O ataque de um drone, nesta semana, contra um trem ucraniano a apenas dois quilômetros da fronteira com a Polônia não pode ser tratado como mais um episódio da longa guerra entre Rússia e Ucrânia. Há acontecimentos que, pela sua localização e pelas circunstâncias, adquirem uma dimensão muito maior do que a destruição provocada. Este é um deles. A composição atingida faz parte de uma das principais rotas ferroviárias utilizadas por autoridades estrangeiras que visitam Kiev, já que o aeroporto da capital permanece fechado desde o início da invasão russa, em 24 de fevereiro de 2022. Pouco antes do ataque, havia passado pelo local um trem diplomático que transportava o ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson, o ex-premiê sueco Carl Bildt e outras autoridades europeias. Por uma questão de minutos, uma possível tragédia internacional transformou-se apenas em um enorme susto. Um alerta permitiu que os passageiros do trem atingido fossem retirados antes da chegada do drone, que provocou incêndio e destruiu parte da composição. Ninguém morreu ou ficou ferido. Mas é justamente o que não aconteceu que revela o tamanho do perigo.
PERIGO
O episódio mostra que a guerra está chegando perigosamente perto de uma fronteira que deveria ser uma das linhas mais sensíveis da Europa. Dois quilômetros separam o local atingido do território polonês. Não é uma distância militarmente relevante quando se fala de drones. Um pequeno desvio de rota, uma falha de navegação ou uma interpretação equivocada sobre o alvo pode fazer com que uma arma destinada à Ucrânia atinja território de um país da Otan. E aí está o verdadeiro problema. Até agora, apesar dos sucessivos incidentes, a guerra permanece essencialmente limitada ao território ucraniano. Quanto mais os ataques se aproximarem das fronteiras da Aliança Atlântica, porém, maior será o risco de um acidente provocar uma reação em cadeia. Uma coisa é a Otan apoiar a Ucrânia com armas, dinheiro e inteligência. Outra, completamente diferente, é ter seu próprio território atingido.
DIPLOMACIA
O trem atacado também carrega um simbolismo que não pode ser ignorado. Desde o fechamento do aeroporto de Kiev, os trens passaram a funcionar como corredores diplomáticos da Ucrânia. Presidentes, primeiros-ministros, ministros, parlamentares e representantes de organismos internacionais chegam à capital por ferrovia. Foi assim que inúmeras autoridades estrangeiras visitaram o presidente Volodymyr Zelensky durante os mais de quatro anos de guerra. Isso transforma a ferrovia em um alvo de enorme sensibilidade.
Mesmo que não esteja comprovado que o drone pretendesse atingir alguma autoridade estrangeira, a simples possibilidade já é preocupante. Um ataque que matasse ou ferisse um chefe de governo, um ex-chefe de governo ou uma delegação internacional poderia alterar radicalmente o ambiente político da guerra.
ESCALADA
O mais grave é que os limites do conflito parecem cada vez menos definidos. A guerra começou como uma invasão russa da Ucrânia, mas transformou-se em um confronto que envolve diretamente Estados Unidos, países europeus e a Otan no fornecimento de armas, treinamento, inteligência e apoio financeiro a Kiev. O território ucraniano continua sendo o campo de batalha, mas as consequências ultrapassam suas fronteiras. A proximidade com a Polônia acrescenta uma variável explosiva. Qualquer incidente que provoque mortes em território polonês poderá gerar enorme pressão sobre os governos europeus para uma resposta.
FRONTEIRA
Por isso, o ataque ao trem deve servir como advertência. A guerra da Ucrânia não está apenas se prolongando; ela também corre o risco de se aproximar cada vez mais de um ponto em que um incidente militar poderá adquirir consequências diplomáticas incontroláveis. O trem não levou a guerra para a Polônia. Mas passou muito perto de fazê-lo. E o fato de Boris Johnson e outras autoridades terem escapado por uma questão de tempo torna o episódio ainda mais inquietante.
O ataque ao trem, sem mortos e sem feridos, terminou sem esse desfecho. Mas, a dois quilômetros da Polônia, deixou uma advertência: a distância entre a guerra da Ucrânia e uma possível crise envolvendo a Otan está ficando perigosamente pequena.
