Jurandir Soares

As guerras de Trump e Putin

O mundo volta a viver sob a lógica dos “senhores da guerra”

O mundo volta a viver sob a lógica dos “senhores da guerra”, figuras que concentram poder, decidem conflitos e redesenham a geopolítica a partir de interesses próprios. De um lado, Vladimir Putin mantém sua ofensiva na Ucrânia, sustentando um projeto de recomposição da influência russa no espaço pós-soviético. De outro, Donald Trump conduz uma guerra contra o Irã que mistura estratégia militar com objetivos econômicos, especialmente ligados ao petróleo.

Embora distintos em estilo e discurso, ambos convergem em um ponto essencial: usam o poder militar como instrumento de afirmação global. Não se trata apenas de segurança ou defesa, mas de reposicionamento estratégico. Em um mundo fragmentado, suas ações indicam o enfraquecimento de mecanismos multilaterais e o retorno de uma política internacional baseada na força.

IMPÉRIO

No caso russo, a guerra na Ucrânia vai muito além de uma disputa territorial. Para Putin, trata-se de recuperar uma esfera de influência perdida com o fim da União Soviética. A ofensiva militar busca reafirmar Moscou como centro de poder sobre países que, na visão do Kremlin, jamais deveriam ter escapado de sua órbita.

Esse projeto tem forte carga histórica e simbólica. Ao insistir na guerra, mesmo diante de sanções e isolamento, Putin sinaliza que está disposto a pagar o preço para reerguer uma espécie de “império moderno”. A Ucrânia torna-se, assim, não apenas um campo de batalha, mas o símbolo de uma disputa maior sobre o futuro da ordem internacional.

NEGÓCIO

Já a guerra conduzida por Trump contra o Irã revela uma lógica distinta, mais pragmática e econômica. O foco central está no controle de fluxos energéticos globais, especialmente no estratégico Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.

As ações militares, os ultimatos e até mesmo as ameaças abertas fazem parte de uma estratégia para redesenhar o mercado energético. Ao pressionar o Irã e tentar controlar a passagem marítima, Trump busca influenciar preços, fluxos e dependências globais, transformando a guerra em instrumento de poder econômico. Em última análise, quer controlar o mercado do petróleo.

CRISE

O bloqueio do Estreito de Ormuz e a escalada militar provocaram uma das maiores crises energéticas recentes, com impacto direto nos preços e no abastecimento global. A interrupção do tráfego de petroleiros e a militarização da região elevaram tensões e afetaram economias dependentes dessa rota estratégica.

Nesse contexto, o petróleo deixa de ser apenas um recurso e passa a ser arma geopolítica. Controlar o estreito significa influenciar não apenas o Oriente Médio, mas também Europa e Ásia, tornando a guerra uma ferramenta de reorganização do poder global.

CONFRONTO

Apesar de suas diferenças, Trump e Putin contribuem para um cenário de crescente instabilidade internacional. Suas guerras ampliam tensões regionais e criam efeitos em cadeia, desde crises econômicas até deslocamentos populacionais e reconfigurações diplomáticas. Tanto Trump quanto Putin entendem que seus objetivos justificam todo o nível de violência que empregam. Inclusive se tiver que violar leis que regem as normas internacionais de relações entre países.

O resultado é um mundo mais imprevisível, em que decisões individuais têm impacto global. A atuação desses líderes reforça a ideia de que a política internacional voltou a girar em torno de grandes potências, dispostas a impor seus interesses, mesmo à custa de conflitos prolongados e de alto custo humano. O detalhe curioso é que, embora Trump e Putin tenham tacitamente acertado a divisão do mundo entre si, o americano segue dando informações de logística para a Ucrânia e Putin faz o mesmo para o Irã.