Jurandir Soares

Cuba à beira do colapso

Washington não esconde o desejo de ver o fim do regime comunista

Cuba atravessa um dos momentos mais dramáticos de sua história recente. A ilha vive uma combinação explosiva de escassez de combustível, alimentos e medicamentos, apagões prolongados e crescente revolta popular. A situação piorou drasticamente após a interrupção do fornecimento de petróleo da Venezuela – consequência direta da queda do regime de Nicolás Maduro e da pressão exercida pelos Estados Unidos. Sem energia, transporte e produção suficientes, a economia cubana entrou em paralisia, enquanto a população enfrenta uma crise humanitária que ameaça o próprio futuro do regime comunista.

DEPENDÊNCIA

A crise que hoje sufoca a ilha não surgiu de repente. Ela remonta à década de 1990, quando a dissolução da União Soviética retirou de Cuba seu principal sustentáculo econômico. Durante décadas, Moscou financiou o regime de Havana com subsídios, comércio preferencial e petróleo barato. Com o fim desse apoio, o país entrou no chamado “período especial”, marcado por fome, racionamento e colapso econômico.

Nos anos seguintes, o governo cubano encontrou uma nova tábua de salvação na Venezuela chavista. O petróleo enviado por Caracas sustentou a economia da ilha por mais de duas décadas. Porém, após a queda de Maduro e a interrupção abrupta das remessas de combustível, Cuba perdeu novamente seu principal fornecedor de energia, mergulhando em uma crise energética profunda.

COLAPSO

A falta de combustível atingiu todos os setores da economia. Transportes praticamente pararam, indústrias reduziram a produção e o sistema elétrico enfrenta apagões frequentes. O turismo – que havia se tornado uma das principais fontes de divisas do país – também entrou em colapso. Sem combustível para aviões e transporte interno, a atividade praticamente estagnou.

No cotidiano da população, o impacto é brutal. Falta comida nos mercados, medicamentos nas farmácias e dinheiro em circulação. A gasolina, raríssima, chega a custar cerca de 9 dólares o litro, valor absolutamente proibitivo para os padrões salariais cubanos, cuja média é de 30 dólares. O resultado é uma economia paralisada e uma sociedade cada vez mais desesperada. Só para se ter uma ideia, o maior ingresso de dinheiro no país é proveniente dos cubanos que vivem fora e enviam recursos para seus parentes na ilha.

REVOLTA

Diante desse cenário, a insatisfação popular começou a explodir nas ruas. Protestos noturnos, panelaços e manifestações têm se multiplicado em várias cidades do país. Em Morón, na região central da ilha, manifestantes atacaram e incendiaram, neste sábado, dia 14, a sede local do Partido Comunista, símbolo do poder político cubano.

O episódio revelou o nível de tensão social que cresce em Cuba. A manifestação começou como protesto contra os apagões e a escassez, mas rapidamente se transformou em vandalismo e confrontos. Cinco pessoas foram presas após o ataque ao prédio partidário, enquanto o governo prometeu punições severas aos responsáveis.

INCÓGNITA

Em pronunciamento lido pela televisão estatal, o presidente Miguel Díaz-Canel pediu calma à população e apelou para que os cubanos adaptem sua dieta e seu estilo de vida aos “novos tempos de escassez”. Ao mesmo tempo, confirmou que negociações estão em andamento com os Estados Unidos, numa tentativa de aliviar a crise energética.

O problema é que o impasse político parece longe de uma solução. Washington não esconde o desejo de ver o fim do regime comunista, enquanto a liderança cubana se recusa a entregar o poder. Com a economia à beira do colapso e a população cada vez mais revoltada, o futuro de Cuba tornou-se uma incógnita. O que acontecerá a seguir dependerá da capacidade do governo de resistir à pressão externa e, sobretudo, à crescente impaciência de seu próprio povo. E dependerá também da possibilidade de Trump encontrar uma “Delcy Rodríguez” em Cuba.