A vitória da CDU, direita moderada, nas eleições deste domingo que passou na Alemanha, com 30% dos votos, não repercutiu tanto quando o segundo lugar conquistado pela direitista AfD, Alternativa para a Alemanha, com 20% dos votos. Isto porque a Democracia Cristã é conhecida e a extrema direita é uma ameaça. A CDU já governou o país várias vezes, tendo eleito o primeiro chefe de governo da era pós guerra, que foi Konrad Adenauer. Figura que marcou sua presença na recuperação do país que fora destruído pela guerra.
Uma guerra que acabou com um dos mais nefastos períodos da história da Alemanha, que foi o do nazismo. E os temores hoje são de que o país possa novamente escorregar para o regime, tendo em vista o crescimento que vem tendo a direita radical, hoje representada pela figura de sua líder Alice Weidel.
REFLEXOS
É lógico que a figura da atual líder se distância em muito do tenebroso Adolf Hitler, porém, o temor paira sobre as condições do país. Vistas hoje como muito semelhantes às da chamada República de Weimar, instalada no período entre as duas grandes guerras. Ou seja, crise econômica profunda, alta do custo de vida e dificuldade de formar uma coalizão governamental. Hoje, se pode acrescentar imigração, criminalidade e mudanças climáticas.
É inquestionável que os problemas da Alemanha se acentuaram na última década em função da leva de imigrantes que passou a chegar no país. Só no ano de 2015, sob o governo de Angela Merkel, foi cerca de um milhão de migrantes. Fugidos das guerras da Síria, Iraque, Afeganistão, Iêmen, África etc.
ASILO
Os que chegavam, em sua grande maioria, ganhavam asilo e, com isto, praticamente os mesmos direitos dos cidadãos alemães, especialmente no que diz respeito à previdência. Estes que recebiam direito a asilo ainda procuravam trazer seus familiares de seus países de origem. Fato que ajudou a sufocar o sistema. Havia até o programa de “proteção subsidiária” permitindo que pessoas que normalmente não teriam direito a asilo apresentem razões gerais, como guerras ou catástrofes, que justifiquem sua permanência na Alemanha.
Na esteira dessa chegada intensa de imigrantes veio a violência. Sem contar o fato de que a maioria desses imigrantes é oriunda de países muçulmanos. E esses seguidores de Maomé, de um modo geral, não costumam se adaptar ao país que os recebe. Mas a filosofia do governo alemão, como a predominante na Europa, era de receber quem chegava.
CRESCIMENTO
A contestação à chegada de imigrantes passou a ser desenvolvida pelo partido AfD, Alternativa para a Alemanha, criado em 2013, quando obteve 5% dos votos. No entanto, na esteira da leva de migrantes chegados em 2015, o partido chegou a um percentual de 15% dos votos nas eleições de 2017. Para chegar aos 20% no domingo último. E a perspectiva é de seguir crescendo.
Na realidade, a política adotada por Merkel estava em conformidade com o que defende a Europa, que é a de bem receber os imigrantes. Isto, no entanto, só é possível quando o número de migrantes é pequeno. Não quando o volume é imenso, como aconteceu ao longo da última década. Aliás, foi este o principal fator da vitória do Brexit no Reino Unido.
MUDANÇA
Assim, é plenamente explicado o crescimento da AfD. Tanto que a CDU se deu conta disto e mudou inclusive seu discurso na campanha eleitoral que levou à vitória de seu candidato Friedrich Merz. A CDU se propôs restringir benefícios e transferências de renda a migrantes e pessoas que pedem asilo à Alemanha, reduzindo a “pão, água e sabão” a assistência aos que receberam uma ordem de deixar o país — ou cortando totalmente o benefício “quando a lei permitir”.
A sigla promete ainda uma devassa nos cadastros de refugiados para deportar aqueles que não têm mais direito de estar no país, além de criar “centrais federais de deportação” e aumentar o envio de cidadãos sírios e afegãos — países que, até aqui, eram considerados perigosos demais para que houvesse deportações.
ALIANÇA
Caberá a Merz formar uma aliança para governar o país. Já assegurou que não a quer com a AfD. No entanto, se não conseguir uma estabilidade governamental e uma completa reversão da questão migratória, verá a direita radical crescer cada vez mais. E o problema dessa direita é que as ações de alguns de seus membros transcendem os preceitos democráticos e se identificam com o nazismo. Movimento que causa arrepios na maior parte da população, mas que parece ter cada vez mais adeptos.
