enquanto o Fatah mantém até hoje sua posição de aceitar a existência do Estado de Israel em troca da existência do Estado da Palestina, o Hamas radicalizou-se, passou a ser um grupo armado que não aceita a existência de Israel e ainda expulsou de Gaza o seu coirmão Fatah.
CAMINHO
Então, no atual contexto em que se torna cada vez mais evidente que é necessária a concretização do Estado da Palestina, cabe às partes envolvidas dar força ao moderado Fatah. Buscar levar israelenses e palestinos novamente a uma mesa de negociação, pois a concretização do lar nacional para os palestinos sepultaria as alegações do Hamas para o seu movimento. Na decorrência, sufocaria também o Hezbollah.
Isto passa também por uma mudança de governo em Israel, porque a filosofia do atual é ampliar a instalação de colônias judaicas na Cisjordânia, portanto, em território palestino, para ir gradativamente tomando aquelas áreas. Aliás, é praticamente certo que Netanyahu não continuará no governo no pós-guerra. No entanto, será fundamental a ascensão de um governo moderado para levar adiante uma possível negociação com o Fatah.
Volto a ressaltar que existe um caminho para levar a paz e a prosperidade para todas as partes na região. São os Acordos de Abrahão liderados pelo então presidente americano Donald Trump. Preveem a junção do conhecimento técnico de Israel com os investimentos árabes para uma cooperação ampla e a transformação da Palestina numa espécie de Vale do Silício. Para que tudo se concretize está faltando um importante e decisivo parceiro: a Arábia Saudita. Esta condicionou sua associação à solução da questão palestina. Portanto, o caminho para a paz existe, o que precisa é gente com disposição de trilhá-lo.
