Jurandir Soares

Conflito não termina

Os objetivos de Israel são destruir as instalações nucleares e gerar revoltas internas no Irã a ponto de derrubar o regime dos aiatolás. Ambos difíceis de serem alcançados

As populações civis de Israel e do Irã se constituem nas maiores vítimas da guerra que travam os dois países. O general Klausewitz diz que a guerra é a continuação da política. Ou seja, acontece porque a política falhou. Neste caso há dois fatores a serem analisados.

Um deles é a possibilidade política. Esta ainda existia antes de ser deflagrada a guerra. O principal aliado de Israel, Estados Unidos, ainda desenvolvia negociações com o Irã, visando um controle sobre seu programa nuclear, para que ficasse somente no âmbito civil, tendo os devidos entraves para chegar à bomba atômica. Inclusive estava marcada uma reunião, entre representantes norte-americanos e iranianos, para este domingo, 15, em Omã. O Irã se recusou a participar da reunião por estar sob ataque. Não dava para levar muita fé nessa reunião, mas era uma tentativa.

AGORA

O programa nuclear iraniano vinha sendo acompanhado desde os tempos do governo Obama, quando o Irã firmou um acordo com os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU – EUA, Rússia, China, Reino Unido e França – e mais a maior economia da Europa, a Alemanha. Era a expectativa de um controle. Quando assumiu seu primeiro mandato, Donald Trump tirou os EUA do acordo. Mesmo assim, a Agência Internacional de Energia Atômica seguiu acompanhando o desenrolar do programa iraniano.

E aí vem o outro fator a ser analisado. Israel nunca acreditou na efetividade do acordo. E a evolução do enriquecimento de Urânio nas instalações nucleares iranianas ia dando motivo para Israel realizar a ação que vinha planejando ao longo dos últimos anos. O estopim para deflagrar a operação de ataque por Israel foi a revelação da AIEA, feita na semana que passou. Ou seja, de que o Irã já enriquecia Urânio a 60%, se aproximando dos 90% necessários para a bomba.

REGIME

Israel sempre preponderou a total falta de confiança no repressivo regime dos aiatolás. Afinal, como disse Isaque Levi, correspondente da CNN em Israel, é difícil confiar em quem vive clamando: “Morte a Israel. Morte à América”. Daí o fato de ser estruturada toda uma estratégia de ataque, não só às usinas nucleares, mas de eliminação dos altos comandos militares e dos cientistas responsáveis pelo programa nuclear. Ações que contaram com a experiência e eficiência do Mossad, o serviço secreto de Israel.

OBJETIVOS

Os dois objetivos de Israel nesta guerra são destruir as instalações nucleares e gerar revoltas internas no Irã a ponto de derrubar o regime dos aiatolás. Dois objetivos difíceis de serem alcançados. O sistema nuclear foi abalado, mas não destruído. Até porque são construídos em túneis, a 90 metros de profundidade. E são vários pontos. Assim, se tem a informação de que foi abalada, mas não destruída, a usina de Natanz. Todavia, nada teria acontecido com a usina de Fordow.

Quanto à mobilização popular pela derrubada do regime é também algo dúbio. É certo que metade da população iraniana detesta o sistema vigente no país e gostaria de vê-lo caído. Porém, a história mostra que uma causa externa reforça internamente o governo. Afinal, o país está sendo atacado por um inimigo externo e é preciso resistir. Da mesma forma, Benjamin Netanyahu, muito contestado em Israel – com processo pela frente – ganha força em função da questão externa.

ALIADOS

A preocupação fica por conta da evolução do conflito e participação dos aliados. Neste ponto Israel tem recebido não só a permanente ajuda dos EUA, inclusive com sistemas de proteção aérea, como também da vizinha Jordânia, que procura abater os mísseis e drones que passam sobre o seu território em direção a Israel.

Já o Irã perdeu muito com o enfraquecimento do Hamas, Hezbollah e com a mudança de governo na Síria. Mas tem os houthis do Iêmen que se constituem na filial iraniana que ainda tem força. Capaz de auxiliar o Irã a bloquear o Estreito de Ormuz e causar um bloqueio à saída do petróleo do Golfo Pérsico, com sua consequente disparada no preço. E aí as consequências financeiras se espalhariam pelo mundo.

OUTROS

Outro perigoso aliado do Irã é outra potência nuclear, o Paquistão. Mas este tem a sua permanente disputa regional com a Índia e dificilmente irá se meter. Assim como o mais forte aliado iraniano, que é a Rússia, para quem o Irã fornece os chamados “drones suicidas”. Mas a Rússia já viu ruir na região em conflito o regime de seu grande aliado Bashar al-Assad, na Síria. E segue envolvida até o pescoço com a guerra na Ucrânia.

De qualquer maneira, em algum momento a política irá prevalecer novamente e o conflito será interrompido. Mas só interrompido, porque o Irã vai continuar com seu programa nuclear e Israel terá que voltar a agir. Ou seja, mais uma vez a sequência política-guerra.

Por fim cabe ressaltar que Trump anunciou sua mediação nas guerras da Ucrânia, de Gaza e, agora, do Irã. E fracassou em todas.