Jurandir Soares

Assange: jornalista ou criminoso?

Há uma terceira visão, dos que analisam sua figura à distância e que entendem que ele trava a luta, sempre inacabada, da liberdade de informação

Assange chegou à Austrália depois de recuperar a liberdade
Assange chegou à Austrália depois de recuperar a liberdade Foto : WikiLeaks / AFP / CP

Livre, depois de doze anos detido em Londres – sete como exilado na Embaixada do Equador e cinco numa prisão – o australiano fundador do WikiLeaks, Julian Assange, deixa uma grande interrogação a respeito de suas ações. Ao publicar milhares de documentos secretos do governo norte-americano em sua rede social, Assange estaria realizando um trabalho jornalístico, de divulgar informações para o público, ou estaria cometendo um crime, ao revelar segredos de Estado, que poderiam comprometer o governo de Washington? Pois, a resposta a esta indagação tem sido controvertida.

Em um artigo escrito nos anos 1990, Assange aborda uma citação de Oscar Wilde quando diz: “O homem é menos ele mesmo quando fala na primeira pessoa. Dá-lhe uma máscara e ele te dirá a verdade”. Três décadas depois de ter escrito isto, Assange segue sendo para milhões de pessoas uma máscara que oculta mais os prejuízos e a ideologia de seus críticos, ou as obsessões e causas de seus fiéis seguidores, do que a verdadeira personalidade do ex-hacker.

SURGIMENTO

Desde sua fundação, em 2006, a organização WikiLeaks contribuiu para revelar algumas das atividades mais sombrias levadas a cabo pelas mais altas instâncias do poder político em diversos países. Através do vazamento anônimo de milhares de documentos, esta rede internacional de ciberativistas revelou segredos militares, políticos e diplomáticos, gerando notáveis escândalos e denunciando comportamentos não éticos ou pouco ortodoxos dentro de diferentes organizações de poder. Espionagem, crimes de guerra, pressões políticas ou diplomáticas, abusos de poder ou más práticas governamentais vieram à tona graças ao trabalho do WikiLeaks.

CONTROVÉRSIAS

Para uma legião de seguidores é um mártir. Já para seus detratores é um exibicionista sedento de notoriedade. Porém, há uma terceira visão, dos que analisam sua figura à distância e que entendem que ele trava a luta, sempre inacabada, da liberdade de informação e o incessante esforço dos governos para suprimi-las.

Em dezembro de 2006, Assange colocou em atividade o WikiLeaks, um portal de internet em que começou a publicar documentos confidenciais, acompanhados de fotos e vídeos. O relato é feito pelo jornal espanhol El País, o qual revela que foi um dos primeiros meios de comunicação que participou desse esforço concentrado de publicação daqueles papéis. Numa entrevista à BBC, em 2011, Assange disse que “para manter seguras nossas fontes tínhamos que criptografar todo o material e mover constantemente pelo mundo nossas equipes de telecomunicações, para poder manter a proteção ativada em diferentes jurisdições nacionais”.

GUERRAS

Foi neste contexto que surgiram as informações sobre atrocidades cometidas por militares norte-americanos nas guerras do Iraque e do Afeganistão. Foi assim que se ficou sabendo das torturas e humilhações que eram aplicadas aos detidos na prisão de Abu Garaib, no Iraque, cujas imagens ganharam o mundo. Havia até um manual de tortura. Imagens também mostraram um helicóptero dos EUA atirando desde o alto e matando ao menos 18 civis no Iraque e dois jornalistas ocidentais. Todas essas questões culminaram com a revelação de que as tais “armas de destruição em massa de Saddam Hussein”, que o governo de George W. Bush alegou como justificativa para a invasão do país, nunca existiram.

O Diário da Guerra do Afeganistão foi o maior vazamento de documentos sigilosos na história militar estadunidense até o momento e se constitui como um grande marco no desempenho informativo do WikiLeaks. No dia 25 de julho de 2010, a organização dirigida por Assange publicou 90 mil páginas, divididas em mais de 100 categorias, que coletavam diversos incidentes e relatórios sobre a guerra do Afeganistão.

ESPIONAGEM

Acrescente-se a isto a espionagem. Em julho de 2015, o site WikiLeaks publicou uma lista com nomes de 29 dirigentes mundiais, incluindo a então presidente brasileira Dilma Rousseff, que eram espionadas rotineiramente pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, NSA, desde 2011. Esses documentos contêm comentários e relatórios elaborados por diferentes funcionários da diplomacia estadunidense. Em alguns casos, a própria natureza das expressões usadas nessas mensagens pôs em perigo as relações dos Estados Unidos com alguns de seus aliados. Outras vezes, chegaram a dificultar certas estratégias estadunidenses na política exterior. E com isto fica a indagação sobre o trabalho de Assange.