A Alemanha e a França são os “carros-chefe” do processo de unificação da Europa. Um processo trabalhado ao longo de muitos anos, com vistas a sepultar as divergências que levaram a Europa a duas grandes guerras, em que esses dois países estavam em lados opostos. Este processo acabou com a concretização da União Europeia, cujo princípio básico passou a ser a livre circulação de pessoas e de mercadorias. As fronteiras foram levantadas de forma a, muitas vezes, as pessoas cruzarem em um veículo de um país para o outro sem se dar conta do que estava ocorrendo. Pois, este princípio básico acaba de ser derrubado pela própria Alemanha.
O primeiro-ministro social-democrata Olaf Scholz acaba de anunciar o estabelecimento de controle na fronteira. E isto se dá em função de uma questão básica que está assustando toda a Europa: a crescente migração e, com ela, o aumento da criminalidade e até a presença do terrorismo islamita.
CLUBE
“Bem-vindo ao clube”, saudou o primeiro-ministro da Hungria Viktor Orbán, um dos primeiros a adotar a linha dura contra a imigração. O anúncio alarmou alguns vizinhos como Polônia e Áustria, cujos governos veem ser abalado um dos pilares da União Europeia. Já a Grécia, que é um dos principais países de entrada, teme um aumento de pressão migratória.
A decisão do governo alemão vai ao encontro do que propugnam os partidos de direita na Europa. Com destaque para o Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen, na França, e a AfD, Alternativa para a Alemanha, que experimentou um significativo crescimento na última eleição. Venceu as eleições regionais na Turíngia e ficou em segundo lugar na Saxônia. Marine Le Pen aproveitou o anúncio do governo alemão para lembrar que foi o seu partido que, nas eleições europeias de junho, defendeu o princípio da dupla fronteira.
LIMITE
Esta dupla fronteira é chamada de comunitária e nacional, o que significa que haverá o controle, porém os cidadãos dos países da Comunidade Europeia terão passagem livre, ficando os demais sob o controle das autoridades de imigração. Um sistema que Orbán entende que deve ser implantado em toda a Europa. Tanto que criou, para atuação junto ao Parlamento Europeu, um grupo chamado de Patriotas pela Europa, o qual já teve a adesão do espanhol Vox.
Orbán tem estado em permanente conflito com as lideranças europeias. Ele rechaçou uma multa de 200 milhões de euros imposta pelo Tribunal de Justiça da UE, por negar o direito de asilo durante a crise dos refugiados de 2015 e 2016. E ainda entrou com uma ação reclamando uma compensação de 2 bilhões de euros por ter protegido a fronteira exterior do chamado “Espaço Schengen”. E agora ele está ameaçando enviar para Bruxelas ônibus lotados de imigrantes ilegais. “Se Bruxelas quer imigrantes, os daremos. Mas só com passagem de ida”, declarou ele.
CONTROLE
A Comissão Europeia tem condenado todas as manifestações de Orbán, porém silenciou no que toca à decisão alemã. Evitou qualquer crítica a Berlim, justo por saber que é um dos países que tem maior peso em Bruxelas. Porém, há a convicção de que a decisão provocará o efeito cascata. Ao qual já estaria aderindo também a Holanda, cujo governo tem a participação do partido de ultradireita Geert Wilders, que defende a implantação da “política de asilo mais restritiva que já existiu”.
A Alemanha é dos países que mais recebeu imigrantes nos últimos tempos. Foi a democrata-cristã Angela Merkel que abriu as fronteiras para os refugiados da Síria em 2015, tendo entrado no país, naquele ano, algo em torno de um milhão de imigrantes. Segundo o Frontex, o órgão que controla as fronteiras europeias, a cifra de entradas irregulares na Europa caiu 39% nos primeiros oito meses do ano, com redução substancial nas rotas dos Balcãs Ocidentais e do Mediterrâneo. O detalhe é que aumentou substancialmente através do Canal da Mancha que, aliás foi o principal motivo do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia. O que significa que, com o controle de fronteiras, é possível o retorno. Porém, o fundamental é que aquele pilar da União Europeia, de livre circulação de pessoas e de mercadorias, foi abalado.
