Jurandir Soares

Brics contra o Ocidente

Cúpula no Rio de Janeiro, sob a presidência do Brasil, deixa clara a posição do bloco em contraponto ao que defende o Ocidente

A reunião dos integrantes do Brics, que aconteceu no Rio de Janeiro, sob a presidência do Brasil, deixa clara a posição do grupo em contraponto ao que defende o Ocidente. O grupo, por exemplo, condenou a invasão do Irã por Israel e Estados Unidos. Porém, calou com relação à invasão da Ucrânia pela Rússia. E, pelo contrário, criticou a Ucrânia por ataques que vitimaram civis no território russo. Como se a Rússia não tivesse matado civis na Ucrânia. Aliás, Rússia, cujo presidente Vladimir Putin não pode vir ao encontro sob pena de ser preso, em função da ordem de prisão contra ele emitida pelo Tribunal Penal Internacional.

A reunião do Brics, conforme disse Alexandre Garcia, em comentário para a Rádio Guaíba, é o equivalente ao Foro de São Paulo dos graduados. Ou seja, reúne ditaduras, governos autoritários e poucas democracias. Ou seja, em contraponto a valores defendidos pelo Ocidente, especialmente, no que toca a regimes de força.

CONTRADIÇÕES

Por sua diversidade, o grupo do Brics acaba tendo suas próprias contradições. Por exemplo, um de seus membros, Arábia Saudita, cumprimentou, dias atrás, os EUA pelo ataque contra as instalações nucelares do Irã, outro membro do grupo. Da mesma forma, o presidente Lula fez durante o encontro a defesa de dois estados no Oriente Médio, Israel e Palestina. E aí entra mais uma vez o Irã, que quer a destruição de Israel.

E nas confrontações com o Ocidente está o embate com os EUA, cujo presidente Donald Trump acenou com a implantação de tarifas suplementares de 10% para os países dos Brics. Segundo Trump, seria por políticas antiamericanas do bloco. E o embate com EUA acabou envolvendo diretamente os presidentes Donald Trump e Lula da Silva. O americano criticou o que considera estar acontecendo no Brasil, uma perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Lula disse a Trump para não se envolver com as questões brasileiras.

No que toca às tarifas, Lula chamou Trump de irresponsável e equivocado. Uma confrontação que acontece no momento em que, nos bastidores, negociadores do Brasil e dos EUA tentam chegar a um acordo.

MULTILATERALISMO

Uma das bandeiras do Brics é o multilateralismo, justamente um movimento que foi criado pelos Estados Unidos e que agora, sob Trump, é deixado de lado. Sob o tema “Fortalecendo a Cooperação do Sul Global para uma Governança mais Inclusiva e Sustentável”, os líderes do Brics reafirmaram o compromisso com o multilateralismo e a reforma da governança global, buscando “um sistema internacional mais justo e representativo, com maior participação de países em desenvolvimento e mercados emergentes”.

Na realidade, o que se tem é a busca de união do chamado Sul Global, que envolve duas potências, China e Rússia, para uma confrontação com o Norte, o que pressupõe Estados Unidos e Europa.

PUTIN

Voltando a Putin, em meio ao evento, surge a notícia de mais uma morte misteriosa de pessoa, então importante, descartada pelo presidente russo. Agora, envolve o ex-ministro dos Transportes Roman Starovoit, que foi encontrado morto nesta segunda-feira (7), horas depois de ser demitido pelo presidente Putin. A polícia diz acreditar em suicídio. Segundo o Comitê Investigativo da Rússia, que cuida desses casos, Starovoit foi achado dentro de seu carro em um parque próximo de Moscou, com um ferimento a bala e sua pistola pessoal ao lado do corpo.

O político, de 53 anos, foi governador da região de Kursk, no sul do país, de 2019 até 2024. Em maio do ano passado, após ser reeleito, Putin o indicou para a pasta dos Transportes. A invasão de Kursk por forças da Ucrânia em agosto passado mudou o cenário. No escrutínio das falhas defensivas do território, foram encontradas suspeitas de corrupção, e seu sucessor Alexei Smirnov acabou sendo preso ao lado de outras autoridades do grupo político de Starovoit. Assim, mais um que se soma à longa lista de assessores de Putin desacreditados e misteriosamente mortos.

OTAN

E voltando a Lula, o presidente brasileiro criticou na reunião do Brics o aumento para 5% dos países membros da Otan no orçamento de defesa. Pois, é preciso ressaltar que isto se dá justamente pelo temor com relação às ações de Putin. Especialmente, depois do que ele está fazendo na Ucrânia. A Europa vê no horizonte a crescente possibilidade de uma guerra com a Rússia, diante dos avanços de Putin. E aí é de se perguntar, qual será a posição do Brasil? Pelo que vem acontecendo, se depender do atual governo, será ao lado da Rússia.