Jurandir Soares

Aceno de outra catástrofe

Ataques vêm sendo perpetrados por Israel, em escala ascendente, e fazem com que a cada hora se tenha a informação de mais mortos e feridos no Líbano

O que está acontecendo no Líbano se encaminha para ser uma catástrofe semelhante à que ocorre em Gaza. Ressaltando desde logo que tudo é decorrência do ato terrorista do Hamas em Israel, em 7 de outubro do ano passado, porque a ação do Hezbollah se dá em apoio ao grupo radical palestino. Mas não deixando de salientar o desproporcional uso da força por parte de Israel, matando, em decorrência da reação, significativo contingente da população civil. O presente episódio no Líbano é uma repetição do fato anterior. Neste caso, o Hezbollah atacou o norte de Israel, fazendo com que a população das cidades da região tivesse que ser transferida, e Israel deu o troco. Só que este troco envolveu inicialmente as bases de foguetes do Hezbollah, mas, no passo seguinte, as áreas residenciais das comunidades da organização fundamentalista islâmica em Beirute.

CIVIS

E aí é o problema maior, porque não são somente os milicianos que são atingidos, mas também a população civil. Vizinhos que não têm nada a ver acabam morrendo ou ficando feridos. E é preciso salientar que os integrantes e adeptos do Hezbollah são muçulmanos xiitas. E no Líbano há multiplicidade de correntes religiosas. Desde cristãos católicos romanos, passando por cristão maronitas, cristão gregos ortodoxos e passando ainda por drusos, protestantes etc. Ou seja, muita gente que não tem nada a ver com a disputa do Hezbollah com Israel.

O problema do Líbano é que o país se tornou uma colcha de retalhos, com um governo fraco e um exército que também foi se enfraquecendo desde a guerra civil, travada de 1975 a 1990, que mergulhou o país no caos. Neste contexto o Hezbollah cresceu passando a ser uma força significativa na política libanesa, responsável por diversos serviços sociais, além de operar escolas, hospitais e serviços agrícolas para milhares de libaneses do sul.

EXPLOSÃO

Foi o descontrole dentro do país que levou à grande explosão ocorrida no porto de Beirute, em 4 de agosto de 2020, decorrente de um incêndio em um armazém que causou uma das maiores catástrofes não nucleares da história. Bairros inteiros foram destruídos, 220 pessoas morreram e mais de 6.500 ficaram feridas. Depois disto, decorreram 13 meses para que fosse nomeado um novo primeiro-ministro, cuja escolha recaiu em Najib Mikati, considerado o homem mais rico do país.

Até hoje, não conseguiram elucidar a verdade por trás da tragédia, muito menos responsabilizar quem provocou. Desde a explosão, o Líbano vive uma das maiores crises políticas e econômicas da sua história. Com uma retração de 20,3% do PIB em 2020, a inflação chegou a 200%, e a libra libanesa desvalorizou cerca 90% no último ano. De acordo com as Nações Unidas, cerca de 78% da população libanesa vive em situação de pobreza. Lembrando que, até início da década de 1970, Beirute era conhecida como a Paris do Oriente Médio.

OFENSIVA

É sob este cenário que a população libanesa encara os ataques que vêm sendo perpetrados por Israel, em escala ascendente, desde o sábado, 21, e que fazem com que a cada hora se tenha a informação de um maior número de mortos e feridos. Sendo que, em sua maior parte, são civis. Aliás, no que toca à morte de civis é preciso ressaltar o ocorrido com as explosões dos pagers. Esses aparelhos, que foram alvos de colocação de explosivos por parte de Israel, eram usados não só por integrantes do Hezbollah. Assim, morreram pessoas que os possuíam sem ser integrantes da organização, assim como pessoas que estavam por perto quando as explosões ocorreram. Tanto que morreu até uma menina de nove anos.

Não se pode esquecer que cidades israelenses também têm sido alvos constantes dos foguetes do Hezbollah. O que faz com que o número de mortos entre os civis israelenses seja quase nulo são dois fatores. Um, o sistema de alerta que, ao detectar um ataque, faz com que as pessoas busquem os abrigos antiaéreos. Outro, o sistema de proteção que detona os mísseis em pleno ar.

PERSPECTIVA

Diante do que está ocorrendo é que desponta a perspectiva de uma repetição em Beirute do que está acontecendo em Gaza. E, a propósito, considerando que a ação do Hezbollah se dá em apoio ao Hamas, a solução para parar com o conflito da organização libanesa com Israel é o fim da guerra em Gaza. Para que isto ocorra é preciso dirimir a única questão que ficou pendente. Ou seja, o Hamas exige a retirada total das forças israelenses de Gaza, enquanto Israel insiste em deixar uma força no que chama de Corredor Filadélfia, que seria uma faixa separando a fronteira de Gaza com o Egito. EUA, Egito e Catar trabalham intensivamente para a busca de acordo, cientes da catástrofe que se desenha em Beirute.