O que se vê hoje nesses conflitos do Oriente Médio é o braço do Irã estendido pelos países da região, para armar e aparelhar todo e qualquer movimento que queira lutar contra Israel. Esta ação começou a partir de 1979, quando, sob a liderança de Ruhollah Khomeini, os aiatolás tomaram o poder no Irã, então um país democrático, implantando ali uma República Islâmica. Hoje, este braço está presente na Faixa de Gaza, com o Hamas e a Jihad Islâmica, no Líbano, com o Hezbollah, no Iêmen, com os Houthis, e no Iraque e na Síria com a Resistência Islâmica. E como disse nesta sexta-feira, em pronunciamento à nação, o aiatolá Ali Khamenei, o hoje todo poderoso homem do país, o Irã e seus aliados não retrocederão ante Israel e que o recente ataque contra este é “legal e legítimo” e se constitui num castigo “pelos crimes cometidos”. E foi adiante, qualificou de “legítimos” os atentados do Hamas de 7 de outubro de 2023.
INIMIGO
Esta posição radical do Irã é a mesma que fora adotada pelo mundo árabe quando da criação do Estado de Israel. A não aceitação da formação ali na antiga Palestina de um Estado judeu. Em entrevista, nesta sexta-feira, ao programa Acontecendo da Rádio Guaíba, o brasileiro Eric Stanley Almeida Lopes, estudante religioso, que vive há cinco anos na cidade de Qom, no Irã, disse que Teerã e seus aliados não são antissemitas, ou seja, contra os judeus, são antissionistas, isto é, contra o Estado judeu. Entendem que os judeus poderiam viver ali naquela área, mas não como formadores de um Estado soberano, mas como membros de um outro Estado. Neste caso, a Palestina, para onde foram. Lógico que, uma desculpa para tentar justificar suas ações.
SOLIDEZ
O detalhe é que os judeus instalaram ali um dos Estados mais desenvolvidos do mundo, gerando alta tecnologia e tendo se transformado numa potência econômica e militar. Durante algum tempo, especialmente, durante a Guerra Fria, foi uma espécie de ponta de lança dos Estados Unidos em meio a um mundo árabe dominado pela então União Soviética. Só que as coisas são cíclicas e mutáveis. Antes mesmo de a União Soviética ruir, muitos desses países árabes já passaram para a esfera de influência dos EUA. E boa parte da população palestina entendeu que o melhor seria ficar com a área que lhes foi destinada pela ONU, na partilha de 1947, que deu origem ao Estado de Israel.
Os próprios países árabes foram se dando conta de que, ao invés de guerrear com Israel, o melhor seria buscar cooperação. Assim, o Egito foi o primeiro a assinar um acordo de paz com Israel, em 1979. Já em 1984 foi a vez da Jordânia. Este sentimento de cooperação aguçou-se nos últimos anos, abrindo caminho para o então presidente dos EUA, Donald Trump, formular o que chamou de Acordos de Abrahão. Através deles, assinaram acordos com Israel os Emirados Árabes Unidos, Barhein, Marrocos e Sudão. Arábia Saudita, o principal país do mundo árabe, manifestou também sua disposição de assinar, mas condicionou à solução do problema palestino.
RIVALIDADE
E aí é que está o x da questão. Todos esses países árabes são rivais do Irã. Os aiatolás perceberam a força da unidade deles com Israel. E mais, a possibilidade de os palestinos moderados, que aceitam a convivência com Israel, chegarem à concretização de seu Estado nacional, graças a esta cooperação. Daí o fato de terem insuflado os seus tradicionais aliados radicais para partirem para a ação. O que se deu com os ataques do Hamas de 7 de outubro.
A partir dali o cenário passou a ser o da confrontação, com a mobilização de todos os aliados regionais do Irã para agirem contra Israel. E a reação israelense, mais uma vez, extrapolou o âmbito militar, levando à morte milhares de civis em Gaza e outras centenas no Líbano. O que, por sua vez, é motivo de condenação por muita gente e muitos países. A reação legítima de Israel escorrega no exagero levado pelo atual governo radical, o que prejudica a imagem do país, ajudando a somar pontos para os objetivos dos aiatolás.
FUTURO
Diante da atual situação, aquela perspectiva de paz e cooperação entre árabes e judeus, que ganhou força com os Acordos de Abrahão de 2020, sumiu na nuvem do obscurantismo. O fundamentalismo islâmico, que se opõe aos princípios da sociedade ocidental, ganhou mais força. E sem esquecer que, mesmo fora do âmbito de influência do Irã, ainda existem outras organizações do gênero como o Estado Islâmico, Al Qaeda etc. Sem contar o Talibã, que fez o Afeganistão voltar à idade das trevas.
