A Alemanha deu um passo histórico à direita. A Alternativa para a Alemanha (AfD), partido classificado como de extrema-direita pelas autoridades de segurança do país, venceu com ampla vantagem a eleição regional de domingo, 6, no estado da Saxônia-Anhalt. Com cerca de 44% dos votos, mais que o dobro da CDU, do chanceler Friedrich Merz, a legenda transformou-se na maior força política do estado e colocou Ulrich Siegmund, de 35 anos, no centro da política alemã.
A vitória, entretanto, não significa que Siegmund assumirá automaticamente o cargo de ministro-presidente, equivalente ao de governador. O Parlamento estadual tem 83 cadeiras e a maioria absoluta exige 42. A AfD ficou com 39, três a menos. Como os demais partidos mantêm a chamada “barreira de contenção” e rejeitam uma coalizão com a AfD, a formação do governo continua incerta. Ainda assim, o resultado representa uma ruptura histórica: é a primeira vez no pós-guerra que a extrema-direita chega tão perto de comandar um governo estadual alemão.
IMIGRAÇÃO
A força eleitoral da AfD está diretamente ligada à questão da imigração. O partido transformou a rejeição à entrada de estrangeiros em uma de suas principais bandeiras e defende uma política de “remigração”, incluindo deportações de imigrantes em situação irregular. Siegmund chegou a prometer uma ofensiva de deportação caso tivesse condições de governar.
A questão remete à decisão de Angela Merkel durante a grande crise migratória de 2015. Naquele ano, a Alemanha registrou inicialmente cerca de 1,09 milhão de chegadas de solicitantes de asilo pelo sistema de distribuição de refugiados. Após correções, o número estimado ficou em aproximadamente 890 mil. Sírios formaram o maior grupo, com 326.900 chegadas. A política de portas abertas tornou-se, desde então, um dos principais alvos da direita alemã.
RÚSSIA
A ascensão da AfD ocorre também em um momento particularmente delicado nas relações entre Berlim e Moscou. Enquanto o governo de Merz considera a Rússia uma ameaça e mantém forte apoio à Ucrânia, a AfD defende a retomada do diálogo e dos vínculos econômicos com os russos, inclusive o acesso ao gás barato. Siegmund afirma que a guerra deve ser enfrentada pela diplomacia e defende uma mudança na relação com Moscou.
O contraste tornou-se ainda maior depois que o governo alemão acusou a Rússia de estar por trás de uma tentativa de ataque com drone no aeroporto de Leipzig/Halle, em agosto. O artefato, carregado com explosivos, foi encontrado próximo a uma aeronave ucraniana e desativado sem causar vítimas. Moscou negou responsabilidade.
WASHINGTON
Apesar do nacionalismo e das críticas à política externa tradicional de Berlim, a AfD não pretende simplesmente romper com o Ocidente. Alice Weidel, uma das principais líderes nacionais da legenda, mantém canais de diálogo tanto com os Estados Unidos quanto com a Rússia. A aproximação com setores do movimento de Donald Trump também ajudou a projetar internacionalmente o partido.
Há, portanto, uma combinação peculiar: nacionalismo alemão, oposição à imigração, resistência ao apoio militar à Ucrânia e defesa de relações mais pragmáticas com Moscou, sem abandonar a possibilidade de diálogo com Washington. É uma política externa muito diferente daquela praticada pelo atual governo alemão.
TABU
O mais importante na eleição da Saxônia-Anhalt talvez não seja saber se Siegmund conseguirá ou não formar governo. É perceber que o tabu político construído na Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial está sendo progressivamente corroído. A AfD, que em 2021 havia obtido 20,8% dos votos no estado, saltou agora para cerca de 44%.
O resultado também representa uma derrota expressiva para Merz e para a CDU, que caiu de 37,1% para pouco mais de 17%. A AfD demonstrou que já não é apenas uma força de protesto, mas uma alternativa capaz de conquistar uma parcela enorme do eleitorado. Mesmo que a “barreira de contenção” impeça Siegmund de chegar ao governo agora, a eleição deixou uma mensagem clara: a direita radical deixou de ser uma força marginal na Alemanha e passou a disputar o poder.
