Está cada vez mais perto de acontecer o que o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, mais quer: usar contra a Rússia as armas que recebe do Ocidente. Como a guerra tem os seus pruridos, até aqui havia o entendimento de que a Ucrânia só poderia usar essas armas dentro do seu território, para defender-se. O detalhe é que, passados 27 meses de guerra, a Ucrânia não conseguiu tirar o invasor russo de seu território. Pior, este invasor está na iminência de alcançar seu objetivo, ou seja, tomar toda a região do Donbas e transformá-la em território russo, conforme já fez com a Crimeia, em 2014. É diante desta perspectiva que o cenário começa a mudar. “É uma ação de legítima defesa, com o respaldo da lei internacional”, disse em Bruxelas o encarregado da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell.
PEDIDO
O próprio secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, vem defendendo a ideia, mas com a ressalva de que é uma decisão de cada país. Já para a ministra da Defesa da Holanda, Kajsa Ollongren, “a Ucrânia luta com uma mão atada às costas”. E o presidente Zelensky foi pessoalmente a Bruxelas para clamar por esta autorização. “Estão disparando contra nós e não podemos nos defender. Não podemos arriscar o apoio de nossos aliados, por isto queremos a autorização”, destacou o presidente ucraniano.
E nesta quarta-feira, a Suécia anunciou que abriu mão de seus dois aviões radar para reforçar a defesa ucraniana. Ainda não se trata de arma de ataque, mas pode ser um importante fator de proteção para os ucranianos, se houver a autorização proposta. O fato é que as forças russas avançam na tomada de Kharkiv, a segunda maior cidade ucraniana, com a certeza de que o país não pode atacar os lançadores de mísseis que estão sendo disparados de dentro da Rússia. Isto porque Kiev não pode usar mísseis ocidentais que teriam o alcance necessário. Enquanto isso, defesas aéreas fabricadas pelo Ocidente não podem tentar derrubar foguetes russos até que eles cruzem a fronteira ucraniana, que está a apenas 25 quilômetros de Kharkiv.
ADVERTÊNCIA
“A escalada constante pode levar a sérias consequências”, destacou o presidente russo, Vladimir Putin, a repórteres, em sua passagem por Tashkent, no Uzbequistão. “Se essas consequências sérias acontecerem na Europa, como os Estados Unidos se comportarão, levando em consideração nossa paridade no campo das armas estratégicas?”, questionou. Para dissuadir o Ocidente, Putin tem se valido da ameaça nuclear. Algo impensável no atual momento. No entanto, conhecendo-se a figura do líder russo, não é de se duvidar que, em uma situação de iminente derrota, ele venha apelar a este tipo de arma.
A invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, desencadeou o pior colapso nas relações com o Ocidente em 60 anos, e a crise está escalando para o que diplomatas dizem ser sua fase mais perigosa até agora. A invasão causou a morte de dezenas de milhares de civis ucranianos, forçou milhões a fugir para o exterior e reduziu bairros e cidades inteiras a escombros. Embora o momento seja levemente favorável à Rússia, Putin tem dado demonstrações públicas de descontentamento com o resultado da guerra. Tanto que não só trocou o ministro da Defesa, como também decretou a prisão de cinco altos oficiais daquela pasta. Acontece que, além de incompetência de alguns comandos, também está funcionando a corrupção.
REFORÇO
Assim é que agora a Ucrânia recebe armas para proteção futura. Mas o objetivo de Kiev é ter à sua disposição um contingente de caças F-16, para aí aliar os dois sistemas à disposição. Dinamarca, Bélgica e Holanda prometem entregar os primeiros caças, que estão desativando de suas frotas em favor do também americano F-35, no segundo semestre. A Polônia também já se manifestou disposta a mandar todos os caças F-16 de que dispõe. Só o que falta para que tudo entre em operação é a autorização para utilização dentro do território russo. O que, pelo que se observa, está muito próximo de acontecer. Afinal, o próprio secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, já havia declarado que uma derrota da Ucrânia para a Rússia seria uma derrota do Ocidente.
