O dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues chamaria de óbvio ululante o fato de que a solução para o conflito do Oriente Médio passa pela criação do Estado da Palestina. Basta observar que, dos 193 países que integram a Organização das Nações Unidas, 142 – inclusive o Brasil – já declararam abertamente seu apoio à inclusão da Palestina na organização como um Estado independente. Ou seja, aprovação por mais de dois terços dos países-membros. Nesta última leva estão Espanha, Irlanda e Noruega. Esta saiu do papel de mediadora, que assumira nos acordos de 1993, que nunca entraram em vigor, para o de apoiadora da causa palestina.
Só quem não está entendendo isto são as autoridades israelenses, que resolveram chamar para consulta os embaixadores dos três países europeus citados, numa ação que se constitui numa demonstração de desaprovação àquilo que os países fizeram. Ação que, para muitos, é entendida como uma repreensão. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse que aceitar o Estado da Palestina seria premiar o terror de 7 de outubro, que matou 1.200 pessoas em Israel. Esquece a desproporcional reação de Israel, que já vitimou 35 mil palestinos, sendo a maior parte civis, mulheres e crianças, segundo números da ONU.
REAÇÃO
Num primeiro momento houve uma reação mundial de solidariedade com Israel e uma total desaprovação ao ato de terror do Hamas. Assim como houve também uma compreensão com o direito de Israel de reagir. Essa compreensão foi diminuído à medida que Israel bombardeava a Faixa de Gaza e o número de palestinos mortos ia aumentando. Especialmente, quando começaram a proliferar as imagens de pessoas soterradas, de pais correndo em desespero, levando ao colo o filho ferido ou já morto. Numerosos cadáveres enrolados em lençóis brancos. Somadas às imagens dos deslocamentos de palestinos de uma cidade para outra, para fugir dos bombardeios. Afinal, já se vão oito meses que essas imagens frequentam diariamente os noticiários mundo afora.
Então, a crueldade da ação em Israel do Hamas, que é um grupo terrorista, acabou sendo sobrepujada pelas ações das forças regulares de Israel em Gaza. E isto mostrou para o mundo o sofrimento do povo palestino, cuja maior parte vive sob ocupação militar de Israel. Como cidadão de segunda classe. E ainda vê a área que lhes foi destinada pela ONU ir gradativamente sendo ocupada por assentamentos de colonos judeus.
HISTÓRICO
Foram essas circunstâncias que vieram à tona e passaram a mexer com os sentimentos das pessoas mundo afora. Daí o fato de ter crescido por todas as partes o apoio à criação do Estado da Palestina. Este processo, na realidade, começou em novembro de 2012, quando a Assembleia Geral da ONU votou a favor da concessão aos palestinos de um status de Estado Observador Permanente nas Nações Unidas. A medida abriu caminho para a adesão ao TPI, Tribunal Penal Internacional, em 2015, e permitiu a abertura de investigações sobre as operações militares israelenses nos territórios palestinos. Já naquela ocasião Estados Unidos e Israel criticaram a decisão.
Agora, embora o elevado número de países que apoiam a causa, sua aprovação não será fácil. Existe um dispositivo, decorrente do absurdo poder de veto que foi concedido a cinco países, como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. O governo Biden declara que apoia a solução de dois Estados, mas exige que haja uma negociação entre as duas partes.
ACORDOS
Este acordo será possível se, como disse o editorialista de Internacional do New York Times, Thomas L. Friedman, Israel olhar menos para Rafah e mais para Riad. Ou seja, deixar de lado a invasão da cidade de Gaza, onde concentram-se mais de um milhão de palestinos, em troca de um cessar-fogo com a libertação dos reféns. Passo imediato, retomar as paralisadas negociações com a Arábia Saudita, desenvolvidas a partir dos Acordos de Abrahão alinhavados pelo então presidente Donald Trump. Os sauditas condicionam a volta às negociações com a inclusão do tema da Palestina.
No contexto dos acordos está o intercâmbio da tecnologia de Israel com os investimentos dos sete países árabes signatários. A segurança de Gaza ficaria por conta de forças árabes e seria dada força nas negociações ao Fatah, o partido moderado palestino que aceita a solução de dois Estados. Parte dos investimentos seria direcionada à Palestina, para transformá-la numa espécie de Vale do Silício. Com dois países vivendo em paz e segurança. No atual contexto, algo meio utópico, mas que poderá se concretizar se houver uma radical mudança de postura do governo de Israel.
