Jurandir Soares

Caradurismo de Putin

Pacto consolida um alinhamento cada vez mais intenso da Rússia com a Coreia do Norte, mas deixa preocupações no Ocidente de que está se travando uma aliança também envolvendo a China e o Irã

O presidente russo, Vladimir Putin, em tom ameaçador, advertiu a Coreia do Sul de que enviar armas à Ucrânia seria um grande erro. E que, em função disto, poderia fornecer armas à Coreia do Norte. Disse isto em sua passagem pelo Vietnã, tão logo encerrou uma visita à Coreia do Norte, onde acertou o envio de mais armamentos produzidos por aquele país, para a Rússia, evidentemente, usar na guerra que trava na Ucrânia. Aliás, foram encontrados restos de míssil norte-coreano em território ucraniano. E agora Putin foi a Pyongyang acertar a compra de granadas para serem disparadas através de foguetes. Putin também disse que o lançamento pela Ucrânia de míssil norte-americano contra o território da Crimeia significava uma agressão direta contra a Rússia.

ACORDO

Na sua passagem por Pyongyang, Putin assinou com Kim Jong-un um acordo de assistência mútua em caso de agressão externa. O pacto consolida um alinhamento cada vez mais intenso da Rússia com a Coreia do Norte, mas deixa preocupações no Ocidente de que está se travando uma aliança não só entre estes dois, mas também envolvendo a China e o Irã. Ou seja, os quatro grandes inimigos do Ocidente.

Esta aliança foi denunciada pelo secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, durante visita a Washington, para acertar a realização de conferência de cúpula do Ocidente, justo para discutir as consequências dessa aliança dos regimes autoritários orientais. Secundo Stoltenberg, o acordo entre Putin e Kim “leva a relação bilateral a cotas que não aconteciam desde o final da Guerra Fria. O que significa que a Coreia do Norte vai seguir provendo a Rússia de mísseis e munição, o que permitirá a Putin seguir com sua invasão da Ucrânia”.

TRANSFERÊNCIA

De acordo com o Departamento de Estado, “a Coreia do Norte transferiu, ilegalmente, dezenas de mísseis balísticos e mais de 11 mil contêineres cheios de munição, para contribuir com os esforços russos”. Ainda de acordo com a mesma denúncia, “até 4,8 milhões de projeteis norte-coreanos podem ter sido disparados contra a Ucrânia na presente guerra. Em entrevista ao The Guardian, o professor Ramón Pacheco Pardo da London School of Economics e catedrático da Vrije Universiteit Brassel, da Coreia do Sul, diz que pelo acordo de associação firmado, a Rússia vai continuar apoiando o programa de mísseis balísticos e de satélites espiões da Coreia do Norte, o que se constitui numa ameaça direta à Coreia do Sul e ao Japão”.

Outro detalhe é que incrementou-se muito nos últimos tempos, em função da guerra na Ucrânia, o intercâmbio comercial entre a Rússia e a China. Tudo que os russos deixaram de exportar para a Europa passaram a mandar para os chineses. Aliás, um fator determinante para que Moscou não sentisse os efeitos das sanções econômicas impostas pelo Ocidente. E, além disto, que Moscou tivesse uma valorização de sua moeda. Não é sem razão que o rublo se tornou uma das poucas moedas a ter valorização frente ao dólar. Na semana que passou, essa valorização estava 4,75%.

Outra constatação do Departamento de Estado é de que a China aporta 70% de ferramentas para maquinaria e 90% de componentes eletroeletrônicos importados por Moscou. Esse material estaria ajudando a Rússia a manter sua base industrial militar, em que pese as sanções do Ocidente. Ou seja, a China também está ajudando a Rússia a manter sua guerra na Ucrânia, consolidando a aliança temida pelo Ocidente. E Putin tem coragem de advertir a Coreia do Sul sobre o envio de armas para a Ucrânia.